A revolução laranja

Em 24 de março de 2016 os deuses do futebol fizeram voltar aos seus domínios aquele que sem dúvida foi um dos grandes menestréis do mágico esporte bretão. Johan Cruyff, 68 anos, foi senhor de seu tempo. Dentre os poucos mágicos que o futebol revelou ao mundo, esse gênio oriundo da bela cidade de Amsterdã, recriou o futebol do seu tempo e nos deixou um belo legado, o Futebol Total.

Inspirado pela liberdade de sua terra natal, Johan e seu técnico Rinus Michels, impuseram uma mudança ao futebol. Diante de olhares atônitos, em plena copa do mundo de 1974, Cruyff e seus orange caps, deram de presente ao planeta uma revolução laranja. Um estilo de jogo, onde a posse de bola é o bem a ser valorizado, não importando a antiga rigidez tática e de posicionamento que eram, até aquela data, inerentes ao futebol profissional.

Pela primeira vez no mundo, um time não propunha um jogo, mas sim um massacre, uma posse de bola tão arrasadora, que os adversários sucumbiam, um após outro, devido ao enorme esforço físico dispensado na vã tentativa de retomar a posse de bola.

Holanda 1974
Holanda 1974

O esquadrão laranja tinha Haan, Suurbier e Krol na zaga, Neeskens e Jansen no meio de campo e os incansáveis Rensenbrink e Rep no ataque. As funções da equipe em campo lembravam a diversidade da capital holandesa, eram múltiplas, sempre que um rival tinha a bola, dois, três laranjas chegavam e lhe tiravam a bola. Era surreal! Os jogadores pareciam bailar em campo, cada hora em uma posição. Apenas o goleiro Jongbloed escapava da “dança”, que começou logo na estreia da equipe no Mundial, contra o Uruguai de Mazurkiewicz, Forlán, Espárrago e Pedro Rocha. Quem esperava um jogo equilibrado viu um dos maiores massacres da história dos Mundiais. A Holanda só não goleou a Celeste pela falta de pontaria e pela atuação magistral do goleiro uruguaio, que evitou um vexame. A Holanda venceu por 2 a 0, com dois gols de Rep. A posse de bola, a quantidade de chutes a gol e o volume de jogo impressionaram a todos, uma revolução estava em curso. Certa vez, Pedro Rocha contou uma história que envolve o vareio que o Uruguai levou da Holanda nessa partida:

“Por duas vezes, em campo, quis chamar a minha mãe: a primeira, com 17 anos, na minha estreia no clássico Peñarol e Nacional, em pleno Centenário. Na segunda, com 32 anos, quando enfrentei a Holanda na Copa de 1974. Quando peguei a bola pela primeira vez, quatro jogadores vieram para cima de mim e me tiraram a bola. Não entendi nada, mas na segunda vez, a cena se repetiu, e foi assim o jogo todo. Ali, eu quis a minha mãe”.

O grande legado da copa de 74 e da estupenda inteligência de Johan e Rinus teve seu terreno mais fértil no Barcelona, uma das maiores equipes da história do futebol. Olhando as escalações do Barcelona e da Holanda no papel pode parecer que elas não tenham nada em comum, o Barcelona joga em um esquema com três atacantes abertos, com uma linha de quatro na defesa, e a Holanda sem posições fixas, mas os dois times exerciam a mesma forma de jogar, o desejo pela posse de bola, o massacre chamado Futebol Total.

Rinus Michels e Johan Cruyff
Rinus Michels e Johan Cruyff

O Futebol Total consiste na marcação pressão ocupando todos os espaços do campo, sufocando o adversário induzindo-o ao erro na saída de bola. A Holanda em 74 usou muito esse tipo de tática, o zagueiro libero, que na maioria das vezes era Rudolf Josef Krol, adiantava-se e como uma avalanche todos os 10 jogadores de linha da Holanda direcionavam-se para o jogador adversário com a bola, limitando seus espaços, pressionando até roubar a bola. O Barcelona assemelha-se muito com a Holanda, fechando os espaços, mas não exerce tanta pressão para retirar a bola, espera o erro do adversário, mostrando uma evidente evolução na tática, na medida que dosa melhor o desgaste físico dos atletas.

O ataque em velocidade é outra característica marcante nos times praticantes do Futebol Total, tendo como principais jogadores três ganhadores de melhor jogador do mundo, Rivaldo, Messi e o próprio Johan. Eles eram verdadeiros motores no contra-ataque. Muitos times podem ter tentado imitar a Holanda de 74, mas a existência de um jogador acima da média foi o fiel da balança, decidindo o sucesso ou fracasso dessas tentativas. Ficou claro que era necessária uma peça com visão de jogo e agilidade para fazer a engrenagem funcionar.

Outra semelhança entre essas duas equipes foi a formação e utilização das categorias de base, a Holanda de 74 utilizou como base o time do Ajax, comandado por Rinus Michels, o Barcelona tem como tradição utilizar em seu time titular vários jogadores formados em suas categorias de base. Mas a semelhança entre o Barcelona e a Holanda não é mera coincidência, em 1989 Johan Cruyff foi técnico do Barcelona, onde realizou uma renovação no elenco, criando o time megacampeão nos anos de 90 (tetra campeão espanhol e campeão da Liga dos Campeões), ele deixou o Barcelona em 1996 com boa parte de sua metodologia de jogo implantada nas categorias de base, perpetuando-se até hoje.

Johan Cruyff 1947 - 2016
Johan Cruyff 1947 – 2016

Johan mostrou que o futebol, como a vida, é dinâmico, coletivo e acima de tudo, apaixonante. Como poucos, ele vislumbrou um estilo que por diversas vezes confundia-se com arte. E como um artista que vislumbra o futuro, Johan Cruyff marcou, de forma definitiva, seu nome entre os gigantes do futebol. Um nome a ser sempre lembrado e venerado por toda a comunidade CL ao redor do globo.

Texto: Pedro Portugal

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