A epopeia botafoguense na Libertadores

Botafogo dá "até breve" para a Libertadores e orgulha torcida.

O Botafogo se despediu da Libertadores da melhor maneira possível, orgulhando sua torcida (Foto: Reprodução Twitter)
Por José Victor, RJ 

Muitos de vocês vão se perguntar por qual motivo um time que caiu nas quartas de final da Libertadores pode ter vivido uma epopeia. Vamos lá: se procurarmos o significado bruto da palavra  epopeia no dicionário, encontraremos as seguintes definições:

  1. lit. poema extenso que narra as ações, os feitos memoráveis de um herói histórico ou lendário que representa uma coletividade; poema épico, poema heroico.
  2. ext.sucessão de eventos extraordinários, ações gloriosas, retumbantes, capazes de provocar a admiração, a surpresa, a maravilha, a grandiosidade da epopeia.
  3. aventura fabulosa.

É necessário trazer o dicionário para justificar o tamanho da campanha do clube que em 2015 estava disputando a série B do campeonato brasileiro — após um ano de 2014 completamente melancólico que até na cabeça do botafoguense mais otimista não marcaria só o rebaixamento, mas também a última participação do time alvinegro na Libertadores durante um bom tempo. Pois é, até o botafoguense mais otimista estava errado.

A ascensão do Fogão foi meteórica. O time limitado da série B liderado pela experiência do ídolo Jefferson e do técnico Ricardo Gomes, deu conta do recado e levou o time de General Severiano para Série A. Porém, mais uma vez, o ano de 2016 era uma incógnita. O torcedor mais otimista só queria a permanência na série A, em meio à crise financeira que o clube atravessava — e ainda atravessa — qualquer pensamento mais alto poderia ser considerado devaneio.

Mas o Botafogo entrou na Série A com dificuldades, brigando na parte debaixo da tabela e com o técnico Ricardo Gomes cada vez mais valorizado por ter subido sem sustos com um Fogão limitado. E, o principal: manteve o time respirando durante a fuga contra um rebaixamento. O magnífico Ricardo Gomes vinha fazendo um ótimo trabalho e sempre ganhando destaque por fazer o famoso “tirar leite de pedra”.

Durante a virada de turno no Brasileiro de 2016, Ricardo Gomes recebeu uma proposta do São Paulo, clube que tinha sido semifinalista na Libertadores do mesmo ano. Era a chance de Ricardo Gomes voltar a figurar entre os principais técnicos do país, assumindo um elenco teoricamente competitivo, desde que deixou o comando do Vasco em 2011 após sofrer um AVC. Mas quem disse que é necessário deixar um clube com a história do Botafogo para alcançar resultados gloriosos?

O clube alvinegro, refém das poucas opções no mercado, apostou na solução caseira para dar sequência à tentativa de garantir a permanência na série A. E foi aí, mesmo com desconfiança da torcida, que o clube apresentou um técnico que aos poucos cativou não só a torcida do Botafogo, cativou o Brasil.

Jair Ventura nitidamente tirou o melhor de cada jogador. Mostrou que conhecia o Botafogo como poucos e desde a sua estreia contra o São Paulo, no Morumbi, foi ganhando pontos improváveis, sendo sempre cirúrgico no contra ataque e com gols no final dos jogos.

Jair Ventura foi o símbolo da excelente campanha do Botafogo na Libertadores (Foto:Vitor Silva / SSPress/Botafogo)
Jair Ventura foi o símbolo da excelente campanha do Botafogo na Libertadores (Foto:Vitor Silva / SSPress/Botafogo)

Nas suas entrevistas sempre pareceu sincero, aquele cara “gente como a gente” que batalhou e trabalhou muito para estar preparado quando a oportunidade aparecesse. E a cada atuação do Botafogo ficava nítido que o técnico alvinegro daria conta do recado.

O Botafogo limitadíssimo mas de ascensão meteórica, aquele formado com, pasmem, jogadores de segunda divisão e descartados em clubes grandes e pratas da casa, foi premiado. Na máxima de “tem coisas que só acontecem com o Botafogo”, o impossível G-4 se transformou num provável G-6 e premiou o magnífico alvinegro de Jair com a vaga na Libertadores.

Veio o ano de 2017 e consequentemente a pré Libertadores. Era um novo formato, mais longo e desgastante. O sorteio foi ingrato e colocou de cara um campeão da Libertadores no caminho alvinegro: o chileno Colo Colo. Duas boas atuações alvinegras garantiram a classificação: 2 x 1 no Engenhão e o empate de 1×1 no Chile.

