A América Latina merecia uma final Brasil x Colômbia

A TRISTEZA PELA ELIMINAÇÃO COLOMBIANA

Colômbia se despede do Mundial de maneira dramática Foto: Clive Rose/Getty Images
Por: José Victor – RJ

É complicado e talvez triste dizer o porquê a Colômbia cativou tanto o povo brasileiro. Complicado porque como amante do futebol sempre me vem a voz do Deva Pascovicci, a defesa do Danilo, os grandes que se foram, as famílias incompletas. Não há muitas palavras para o insuperável.

Me dói saber que talvez enquanto brasileiros nunca seríamos tão solidários quanto os colombianos foram conosco. Não sei se somos tão grandes, altruístas e humildes. É certo que por vezes ajudamos, estamos sempre felizes mesmo com as adversidades. No entanto, deixo um questionamento sem demagogia: será que seu clube abriria mão do título como o Atlético Nacional fez para consagrar a Chapecoense?

A Colômbia e seu povo prestam homenagem as vítimas do voo da LaMia (Foto: G1)

Eu até hoje torço para que avião volte, custo a acreditar que tudo não passou de um mal entendido. O fato é que nunca conseguiremos pagar o acolhimento do povo colombiano. Porém, é certo que a gratidão que nós brasileiros temos pelos nossos vizinhos nunca irá acabar.

A Colômbia que patinou em alguns momentos das Eliminatórias não poderia ser citada no início da Copa como candidata ao título. Ainda bem que futebol não é ciência exata, o sorteio foi clareando e a final passou a ser possível. Mina, aquele mesmo cara carismático que serve para o mundo inteiro, menos para o Barcelona, deixava claro que Los Cafeteros mereciam mais sorte.

Já pensou se o futebol fosse justo? A bomba de Marcos Uribe, espalmada de maneira impossível por Pickford, realizando possivelmente a defesa mais bonita da Copa do Mundo, teria entrado.

O futebol é constituído por antíteses: às vezes você joga como nunca, e perde como sempre. Às vezes você faz tudo certo e dá tudo errado. Quando a bola rola não existe ateu. Nos apegamos até ao que não acreditamos para que a história que nos convém seja plausível de acontecer. Ou então, reforçamos a fé no que mais acreditamos como fez Baltazar, ídolo gremista e homem de muita fé, após perder um caminhão de gols – incluído um pênalti – no estádio do Olímpico durante a final do Brasileiro de 1981: “Deus está guardando coisa melhor para mim.”

No jogo seguinte e decisivo, o mesmo Baltazar fez um golaço em pleno Morumbi lotado contra o São Paulo que garantiria o primeiro título brasileiro ao Grêmio. E são histórias como essas que nos fazem amar o esporte – que cada vez mais é tratado como um espelho da vida, repleto de altos e baixos.

Quando Mina subiu aos céus para cabecear no último minuto de partida, foi impossível não me lembrar de Baltazar. Foi impossível não pensar que os Deuses do Futebol estavam guardando algo melhor para a seleção sul-americana. Era o empate, aquele gosto de vitória, que deveria ser apenas uma questão de tempo acontecer, mas que, infelizmente, não aconteceu.

Quando Ospina defendeu a cobrança de Henderson, que após fazer embaixadinhas na marca dos penais vestiu as sandálias da humildade, não era mais difícil prever que o roteiro caminhava para um final feliz. Porém, a bola de Marcos Uribe insistia em não entrar. Minha amada Colômbia, o dia 3 de julho de 2018 não era pra ser seu. O nosso sentimento latino americano conduzido por Carlos Bacca e que nunca irá morrer, foi contido por Pickford.

Provavelmente os jogadores ingleses devem possuir boas histórias para contar que os levaram até a Copa do Mundo, mas saibam que estão furando fila. Dificilmente seriam tão boas quanto às histórias colombianas. Como certa vez disse o escritor Gabriel García Márquez, nascido na cidade de Aracataca, no mesmo país de James Rodríguez e companhia:

“Onze anos atrás, em 1971, o chileno Pablo Neruda, um dos brilhantes poetas de nosso tempo, iluminou este público com suas palavras. Desde então, os europeus de boa vontade — e às vezes aqueles de má vontade também — têm sido arrebatados, com cada vez mais força, pelas novidades fantásticas da América Latina, esse reino sem fronteiras de homens alucinados e mulheres históricas, cuja infinita obstinação se confunde com a lenda.”

Talvez minha obstinação em querer reviver uma final entre Brasil x Colômbia que deveria ter acontecido me fez crer que Los Cafeteros merecessem vôos mais altos. Ou a arrogância do The Sun e sua esdrúxula capa, aumentando o desejo e reforçando que não apenas era possível derrotar a Inglaterra, e sim necessário. E com um grande enredo, para demonstrar a importância da união dos povos sul-americanos e impor o merecido respeito que nós latinos merecemos.

A capa do tabloide inglês vai ficar marcada pra sempre na minha vida. Mesmo que o Harry Kane apenas jogue bola e não seja o editor chefe do jornal, ou que Henderson tenha feito apenas embaixadinhas e não colonizado meio mundo. Não, vocês não mereciam! Era vez da nossa utopia, da final sul-americana em Copas do Mundo 68 anos depois. Como diria Eduardo Galeano, grande escritor uruguaio:

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

A Colômbia pode ter sido refém de uma utopia, mas caminhou no rumo certo. Como qualquer poeta de botequim, sem um prêmio Nobel de literatura igual ao gênio Gabriel García Marquez, prêmio este, que talvez fosse trocado pela vitória contra a Inglaterra:

“Os Colombianos caíram de pé!”

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