3 de novembro de 2013: o dia em que o Recife parou

Relato emocionado!

Heroi, Flávio Caça-Rato voa para marcar um gol histórico [Foto: Aldo Carneiro/Pernambuco Press]
Heroi, Flávio Caça-Rato voa para marcar um gol histórico [Foto: Aldo Carneiro/Pernambuco Press]
Por Diego Borges/PE

Eu nunca conseguiria contar ao certo quantas frustrações vivi com o Santa Cruz até chegar aquele domingo, 3 de novembro de 2013. Vexames, goleadas, derrotas doídas, rebaixamentos… eram inúmeros os motivos pra me fazer desistir do futebol e, consequentemente, do Santa. Mas a gente não escolhe quem e nem o quê para amar, e é incrível o quanto um simples acesso, uma simples vitória ou um simples gol te fazem apagar da memória – por um instante – todas as dores e rasgar o grito de emoção e deleite.

Eu também não conseguiria contar a que horas eu acordei naquele dia, até porque naquela madrugada eu não dormi, nem nas duas anteriores. Só me lembro que depois de varar a noite ouvindo e assistindo aos jogos históricos “pra dar sorte”, saí do quarto e fui tomar um café. Impaciente, não esquecia o relógio. Sete, oito, nove… a hora ia se arrastando e o coração batendo mais forte, na tentativa inútil de acelerar o ponteiro. Só ia estabilizar às 16h – ou não. Era meio dia quando o “pa pa pa” do programa da TV me lembrou do canto que servia de oração na arquibancada: “Nunca vou te abandonar!” Já tava na hora!

Almocei na ligeireza, tomei um banho gelado, vesti a cueca da sorte, a bermuda da sorte, a meia da sorte, o sapato da sorte, a camisa da sorte, peguei a minha bandeira e saí de casa. Fogos repicavam nas ruas, gente bêbada cantando as músicas históricas, bandeiras tricolores nas janelas, nos para-brisas dos ônibus e nos capôs dos carros, que buzinavam o toque “tri tri tri tri tricolor”. Atmosfera perfeita.

Peguei o 977 na PE-15, em Olinda, e desci no viaduto da Av. Norte – trecho relativamente perigoso do Recife, mas que me traz nostalgia dos tempos que ia ao estádio com meu pai. Logo estava na Rua Castro Alves, na Encruzilhada e, enfim, Av Beberibe. O preto, o branco e o vermelho estavam por todos os cantos. O coração voltou a bater mais forte e decidi tomar uma cerveja pra aliviar a tensão – nada adiantou. Num gole, olhei pra cima e avistei uma das torres de iluminação do Arruda. Pra quê? E tome agonia.

Um mar de gente recepciona o Santa Cruz na Avenida Beberibe [Foto: Reprodução/Youtube]
Um ‘mar de gente’ recepciona o time do Santa Cruz na Av. Beberibe [Foto: Reprodução/Youtube]

Era 13h quando alcancei o posto BR, ponto de encontro da maioria dos torcedores e mais uma parte fundamental do meu ritual de superstição. No cruzamento com a Avenida Canal já havia um mar de gente. Anteciparam o Galo da Madrugada e nem avisaram. Mais cerveja, conversa com amigos, até que o tempo passou. Quando ouvi as primeiras sirenes dos batedores da polícia, nem precisei atinar muito. “O Tricolor chegou!” Faltou foi espaço pra quem quis tocar no ônibus. Parecia até uma procissão, com o veículo fazendo o papel de andor, carregando um santo até a igreja. E quem disse que aquele ambiente não era sagrado? Tinha choro, cânticos, velas, orações, promessas… e tinha o Santa.

Eu, devoto todo, parti pro meio da rua e fui logo batendo na lataria, no ritmo dos louvores, até chegar na pequena ponte do canal. Meu celular, que filmava o momento de êxtase, caiu em vários pedaços e foi pisoteado. Quase fui junto no rebuliço. Meio alterado do juízo depois de tanto ‘mé’, ainda tive tempo pra juntar tudo. Quando levantei a vista, o time já estava inalcançável. “Vão com Deus”, disse antes de voltar a cantar, rodar a camisa no ar e beber mais uma cerveja. Combustível renovado, eu precisava entrar no estádio.