Na fase seguinte, a pedreira foi ainda maior. O alvinegro enfrentou o paraguaio Olimpia, três vezes campeão da Libertadores. O confronto foi tenso, para deixar qualquer um apreensivo ao extremo. Foi 1×0 no Rio de Janeiro para o Fogão e o mesmo placar a favor dos paraguaios em Assunção. Disputa por pênaltis, e como o dicionário diz, epopeia deve conter os feitos memoráveis de um herói histórico ou lendário que representa uma coletividade. Esse herói histórico foi Gatito Fernandez, que entrou durante a partida no lugar de Helton Leite e representando a torcida alvinegra, teve atuação brilhante ao defender 3 cobranças. A fase de grupos chegou.

O Botafogo e seu extinto de sobrevivência mantiveram-se intactos na fase de grupos. No chamado grupo da morte, que contava inclusive com o Atlético Nacional-COL, atual campeão da Libertadores, Barcelona do Equador e Estudiantes da Argentina. Eram seis títulos de Libertadores no grupo, mas o Botafogo é glorioso por si só e não tomou conhecimento de nenhum deles.

O alvinegro se impôs no grupo e terminou em primeiro, sendo o jogo mais marcante de todos aquele contra o Atlético Nacional, no Atanisio Giradort, que terminou 2×0 para o glorioso. As marcas do Botafogo na Libertadores: muita raça, golaços (como o feito por Camilo) e aquele contra-ataque cirúrgico pra matar o jogo e fazer o atual campeão da competição mais importante da América sucumbir. O recado estava dado para quem ainda duvidasse: Não duvide do Botafogo! Ações gloriosas como essa também caracterizam uma epopeia.

Botafogo venceu os dois jogos contra o atual campeão da Libertadores na fase de grupos (Foto: Marcelo Theobald / Agência O Globo)
Botafogo venceu os dois jogos contra o atual campeão da Libertadores na fase de grupos (Foto: Marcelo Theobald / Agência O Globo)

Chegaram as oitavas e novamente o Fogão mostrou sua força. Vitória sobre o Nacional do Uruguai nos dois jogos 1 x 0 em Montevidéu, e 2 x 0 no Rio de Janeiro com direito à melhor atuação do time na competição. Duas verdadeiras batalhas em campo, com direito a expulsões bem a cara da Libertadores. Era o Botafogo mais uma vez eliminando um time 3 vezes campeão da Libertadores.

O exterminador de campeões estava pronto para mostrar que sua vez chegou, assim como Jair Ventura quando assumiu o comando do time. Era o time com a cara de Jair, não era Botafogo do craque X ou da revelação Y, era o time do Jair Ventura.

Ao longo da competição foram vários percalços, como as saídas de Camilo, Montillo e Sassá. O Botafogo tinha tudo para enfraquecer, mas só conseguíamos ver um time mais forte. Estava sem jogadores ganhando fortunas, sem as cotas de TV lá em cima, sem a maioria dos jogos ser mostrada na TV depois da novela — pois a preferência era do rival “rico” que caiu de maneira melancólica na fase de grupos… Mas aqui não! Aqui é Botafogo, não há espaços para melancolias, no Botafogo de Jair Ventura que disputou a Libertadores não havia espaço para apatia e a atuação nas quartas mostrou isso.

O Grêmio era mais um campeão de Libertadores que o Botafogo estava mais do que preparado para exterminar. Após o 0 x 0 no Rio de Janeiro, a missão em Porto Alegre não seria fácil. Mas o Botafogo já estava sendo respeitado, mais um jogo com cara de Libertadores, muito truncado. Podemos dizer até que o Botafogo merecia uma maior sorte.

Infelizmente não aconteceu. O Glorioso chegou ao fim da linha. No detalhe, o Botafogo deixou a classificação para a semifinal escapar. A cabeçada do experiente centroavante Bairros, no lance com o jovem e ótimo volante Matheus Fernandes, decretou o fim de uma participação heroica, deixando a torcida empolgada e orgulhosa da própria equipe. Justo! É importante passar para as próximas gerações o Botafogo de Jair Ventura, um técnico que se formou no Botafogo, pegou um elenco desacreditado e orgulhou sua torcida conquistando o respeito da América do Sul.

O Botafogo de Gatito Fernandez; Arnaldo, Carli, Igor Rabello, Victor Luis; Rodrigo Lindoso, Matheus Fernandes, Bruno Silva, João Paulo; Rodrigo Pimpão e Roger merece ser contado e respeitado por todos que gostam de futebol, por terem honrado a camisa. Foi uma campanha louvável e, segundo o sentido figurado do significado de epopeia no dicionário, uma aventura fabulosa. Como diz o Hino alvinegro “Foste Herói Em Cada Jogo, Botafogo.

Até breve, Libertadores!

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