A onda de naturalizações em meio à bagunça do futebol boliviano

A globalização no futebol facilita a ascensão de jogadores que nasceram em área de mais disputa, como o Brasil

Vários brasileiros buscaram vestir essa camisa na última década (Foto: reprodução/amor a la casaca)
Por Dudu Nobre, PR

O mundo está cada vez mais interligado, um dos efeitos da globalização. Logicamente esse fenômeno também atinge o futebol com o crescimento do intercâmbio de atletas entre nações. Por conta disso, jogadores que nasceram em países com grande tradição esportiva e, assim, enfrentam uma grande concorrência nas convocações, veem na naturalização uma forma de chegar a uma seleção nacional – quem sabe até disputar uma Copa do Mundo.

Um dos locais que vêm fazendo esse processo é a Bolívia. O paraguaio Pablo Escobar – ex Santo André – e o argentino Damián Lizio – ex Botafogo – são apenas dois exemplos recentes nesse histórico. O oitavo artigo da FIFA sobre a elegibilidade em partidas internacionais (que regulamenta a seleção boliviana) permite jogadores naturalizados que não tenham atuado pelo país natal em competições de nível A (Copas continentais, Copa das Confederações e Copa do Mundo) ou que não defenderam a nação de origem após obterem a dupla cidadania.

No entanto, a legislação local confunde e dificulta o trabalho dos atletas. Um exemplo disso foi o caso do paraguaio Nelson Cabrera em setembro do ano passado. O zagueiro atuou por La Verde vivendo há apenas três anos no país, mas a FIFA exige cinco para conceder a cidadania. A infração rendeu a perda de quatro pontos e uma multa de pouco mais de 37 mil reais.

Cabrera foi um exemplo da bagunça que afeta os bolivianos naturalizados (Foto: reprodução/la cuarta)
Cabrera foi um exemplo da bagunça que afeta os bolivianos naturalizados (Foto: reprodução/la cuarta)

Além disso, há problemas na estrutura interna. De um lado, a Constitución Política del Estado (CPE) garante que qualquer naturalizado tem os mesmos direitos de alguém que nasceu na Bolívia.

De outro, o artigo 125 do Reglamento del Estatuto Orgánico da Federação Boliviana de Futebol (FBF) – que norteia o campeonato nacional – obriga os clubes a atuarem com sete bolivianos nativos em campo, colocando os nacionalizados no mesmo balaio dos estrangeiros. Mesmo criando esse impedimento, a Federação não organiza o torneio, que é responsabilidade da Liga Del Futbol Profesional Boliviano (LFPB).

Esse impasse é um dos elementos de uma crise que se arrasta desde o começo da década, quando houve a possibilidade do presidente Evo Morales interferir na FBF. Em julho de 2015 os jogadores criaram esperança de dias melhores com a prisão de Carlos Chávez – presidente da instituição por nove anos e Tesoureiro da FIFA – por desvio de verbas.

López foi presidente da Federação por 11 meses (Foto: reprodução/el chaco)
López foi presidente da Federação por 11 meses (Foto: reprodução/el chaco)

Rolando López assumiu em janeiro de 2016 prometendo acabar com o artigo 125 e reparar a injustiça com os naturalizados. Todavia não fez isso em onze meses e em novembro foi condenado a prisão domiciliar por não cumprimento de deveres e conduta anti econômica, já que recebia para dar aulas na Universidad Mayor de San Simón mas não aparecia na instituição.

Por conta da punição não pode comparecer a FBF, que o tirou do cargo e tem até o dia 9 de abril para convocar eleições. O presidente interino, Marco Peredo, já se colocou a favor do artigo 125 para não cometer injustiça com os jovens desportistas locais.

 Brazucas tentam a sorte na altitude

Mesmo nesse cenário de incerteza, muitos jogadores optaram pela naturalização, dentre eles alguns brasileiros. Do final dos anos 90 pra cá, alguns tupiniquins ganharam repercussão ao obterem a dupla cidadania.

