64 anos de Zico

Zico, em 1989, se despedindo do Flamengo (Reprodução/Google)
Por: Alexandre Greco, CE

Conforme o evangelho; no dia 3 de março de 1953, às 7 horas da manhã, no bairro de Quintino Bocaiúva “nasce em berço de palha e barraco de lata e vem ao mundo abraçado a uma bola” Arthur Antunes Coimbra, filho de Antunes e Matilde, irmão de Zezé, Zeca, Nando, Edu e Tunico. Segundo testemunhas, esta criança nasceu de um desdobramento astral, recriando, como diz o jornalista Roberto Assaf; “o céu, terra, mar, o fogo”. O pequeno messias nascera cercado de amor e enxergara o mundo com lentes ainda indecifráveis, mas num lindo croma vermelho e negro, foi assim que se deu o cumprimento da profecia.

O pequeno Arthurzinho passou a ser chamado de Arthurzico, até que sua prima Ermelinda o rebatizara, de forma inocente – sem saber que aquilo já havia sido desenhado no firmamento – de Zico. Mal sabia ela que toda uma nação estava prestes a gritar esse nome, em forma de sonho, como quem expurga os pecados e encontra a redenção, aos domingos, no Maracanã.

Zico começou com a bola ao lado dos irmãos e familiares, jogando futebol de salão pelo Juventude de Quintino e Ríver, do bairro Piedade, até que aos 14 anos, em 1967, chega à Gávea, sede de um dos clubes mais populares do país, que empunha as cores que tanto o menino via nas vestimentas de seu pai, um imigrante português apaixonado por futebol, que chegou a ser goleiro amador dessa mesma agremiação. Zico chegara ao Clube de Regatas do Flamengo e assim se deu um dos encontros mais significativos da história do futebol, há quem narre que da terra, nesse dia, um pequeno tremor abalara todo o Rio de Janeiro, vários relatos de um estrondo vindo do Maracanã, algo como um grito uníssono das arquibancadas vazias.

Zico nos anos 70, início no Flamengo (Reprodução/Google)
Zico nos anos 70, início no Flamengo (Reprodução/Google)

A carreira do Galinho de Quintino, apelido que recebeu do radialista Waldyr Amaral, pela forma de caminhar, o cabelo cumprido, baixa estatura e grande velocidade, já era infernal nos juniores. A estreia com a camisa rubro-negra viria apenas em 1971, com 18 anos, atuando como ponta-direita e curiosamente carregando a camisa 9 nas costas, desfilou sua elegância quando foi chamado para entrar no lugar de Buião e adivinhem que jogo era? Flamengo e Vasco pela final da Taça Guanabara!

O jogo se arrastava num empate por 1 a 1 até que Zico suspende a respiração que vinha da arquibancada, em silêncio, arquibaldos e geraldinos olhavam com atenção a nova cria da base e, envolto em mágica, o Galinho de Quintino, no último minuto faz o passe para mais um gol de anjo onde a magnética agradecida cantava “Fio Maravilha!”. Assim foi escrito, assim foi cantado.

Apenas em 1974 o galinho firma-se como titular, e neste ano outro evento abala a cidade do Rio de Janeiro: Zico recebe a camisa 10 rubro negra, aquela mesma, que se tornaria, nos anos seguintes a “bastilha inexpugnável”.

Em pouco tempo o Galinho passa a reger um Flamengo que vinha se tornando referência de bom futebol, e integra um dos escretes canarinhos mais reverenciados da história: a seleção de 82, onde 3 jogadores rubro-negros aparecem na escalação titular. Júnior, Leandro e Zico, sendo o camisa 10 e principal fonte de criatividade. O Flamengo de 1981 sagra-se a melhor equipe do mundo após bater o Liverpool por acachapantes 3 a 0 com direito a atuações memoráveis de Zico e Nunes. O mundo era vermelho e preto!

A partir daí um país inteiro se rendia ao futebol do Flamengo e de Zico, a ponto de se tornar um dos clubes mais citados no cancioneiro popular e Zico virar letra de músicas inesquecíveis, como Camisa 10 da Gávea, de Jorge Ben, que todo mundo lembra pelo menos o comecinho: “Falta, na entrada da área, advinha quem vai bater, é o camisa 10 da Gávea”. Zico realmente tinha uma dinâmica física e rítmica diferenciada, um repertório vasto de dribles curtos, lançamentos cirúrgicos, gols de placa e uma simbiose natural com a arquibancada que se deleitava com o diálogo entre a bola e o craque onde milhões de mundos conversam.

Flamengo e Cobreloa (CHI) pela Libertadores de 1981 (Reprodução/Google)
Flamengo e Cobreloa (CHI) pela Libertadores de 1981 (Reprodução/Google)

Houve momentos difíceis, como todo romance. Zico teve problemas com algumas contusões que o atrapalharam no Flamengo e na Udinese, quando, mesmo sofrendo com as dores, foi vice artilheiro do Calccio só atrás de Platini, detalhe, jogando no fraquíssimo Udinese e tendo 6 jogos a menos que o Francês. A copa de 82 e a desclassificação dolorosa para a Itália do furacão Paolo Rossi, partida conhecida como a Tragédia do Sarriá, onde os italianos pararam a grande seleção de 82, foi outro momento difícil na carreira do Galinho. Dizem que se Zico tivesse ganhado aquela Copa, poderia figurar facilmente entre os 5 maiores jogadores da história, mas como lembrou, certa feita, o jornalista Fernando Calazans, “azar da Copa!”.

O Galinho é protagonista de uma das histórias mais bonitas do futebol e um amor coletivo, um namoro recíproco entre o rei e seus orgulhosos súditos. Zico deu início a uma era no Flamengo: foram 731 jogos, 508 gols , e 333 deles marcados no Maracanã. Zico faturou 4 campeonatos brasileiros, uma Libertadores e uma Copa Intercontinental, 7 campeonatos cariocas, 9 taças Guanabara e diversos outros títulos.

Além do Flamengo, o Galinho atuou duas temporadas pela Udinese, em 79 partidas marcou 57 gols e 3 anos no Kashima Antlers, do Japão, aonde praticamente funda o esporte no país. Em ambos os clubes, Zico é  até hoje reverenciado, recebendo cidadania honorária em Udine e virando estátua no Japão.

Zico é dos raros jogadores que são, até hoje, reverenciados por torcidas adversárias, não é raro ver um tricolores, cruzmaltinos e alvinegros falarem da qualidade do Galinho, de seus gols e, claro, do orgulho de tê-lo vencido, sobretudo naquele timaço dos anos 80. Sua personalidade em campo e fora, exercendo uma liderança generosa e horizontal no Flamengo, fez dele uma figura querida entre os profissionais do esporte bretão!

O que nos resta é curtir os registros de seus gols, dribles e jogadas celestiais, imaginar o que levou os poetas a se perguntarem: “e agora como é que eu fico, nas tardes de domingo, sem Zico no Maracanã?”, pois toda uma massa se vingava das derrotas da vida a cada gol do Flamengo. Viva Zico e muito obrigado!

18 minutos de muito Zico!

 

 

Referências:

Eduardo Galeano – Futebol ao Sol e à Sombra

Crônica “Flamengo Sessentão” – Nelson Rodrigues

Saudades do Galinho – Moraes Moreira

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