A passagem de bastão da Seleção Brasileira até o dia de hoje

Por Daniel Bravo, MG e Victor Souza, CE

Amigo torcedor, amigo leitor. Chegou a hora de caminhar por parte da rica história da maior seleção de futebol do planeta, a seleção brasileira de futebol – sinônimo de alegria, jogo bonito, habilidade, talento, irreverência e improviso com a bola no pé. Nesse momento, iremos entender a passagem de geração para geração dos meias e atacantes que fizeram parte da seleção campeã de 1958, passando pelo belo, mas derrotado, futebol da equipe de 82 até chegarmos ao penta. Por fim, entender um dos principais, se não o principal motivo pelo qual a Copa do Mundo no Brasil teve o maior vexame da história do nosso futebol. Prepara que a história é longa.

A primeira estrela

Não foi em 1958 que o Brasil teve sua primeira geração de craques. Bem antes, grandes nomes já haviam surgido por aqui, como Leônidas da Silva, Heleno de Freitas, Zizinho e outros atletas que desfilavam seu talento pelos gramados brasileiros. Mas somente na Copa da Suécia que a seleção canarinho conquistaria sua primeira Copa do Mundo e por isso vamos partir desse momento.

A seleção de 1958 já contava com grandes jogadores, como: Didi, O Príncipe Etíope, como foi apelidado por Nelson Rodrigues e que ganhou a alcunha de Mr.Football pela maravilhosa Copa do Mundo feita; Vavá, o Peito de Aço, também era outro nome de talento: o maior artilheiro do Vasco na época substituiu Mazzola na escalação inicial e por seu vigor físico foi apelidado de Leão da Copa. Os outros dois grandes craques e principais responsáveis pela conquista seriam ninguém menos que Pelé e Garrincha. Pelé era um jovem que já encantava o país com seus gols e vigor, mas fora uma aposta pessoal do treinador Vicente Feola em sua convocação e escalação como titular. Garrincha era como um anjo endiabrado, O Anjo das Pernas Tortas. Havia ainda no elenco, sendo banco dessa magnífica equipe, o craque Pepe – um dos maiores jogadores do grande Santos das décadas de 50 e 60.

Em 1962, a seleção ainda contaria com Garrincha e Didi, mas por lesão perderia o já consagrado Pelé. A verdade é que a falta do Rei poderia ter sido muito maior e até crucial não fosse Amarildo, o Possesso (apelido dado pelo grande Nelson Rodrigues), que substituiu o craque do Santos e marcou 3 gols em 4 jogos. Ajudando, assim, a seleção canarinho a conquistar o segundo título mundial de nossa história. Dignos de nota havia ainda no banco os monstros Coutinho e Pepe, estrelas no alvinegro praiano, mas sem espaço no time titular do Brasil – um verdadeiro esquadrão.

Em 1966, a Seleção Brasileira de maior número de craques do meio pra frente. Além de Pelé no auge, o Brasil contava com Garrincha já em fim de carreira, Gérson na plenitude dos seus 25 anos e três garotos geniais – Tostão, Edu e Jairzinho; de 19, 16 e 21 anos, respectivamente. A preparação brasileira para a competição foi uma bagunça sem igual, o técnico Feola convocou 45 jogadores para o período de preparação, usou um professor de judô (Rudolf Hermany) que utilizava as técnicas de sua modalidade para comandar a preparação física e alterou o time nos três jogos disputados na Copa – utilizou 20 dos 22 jogadores possíveis, em um período que não existiam substituições no futebol. O resultado foi uma eliminação na primeira fase e um enorme sentimento de frustração com a campanha do escrete canarinho.

A melhor seleção da história

Em 1970, a seleção brasileira jogava com cinco jogadores que vestiam a camisa 10 de seus times e teve, para muitos, o melhor time da história do futebol. Além de Pelé, Gérson, Tostão e Jairzinho, a seleção tinha ainda Rivelino, o 10 corintiano que inventou o elástico e ídolo de infância de Maradona. Havia no banco os garotos Paulo César Caju e Edu, além da estrela do Atlético-MG da época: Dadá Maravilha. A preparação para essa Copa é até hoje considerada uma das melhores de todas da nossa seleção, visto que pela primeira vez foi disponibilizada uma comissão técnica (médico, preparadores e afins) completa pela CBD e houve um processo de aclimatação da equipe a realidade mexicana (a altitude e aos horários dos jogos), chegando bem antes das outras seleções. O resultado dessa logística, da junção de craques, deu muito certo e o Brasil voltou a ser campeão.

O ano agora é 1974, o número de craques já não era o mesmo. Sem contar com Pelé, Tostão e Gerson, a seleção brasileira treinada por Zagallo era bem menos talentosa e acabou caindo para a famosa Holanda de Johan Cruyff, que ficou conhecida por Carrossel Holandês. Placar: 2×0 para os holandeses e fim do sonho do 4º título mundial. Mesmo com menos talento que o escrete da Copa anterior, o Brasil possuía uma equipe bastante forte no papel: Rivelino, Dirceu, Jairzinho, Edu e Ademir da Guia eram os expoentes do meio pra frente da equipe canarinho.