Sérgio foi artilheiro da Libertadores de 1998 (Foto: reprodução site oficial Bolívar)
Sérgio foi artilheiro da Libertadores de 1998 (Foto: reprodução site oficial Bolívar)

Sérgio João – o primeiro a ter projeção em terras bolivianas após Jairzinho. Carioca de Bonsucesso, atuou por pequenos clubes do Rio e pelo Tupi de Juiz de Fora até ir para o Stormers em 1995. Em 1997 chegou ao Bolívar, quando foi o goleador máximo e campeão nacional. No ano seguinte, foi até as quartas de final da Copa Libertadores e artilheiro da competição com 10 gols. Se naturalizou, mas não foi convocado para a Seleção. Sérgio ainda atuou no país por Jorge Wilstermann, Blooming, Indepiendente Petrolero e Aurora.

Álex fez gol na goleada de 6 a 1 sobre a Argentina em 2009 (Foto: Juan Mabromata/Afp - Gazeta Press)
Álex fez gol na goleada de 6 a 1 sobre a Argentina em 2009 (Foto: Juan Mabromata/Afp – Gazeta Press)

Álex da Rosa – natural de Santiago, interior do Rio Grande do Sul, foi campeão nacional pelo The Strongest em 2003 e venceu o Clausura pelo San José em 2007. Também atuou por Oriente Petrolero, Mariscal Braun, Aurora, Blooming e Bolívar. Fez uma partida com a camisa de La Verde em 2004, quatro em 2009 e uma em 2010.

Moreno teve passagens por Cruzeiro, Grêmio e Flamengo (Foto: Juan Mabromata/AFP Photo)
Moreno teve passagens por Cruzeiro, Grêmio e Flamengo (Foto: Juan Mabromata/AFP Photo)

Marcelo Moreno – diferente dos outros brasileiros nasceu no país (Santa Cruz de la Sierra), tem pai brasileiro e mãe boliviana, por isso não precisou atuar cinco anos na altitude. Embora tenha jogado na base do Oriente Petrolero, fez a vida em clubes estrangeiros. Chegou a ser convocado para a seleção brasileira sub-20, mas em 2007 optou por defender as origens maternas. Hoje atua no Wuhan Zall, da China.

Edivaldo (ao centro) irá enfrentar o Atlético-MG na Libertadores desse ano (Foto: reprodução/yahoo news)
Edivaldo (ao centro) irá enfrentar o Atlético-MG na Libertadores desse ano (Foto: reprodução/yahoo news)

Edivaldo Rojas – caso parecido com o de Moreno pois escolheu o lado da mãe. Nascido em Cuiabá, defendeu o Atlético Paranaense em 2004, rodou por clubes menores e jogou no velho continente, se naturalizando em 2011 – quando defendia o Naval em terras lusitanas. Pela seleção, jogou a Copa América daquele ano e fez o único do gol da equipe no torneio. Em 2015 foi para o país local, atuando pelo Jorge Wilstermann. Em 2017 disputa a Libertadores pelo Sport Boys.

Martelli é figura conhecida na Libertadores vestindo a camisa do The Strongest (Foto: AFP)
Martelli é figura conhecida na Libertadores vestindo a camisa do The Strongest (Foto: AFP)

Fernando Martelli – O brasileiro mais popular entre os bolivianos na atualidade. Natural de Porto Feliz (SP), o zagueiro despontou no país vizinho pelo La Paz FC em 2011. Também passou pelos dois times de Potosí (Real e Nacional) até assinar com o The Strongest, onde está desde a metade de 2014 – com três libertas no currículo. Se naturalizou em 2015 e disputou partidas pelas eliminatórias para a Copa da Rússia.

Thomaz se naturalizou há cerca de um mês (Foto: reprodução/notibol)
Thomaz se naturalizou há cerca de um mês (Foto: reprodução/notibol)

Thomaz Santos – O brazuca mais recente a fazer o processo. Paulistano, começou no Grêmio Barueri em 2007 e passou por Suíça e Estados Unidos antes de ser contratado pelo Jorge Wilstermann em 2014. Disputará a Libertadores pela equipe de Cochabamba e se nacionalizou há cerca de um mês, mas terá de ficar no país por mais dois anos se quiser ir à seleção.

O número de brasileiros se naturalizando bolivianos cresce gradativamente. Vencendo a barreira da legislação, o futuro é de boas perspectivas para quem tenta a vida nas terras altas do país andino.

Fontes: Cambio, Esporte Final, Estadão, FBF, Folha de São Paulo, Globoesporte.com, Jorge Wilstermann, La Razón, LFPB, Los Tiempos, Marca, O Globo, T13, Terra, Trivela

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