No caminho para o Portão nove, ainda deu tempo de ser entrevistado por um jornalista de um dos principais jornais da cidade – que daria uma ‘gaitada’ quando eu cheguei na redação desse jornal para um teste de estágio, três anos depois. Ele viu a minha tatuagem do escudo à mostra no peito e pediu pra gravar um depoimento para um pequeno documentário. “Isso é Santa Cruz. Ninguém tira e nem vai fazer igual. Na veia, no peito, na alma e no coração”. Falei o que dava na telha. Na época, estava brigado com meu irmão e comprei um ingresso – no primeiro dia de vendas – para assistir ao jogo nas arquibancadas, sob a desculpa de ficar mais perto do escudo – onde os atletas sempre comemoravam os títulos -, mesmo isso implicando em não ver o jogo ao lado do meu pai.

Entrei com duas horas de antecedência e já tinha gente lá. Entre eles, duas adolescentes, dois senhores da idade de meu pai, uma família inteira e um coroa com seu filho franzino, que deveria ter seus seis ou sete anos. O Arruda foi enchendo mais que bloco de carnaval. Ainda hoje teimo em entender como contaram 60 mil pessoas (lotação máxima), quando tinha duas pra cada espaço de uma nos degraus.

Eram as quartas de finais da Série C. Jogo da volta. O adversário era o Betim, que herdou a vaga do Mogi Mirim depois de um buruçu na justiça. Vencemos lá em Minas por 1 a 0, com um golaço de Tiago Costa, e um empate era o suficiente pra largar campinenses, csa’s, guaranys, águias e sair daquele calvário maldito. Mas o assunto aqui é o Santa Cruz, onde nada se ganha com facilidade – e por isso toda conquista é ainda mais comemorada. Essa não seria diferente.

Começa o jogo. Faço o sinal da cruz três vezes, beijo o dedo indicador e grito: “BORAAA!!!”, na tentativa de imitar o meu pai. Com o grito, a cachaça vai embora do corpo e as unhas vão direto pra boca, só saindo de lá pra deixar sair algum palavrão com o juiz, ou um canto em apoio a Tiago Cardoso; Oziel, Éverton Sena, Renan Fonseca e Tiago Costa; Sandro Manoel, Dedé, Everton Heleno e Raul; Siloé e André Dias.

Cada bola tocada no ataque era esperança, na defesa era medo. Sim, medo mesmo. Daqueles que fazem o menino pedir à mãe pra deixar a luz do quarto acesa de noite. Mas não era medo do Betim. Era medo do fracasso e da decepção, que cada um naquela multidão – infelizmente – conhecia muito bem. Os chutes não entravam. A bola, toda espevitada e teimosa, tinha vida própria. Se fazia de difícil tanto pro time de três cores, quanto pro de verde. Das vezes em que um saía na cara do gol, por algum motivo sobrenatural – ou não – dava errado. Assim, foi embora o primeiro tempo, levando com ele o resto das minhas unhas.

Veio o 2º tempo. Rápido, como se fosse vomitar os 45 minutos num só. Logo no primeiro deles, Raul levou pra linha de fundo e tocou voltando pra André Dias chutar forte e o goleiro deles defender no ‘susto’. Um sonoro “Uhhhh!” ecoou. A torcida se agitou ainda mais e o moleque que estava com o pai não conseguia mais ver nada, de tanta gente na frente do baixinho. O coroa, com um nítido desvio na coluna vertebral, fez cara de dor – e não era dor física. Me prontifiquei e botei o menino na cacunda e ficava fazendo algumas pausas para descansar, até que ele conseguiu um lugar pra ver bem. Era a minha pequena compensação por tantas vezes que o meu pai fez isso por mim no Arruda.

André Dias aproveita rebote e abre o placar [Foto: Paulo Paiva/Diario de Pernambuco]
André Dias aproveita “pixotada”, domina e abre o placar [Foto: Paulo Paiva/Diario de Pernambuco]

Enquanto isso, lá no gramado, a pressão era ainda maior pro Betim segurar os onze em campo e a tuia de gente ao redor. Não tinha como. Aos 11’, falta longe da área pro Santa e Éverton Sena foi bater. “Inventa não, menino! Deixa pra Raul, tu vai errar.” E não é que ele errou mesmo? Só que a pixotada virou um passe perfeito pra André Dias, livre de marcação, bater com precisão. A angústia pelo gol era tanta, que a gente nem esperou a bola entrar pra gritar. Enfim, o primeiro sorriso.

