2002 – O Ano do Peixe

A nova geração de Meninos da Vila que colocou o Santos no caminho dos títulos novamente

Quem deu a bola em 2002 foi o Santos (foto: Imguol)
Diego Giandomenico, PR

– Alô?
– Oi, tudo bem?
– Tudo sim e como foi aí?
– Poderia ter sido melhor, né?
– Está voltando hoje?
– Aham! Ah, e parabéns pelo título!
– Valeu!

Essa foi a conversa que eu tive com a minha irmã via telefone logo após a decisão do Brasileirão de 2002. Ela estava lá para ver pela primeira vez seu time do coração ser campeão brasileiro. Viajou mais de 600km num ônibus lotado com outros torcedores. Sofreu perseguição de torcida adversária. Comeu as comidas mais esquisitas nos lugares mais duvidosos. Tudo para ter seu sonho destruído com 8 pedaladas do menino Robinho. Foi cruel. Mas não posso negar que foi muito divertido. Porém, antes da pitoresca final contra o maior rival, de ter eliminado outro grande rival nas quartas, um grande time nas semi e ter obtido a classificação para a segunda fase na bacia das almas, o Santos montou um elenco inusitado que em momento algum inspirou confiança em sua torcida, mas que definitivamente marcou a história do clube.

Ser santista na década de 90 era sinônimo de sofrimento. Para não dizer que foi tão ruim, o time conseguiu chegar à final do Brasileirão de 95, onde numa das arbitragens mais controversas da história, viu o adversário que há tempos estava na fila ser campeão antes dele, o Botafogo. Depois disso, apenas um título na taça Rio-São Paulo em 97 e da Taça Conmebol em 98. No Paulistão, a última conquista havia sido em 1984, ainda com Serginho Chulapa no comando de ataque.

Título nacional, só nos tempos de Pelé. Por essas e outras que o maldoso apelido “viúvas do Pelé” cabia muito bem ao alvinegro praiano. Porém tudo estava prestes a acabar. Eu podia sentir isso no ar. Afinal de contas 2002 era um ano mágico para mim, ano do meu primeiro beijo. Não tinha como um ano desse dar errado. Mas antes mesmo do meu beijo, do título e do telefonema da irmã, um elenco precisava ser montado e cabia ao polêmico técnico Emerson Leão a árdua tarefa de montagem.

O maestro da Vila, Emerson Leão (foto: Tempo de Bola)
O maestro da Vila, Emerson Leão (foto: Tempo de Bola)

“Avalia bem o elenco que tem, me diga quais jogadores você quer e vamos buscar”. Essa é frase dos sonhos que todo treinador gostaria de ouvir. Quem nunca usou o editor do FM para fazer de seu time uma máquina com dinheiro, reputação e olheiros espalhados pelo mundo. Porém a vida real é um pouco mais dura. E a realidade que Emerson Leão enfrentava era diferente.

Aqui, ele não tinha dinheiro algum e deveria apostar – e muito – na categoria de base. Naquele ano 7 jogadores foram alçados à equipe profissional: Wellington, Douglas, Michel, William (Batoré) e a dupla infernal Diego e Robinho. Para ajudar, Fábio Costa teve uma grave lesão e Júlio Sérgio foi contratado às pressas para seu lugar. Outros jovens jogadores que estavam no elenco e que ainda não tinha mostrado para o que vinham: Elano, Paulo Almeida, Renato, Maurinho, Léo, Alex. O plantel contava também com jogadores experientes, como Robert e Alberto.

Diego ou Kaká, só o tempo dirá quem foi o maior (foto: ESPN Brasil)
Diego ou Kaká, só o tempo dirá quem foi o maior (foto: ESPN Brasil)

Em resumo, o elenco era formado por jogadores da base, jogadores do interior paulista e alguns medalhões. Some isso a campanhas ruins na Copa do Brasil, Paulistão e Taça Rio-São Paulo e você tem um time bastante desacreditado.

A equipe montada por Emerson Leão era um 4-4-2 com dois meias avançados, laterais bem ofensivos, ataque rápido e defesa bem forte. André Luís e Alex ficaram conhecidos como torres gêmeas, devido à sua altura e semelhança física. Léo e Maurinho eram os laterais, Júlio Sérgio foi o goleiro por quase toda a competição, porém num lance bobo contra a Ponte Preta, ele se machucou e abriu as portas para o retorno forçado de Fábio Costa. Paulo Almeida era o leão de chácara da defesa e ao lado dele estava Renato. Diego e Elano ditavam o ritmo do meio campo. Robinho era a habilidade do ataque e Alberto era o matador.

Outros jogadores que tiveram boas participações, foram: o veterano Robert, que substituiu Diego contundido logo no começo do segundo jogo da final. William que apesar de ser bem pouco habilidoso era muito voluntarioso e marcava seus golzinhos. Wellington, Preto, Douglas e Alexandre também tiveram suas participações.