1978 é o ano de transição de gerações, o Brasil era uma equipe de bons jogadores, mas ainda inexperientes em sua grande maioria para um torneio da magnitude da Copa do Mundo. Chegávamos à Copa na Argentina comandados por um trio que encantava o Rio de Janeiro e dois craques de Minas Gerais. Rivelino, do Fluminense, era quem trazia o bastão da última Copa e agora contava com Zico, o galinho de Quintino e craque do Flamengo, além de Roberto Dinamite, do Vasco. Também tínhamos Reinaldo, camisa 9 do Atlético-MG, e Dirceu Lopes, o Príncipe do Cruzeiro. Havia ainda o jovem Toninho Cerezo, com 21 anos e também do alvinegro de Minas Gerais. Mesmo com esses talentos e tendo sido eliminada invicta, a seleção do técnico Cláudio Coutinho foi criticada pela falta de Junior e Falcão.

Encantar gerações, mas não alcançar a glória máxima

A maravilhosa seleção de 1982, que não alcançou o tão sonhado título, era um novo time. De 1978, apenas Zico ainda estava no meio de campo titular, mas Falcão, Sócrates, Toninho Cerezo e Éder pareciam formar a meiuca ideal para servir o artilheiro Serginho Chulapa (este disputava posição com Careca, mas uma lesão nos treinos de preparação tirou o jovem jogador bugrino do páreo e da competição). Havia Dirceu, Batista e Paulo Isidoro no banco, se não tinham a mesma qualidade dos titulares, davam boas opções ao lendário Telê Santana. A seleção deu verdadeiros shows na Copa, mas atingiu seu apogeu antes da hora. Bastava um empate contra a Itália e o Brasil seguiria para as semifinais, mas Paolo Rossi (o eterno carrasco) fez três gols e acabou com o sonho que a nação vivia através daquele time – para muitos, foi o mais belo futebol praticado na história das Copas.

Em 1986, a seleção brasileira foi para a Copa sem a menor estrutura. Uma disputa de egos e política tumultuou a preparação para a competição, a sucessão do presidente da CBF (Giulite Coutinho) fora a preocupação maior dos cartolas. Telê Santana foi recolocado no comando da equipe substituindo Evaristo de Macedo em meio às eliminatórias para o mundial. A base titular da seleção era liderada pelos principais jogadores da equipe de 82, sem Chulapa, mas com Careca e Muller no comando de ataque. Renato Gaúcho havia sido cortado por indisciplina e Zico e Sócrates estavam longe do auge físico. O Galinho e Falcão eram as grandes opções de renome internacional no banco de reservas – Casagrande era o atacante reserva da equipe. Aos trancos e barrancos o Brasil chegou às quartas-de-final, mas caiu nos pênaltis para a França de Platini – apresentando um futebol burocrático e pouco atraente em suas atuações.

Vergonha pouca é bobagem. Com Careca e Muller sendo os remanescentes titulares da Copa de 86, o Brasil era novamente um time sem estrutura e com brigas de ego. Renato Gaúcho não aceitava banco, Romário tinha problemas físicos e Bebeto jogaria apenas uma partida. A equipe contava com Valdo, Alemão e Dunga no meio, os reservas eram Bismarck, Silas e Tita. Havia qualidade, mas faltava união ao grupo. O resultado? Um futebol chato de assistir, pouca criatividade e a eliminação para a Argentina ainda nas oitavas da Copa do Mundo de 1990 – sendo ironicamente o melhor jogo da seleção no Mundial.

Enfim, Tetra

O futebol volta ao seu devido lugar e a taça é brasileira outra vez. A seleção brasileira de 94 era bem organizada taticamente, mas Zinho e Raí não encantavam como o esperado – sendo o ídolo do São Paulo substituído por Mazinho no decorrer da competição. Era Romário e Bebeto quem resolvia do meio pra frente. A dupla, que foi uma das maiores de ataque da história, conseguiu levar o Brasil ao 4º título mundial. No banco, um jovem Ronaldo que não entrou, era tratado como promessa e o nome a carregar o bastão para 98.

Em 1998 parecia tudo pronto para dar certo. Ronaldo já era realidade, Rivaldo um craque, Giovanni em seu auge, Leonardo dando experiência e classe como opção no banco, Edmundo vindo de um ano digno de melhor do mundo se jogasse na Europa e Denílson como a grande promessa para as próximas Copas. Não havia como não pensar no penta. O Brasil chegou à final jogando bem e favorito ao título, mas o pior aconteceu. Um dia antes da final, Ronaldo teve a famosa convulsão e o resultado foi catastrófico. O time entraria em campo apenas para cumprir protocolo e completamente desnorteado mentalmente, França 3×0 Brasil e sonho adiado.

