A admiração de um “ex-vascaíno”

O VASCO FOI UMA PAIXÃO QUE MARCOU

Romário comemora o título da Mercosul de 2000, época em que o Vasco encantava o futebol brasileiro (Reprodução/NETVASCO)

Honorato Vieira, CE

No Nordeste, por décadas, o torcedor torcia por dois times, um do seu estado e outro do eixo Rio-São Paulo. A influência da mídia nacional, que direciona toda a sua audiência para os clubes do “centro do país” é uma das principais responsáveis para que a região  tenha a maioria da população declaradamente torcedora de Flamengo, Corinthians, Vasco, Palmeiras, São Paulo ou Santos. Mesmo com um mundo globalizado, a coisa não mudou muito em termos de programas esportivos. Apesar das filiadas das grandes emissoras transmitirem as partidas dos times de cada estado, a falta de empatia e conteúdo nos canais de esportes é vergonhoso.

Diante disso, o esquadrão vascaíno montado no início dos anos 2000 com Romário, Edmundo, Pedrinho, Ramon, Juninho Pernambucano e outros craques arrebataram o coração de muitos nordestinos que acompanhavam fielmente as transmissões esportivas naquela época; e um deles foi desse que vos escreve.

(Vasco durante o Mundial de Clubes de 2000. Foto: Agência O Globo)

Até o meio de 2001, as partidas do meu clube de coração (Ceará Sporting Club) eram acompanhadas via rádio, mas um moleque de 8 anos queria imagens. Apesar do amor incondicional pelo Vozão, o encanto pelo Vasco da Gama foi arrebatador. A camisa 11 do ‘Baixinho’ era mística para quem se reunia aos domingos a tarde para trocar tazos e acompanhar mais um show do Cruz-maltino.

Com o passar dos anos e a cada vez mais constante presença no estádios para torcer pelo Ceará, o Vasco foi ficando de lado. Como toda paixão, a beleza não é a única coisa que sustenta uma relação. Após ficar encantado com o show dentro das quatro linhas, o relacionamento só foi sustentado por muito tempo por causa da história do clube. Além das mais bonitas músicas de arquibancada do Brasil, o Vasco sempre foi vanguarda. A luta contra o preconceito e a famosa “resposta histórica” contra o racismo são um dos fatos mais marcantes desse amor.

No finado Orkut, em uma comunidade do clube, conheci a história e passei a ficar encantado com isso. Para quem não sabe, o Vasco deixou de entrar na Associação Metropolitana de Esportes Athléticos (AMEA), pois a direção da competição solicitou ao Vasco que excluísse doze de seus jogadores da competição que, não por coincidência, eram todos negros e operários. O clube se recusou e lançou a famosa carta.

Estamos certos de que Vossa Excelência será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno de nossa parte sacrificar, ao desejo de filiar-se à Amea, alguns dos que lutaram para que tivéssemos, entre outras vitórias, a do Campeonato de Futebol da Cidade do Rio de Janeiro de 1923 (…) Nestes termos, sentimos ter de comunicar a Vossa Excelência que desistimos de fazer parte da AMEA“.

O tempo foi crucial para que a escolha pelo amor verdadeiro fosse feito pela convivência diária. O Ceará é o centro de tudo, mas a admiração pelo Vasco continua, principalmente diante dos últimos fatos. Apesar de ter uma diretoria não condizente com a história do clube, a torcida continua vanguardista e progressista.

No último dia 08, um incêndio de grandes proporções atingiu o Ninho do Urubu, centro de treinamento do Flamengo em Vargem Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro e vitimou dez jogadores da base do Rubro-Negro.

Diante da tragédia, a torcida vascaína abraçou a causa como nenhuma outra, além do clube ter tido a sensibilidade de homenagear os mortos na sua camisa com o símbolo do rival.

 

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*