Robinho e sua sequência de pedaladas (foto: Imortais do Futebol)
Robinho e sua sequência de pedaladas (foto: Imortais do Futebol)

O Santos começou vencendo o Botafogo por 2 a 1, na Vila. Gols de Elano e Diego. Após isso, o Peixe ficou numa eterna gangorra de perder pontos fora e ganhar em casa. Assim foi até a rodada 11, quando venceu o Vasco, em São Januário, por 2 a 1, gols de Elano e Alex. Depois três rodadas de empates contra Goiás, Gama e Palmeiras. Seguido  por três triunfos sobre o Corinthians (4 a 2), Atlético Mineiro (3 a 2) e Cruzeiro (4 a 1).

Depois veio a série de três derrotas. A primeira delas para o São Paulo, no polêmico jogo onde Diego comemora um gol pisando no escudo tricolor. Depois, revés em casa para a Portuguesa e fora para o Paysandu. Em seguida, bater Flamengo e Guarani e empatar com o Bahia deixou a situação do Peixe muito boa para a classificação.

Uma vitória contra a Ponte e tudo estaria liquidado. Porém a equipe se perdeu e tomou 3 gols no primeiro tempo. Nem o gol de Robinho salvou o dia. Para a última rodada, precisava de um triunfo para contar apenas consigo mesmo. Porém a derrota para o São Caetano quase pôs tudo a perder. Não fosse o revés surpreendente do Coritiba diante do rebaixado Gama (4 a 0), o Santos jamais teria se classificado e feito história.

Nas oitavas de final, enfrentando a melhor equipe do campeonato, do craque Kaká e dona do melhor ataque disparado da competição, o time fez a lição de casa na Vila Belmiro. Alberto, Robinho e Diego anotaram seus gols e deram ao Peixe uma boa vantagem, de 3 a 1. Na segunda partida, Luís Fabiano abriu o placar, mas Léo empatou e Diego lavou a sua alma e deu a volta por cima no Morumbi que antes fora palco de polêmica.

Na semifinal o adversário era o Grêmio, famoso por ser “copeiro”. No entanto, os dois gols de Alberto e o gol de Robinho acabaram com o imortal e deixaram tudo mais fácil para a volta. No Olímpico, o solitário gol de Rodrigo Fabbri pouco pôde fazer. Santos na final contra o que possivelmente seja o seu grande rival da história, o Corinthians.

O jogo era nervoso, mas Alberto deixou tudo mais tranquilo. A vantagem de 1 a 0 parecia pouco, já que o Timão tinha vantagem dos resultados iguais. Renato ampliou e deixou tudo mais tranquilo: 2 a 0.

Para o segundo duelo, minha irmã embarcou para o Morumbi e eu fiquei vendo pela TV. Quando Robinho deu as 8 pedaladas, sofreu o pênalti e marcou o gol, tudo parecia resolvido. Mas é claro que não seria tão simples e o Corinthians mostrou toda sua força na fase final do jogo.

Deivid e Anderson, ambos de cabeça, fizeram a virada para o alvinegro paulista. Mais um gol e o título iria para o Parque São Jorge. A espera era muito cruel. E no momento de maior pressão, a estrela de Robinho apareceu. Não julgo quem se empolgou excessivamente com ele. O cara com 18 anos puxou a responsabilidade e deu o gol para Elano. Ali, o título estava nas mãos. Mas para mostrar sua forma impressionante na fase final, Robinho e o Santos deram mais um golpe no Timão. Aos 47 minutos, Robinho recebeu, dança na frente de Cléber e Vampeta, se livra de ambos, toca para Léo que corta Fábio Luciano e chuta uma bomba no canto direito superior de Doni. Incrível. O jogo acabou ali. Não precisava de mais nada. Aquele elenco já tinha mostrado todo seu valor.

A equipe do Santos era tão boa que só depois de anos percebemos isso. Alex, o zagueirão jogou por Chelsea, Milan e PSG. Paulo Almeida vestiu a camisa do Benfica. Renato foi ídolo no Sevilla. Elano jogou no Shakhtar, Manchester City e Galatasaray. Diego rodou por Werder Bremen, Wolfsburg, Juventus, Atlético de Madrid. Robinho por Real Madrid, Milan e Manchester City. Até o reserva Júlio Sérgio jogou pela Roma – tá, esse é meio absurdo mesmo. Tudo bem que nem todos foram essenciais no futebol europeu, mas foram muitos jogadores com carreira prolífera lá fora.

Jogadores do Santos tiveram considerável sucesso no exterior (foto: UEFA)
Jogadores do Santos tiveram considerável sucesso no exterior (foto: UEFA)

Depois de quase 15 anos podemos ver a grandeza do Santos de 2002, um dos maiores da história do Peixe. Este time ainda conseguiu o vice da Libertadores em 2003 e o bi-campeonato em 2004. Além de pavimentar a trajetória do alvinegro praiano aos títulos. Desde 2002 foram 2 Brasileiros, uma Libertadores, 7 Paulistas, uma Copa do Brasil e uma Recopa Sul-Americana.

Fontes
Canelada, Olhar Direto, Terra, Wikipedia, Imortais do Futebol

 

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