Mas ainda tinha muita bola pra rolar. E torcedor do Santa que se preze, sabe muito bem que não dá pra comemorar ou desistir antes do tempo acabar. Valente, o Betim se afoitou no jogo e foi ainda mais pra cima. O técnico Vica, percebendo que o time do Santa estava acuado, chamou Caça-Rato pra ajudar, como se convoca um super-herói icônico infantil, daqueles que a gente sabe que não é o protagonista do desenho animado, mas é tão boa praça que se faz uma questão imensa de torcer por ele.

Só que, por ironia, enquanto o Santa dava a cartada, sofria um golpe duro. Max, um verdadeiro galalau, nem esperou Caça-Rato chegar na área e, de cabeça, colocou a bola na rede. Tudo igual. O empate em 1 a 1 ainda dava Santa, só que ninguém era doido de dizer que aquilo ali tava bom pra gente. Bastava um vacilo e tudo ia desmoronar. Chance daqui, chance dali, Tiago Cardoso salvando uma, duas, três, todas. “Uma hora vai dar merda!”, gritei em desespero. Dobrou o trabalho dos médicos pra atender tanta gente que passava mal e eu via a hora de ser mais um naquele meio. O impiedoso Betim ia matar uma porrada de gente do coração. Eu não ia aguentar.

Campinense, CSA, Guarany, Águia de Marabá voltaram a me assombrar. Eu já tinha visto esse filme várias vezes e sabia como ia terminar. Eu não aguentei. A lágrima começou a escorrer e depois vieram os soluços. Vergonha? A minha dor naquela hora era infinitamente maior que o meu ego. Eu não tinha a menor ideia a quem recorrer. Já eram quase 43’ do 2º tempo e uma tragédia estava perto de acontecer. Não passava pela cabeça segurar o resultado. Sabia, de alguma forma, que aquele jogo não terminaria empatado.

Enquanto eu rezava pra sabe-se lá quem, a bola era passada para a direita. Outra lágrima descia no meu rosto quando Dedé, mais ligeiro, livrou-se do marcador e cruzou na área. A esperança acendeu num suspiro e foi logo embora, quando André Dias não alcançou a bola, mas voltou rápido, num truque de mágica, quando o goleiro errou o bote. Na linha do passe, a gente tinha um menino que sabia mais que qualquer um ali, dentro das quatro linhas, a importância de aproveitar uma chance quando ela aparece pela frente. Flávio Caça-Rato saiu da pobre Campina do Barreto para marcar um gol simples, mas que lhe garantiria um lugar na história do clube do bairro vizinho.

Quando a bola tocou a rede, eu perdi as forças e desmoronei ajoelhado. Chorava aos soluços. Campinenses, csa’s, guaranys, águias e todo aquele calvário maldito acabara ali. Era a redenção. O pai do moleque, depois de abraçar o seu filho, foi o primeiro a me amparar. “Chore não, tricolor. Agora é hora da gente sorrir. Esse tempo já acabou.” E me abraçou, como se faz a um filho. Eu o abracei como a meu pai, como a meu irmão, como a todo torcedor tricolor naquele estádio e fora dele. Nós éramos uma família. Nós éramos o Santa Cruz.

O apito final do juiz foi mera formalidade. A festa também. Eu poderia escrever mais alguns parágrafos para contar o meu quase-afogamento na piscina do clube e a triunfal volta pra casa, mas sei que a essa altura da história você já deve ter cansado de tanto ler. O dia 3 de novembro de 2013 nunca vai sair da minha memória, assim como o Santa Cruz nunca vai sair de mim. Que me desculpem os sabichões que duvidam do caráter e da competência do ‘jornalista torcedor’, mas só se consegue transmitir emoção aquele que tem ideia do quanto o futebol é capaz de fazer alguém feliz.

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