Talento e superação

Em 2002, a Seleção Brasileira chegava contestada a Copa. Não faltavam bons nomes, mas a dúvida era como os craques iriam se portar. Ronaldo voltava de graves lesões que quase o tiraram dos gramados. Além do 9, a seleção contava com o talento do jovem Ronaldinho Gaucho e de Rivaldo, o 10 que só não fez chover naquela Copa. Havia ainda no grupo diversos jogadores protagonistas em seus clubes e importantes para mudar o cenário dos jogos: Juninho Paulista, Ricardinho, Edílson e Luizão eram nomes de respeito no banco de reservas, Denílson era o 12º jogador de Felipão. Caminhando para a passagem de bastão, o prodígio Kaká estava no banco de reservas. Com muito pagode, descontração e um futebol empolgante, chegamos ao penta coroando uma campanha irrepreensível – culminando no 2×0 em cima dos alemães.

Tudo certo, mas tudo errado

O quarteto fantástico de 2006 parecia o time ideal para trazer o Hexa. Ronaldo vinha para sua 4ª Copa, a terceira como titular. Ronaldinho viva seu auge no Barcelona, Kaká com a 22 do Milan era monstruoso e Adriano se tornara o Imperador na Inter. Robinho merecia uma vaga como titular pelas condições físicas do R9. Fred parecia ser o substituto natural para a camisa 9, Juninho Pernambucano era um dos melhores meio-campistas do mundo e não tinha espaço. Éramos um verdadeiro esquadrão, mas a displicência na preparação falou mais alto. Parecia não ter como dar errado, entretanto a seleção brasileira tinha um ambiente aparentemente perdido e acabou eliminada para a França e aqui, para estes que vos escreve, começou a sequencia de tragédias que resultou no desastre de 2014.

O começo do fim

Entre 2006 e 2010 o futebol brasileiro desandou de maneira absurda. Ronaldo sofreu uma grande queda no seu rendimento e já não defendia mais a seleção, apesar da boa fase no Corinthians. Adriano Imperador, que deveria estar no comando do ataque, havia voltado à Itália e também já não era o mesmo. Ronaldinho Gaúcho vivia de lampejos no Milan, já não era o 10 a vestir a camisa amarela, e Kaká chegava fora da forma ideal. Robinho, que esteve em 2006, não chegou ao auge que todos esperavam do menino da Vila, mas era o grande jogador da equipe e Fred também não alcançou o nível que era esperado em seu início. Para piorar, os dois jogadores que deveriam iniciar a passagem de bastão foram preteridos por Dunga. Sem Neymar e Ganso, na época, no auge, o Brasil tinha Kaká fora de forma, Elano (longe de ser o jogador ideal) e Luis Fabiano, bom centroavante, mas nem de longe o 9 ideal. Nilmar e Grafite como banco no ataque e Júlio Baptista como opção ofensiva para reserva de Kaká representavam a disciplina tática e a experiência que Dunga prezava em suas convocações.

A Copa no Brasil e o retrato de uma quebra na passagem de bastão

Em 2014, a seleção brasileira já não tinha mais Kaká ou alguém experiente no meio campo para carregar a seleção. Neymar, apesar do talento, era estreante na competição; Oscar e Willian também não inspiravam a confiança do torcedor. Aos trancos e barrancos e com apoio da torcida, o Brasil chegou às semifinais, mas perdeu Neymar no jogo anterior. Isso terminou de desestabilizar um time perdido tática e psicologicamente. O resultado foi uma derrota histórica para a Alemanha por 7×1 e a perda do terceiro lugar para a Holanda.

É interessante observar que boa parte dos grandes jogadores da história do futebol brasileiro não consegue manter um grande nível de atuações (em nível internacional) depois dos 30 anos. Pelos mais diversos motivos nossos maiores craques também acabam fragilizando a passagem de bastão entre gerações no nosso futebol. 2014, se tudo tivesse transcorrido de maneira normal nas carreiras de cada um, era para ser a Copa da transição com Ronaldinho e Kaká como opções no meio e Robinho, Adriano e até Ronaldo (Klose tinha a mesma idade do Fenômeno no Mundial) ajudando o ataque. Pode-se dizer que foi talvez a melhor geração perdida nos ciclos das Copas do Mundo, visto que eram jogadores com potencial para vários mundiais e não foram.

Em busca do renascimento

Para a trajetória da Copa que começa hoje, a seleção dá mostras de que pode, enfim, ter uma atuação digna no Mundial. Coutinho chegou a pouco no Barcelona, Neymar é o dono do PSG e novamente temos dois centroavantes de respeito, já que Gabriel Jesus não cansa de marcar seus gols pelo Manchester City e Firmino se transformou em uma grande referência ofensiva no Liverpool. O que fica é a expectativa que essa geração caminhe bem e consiga passar o bastão para os próximos craques que surgirem no país, como foi feito desde 1958 e quebrado a partir de 2010. Somos a pátria do futebol e podemos nos manter assim por longos anos.

Para o nosso bem e para o bem do futebol mundial.

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