A América do Sul ferve fora das quatro linhas

Movimentos político de jogadores vem crescendo no cenário sul americano

Os protestos inclusive nas ruas no Uruguai (Foto: Reprodução/Espn.com.br)
Por: Victor Portto, CE

Jogadores da América do Sul, uni-vos. Poderíamos resumir com esta frase os movimentos que buscam melhorias no futebol latino americano feitos pelos atletas no Uruguai, na Argentina e no Brasil. Cada um com suas particularidades e dificuldades, mas sempre ressaltando que os jogadores são e precisam ser uma classe operária em busca dos seus direitos e dos avanços pela melhoria das condições do jogo. E que diferente do que pensa o imaginário coletivo, têm em sua maioria salários bem menos glamourosos em relação ao mundo de status e ostentação do que enxergamos.

Comecemos as explicações de cada movimento em ordem cronológica, portanto voltemos ao ano de 2013. O Brasil viu em setembro o início de um movimento dos atletas, ex-atletas, treinadores e outras pessoas ligadas ao futebol. Eles levantaram discussões e manifestações em plena rodada de Campeonato Brasileiro da Primeira e Segunda Divisão, além de levar até Brasília e a CBF as suas reivindicações. O Bom Senso FC (alcunha do movimento) queria o alargamento de calendário para os clubes menores (que em geral só jogavam os estaduais e os seus jogadores tinham que viver de outra profissão para complementar a renda), a regulação do número de jogos para as equipes de ponta (visando desinchar o calendário brasileiro), a prática do fair play financeiro visando garantir o pagamento para todos os profissionais ligados aos clubes, garantia de férias e de pré-temporada.

Os protestos do Bom Senso FC (Foto: Reprodução/www.bomsensofc.org.br)
Os protestos do Bom Senso FC (Foto: Reprodução/www.bomsensofc.org.br)

Em julho de 2016 o Bom Senso FC viria a encerrar suas atividades oficialmente. O maior legado do movimento foi a aprovação do PROFUT, lei que refinanciou as dívidas dos clubes do futebol brasileiro e implementou medidas do fair play financeiro. Numa breve análise, o movimento não alcançou o que pretendia, mas iniciou um necessário debate de que é preciso mudar as estruturas do futebol brasileiro e os seus gestores.

No Uruguai, o movimento se chama “Más Unidos Que Nunca” e se iniciou em 2016. Tudo começou com o descontentamento em relação ao que a Federação Uruguaia arrecada com a venda dos direitos de transmissão do futebol do país. Além disso, havia a discordância em relação ao que a Puma pagava para “vestir” a seleção uruguaia, por ser um valor considerado ínfimo. Estas questões tinham como personagem central a empresa Tenfield, que tem há 18 anos os direitos cedidos pela Federação Uruguaia de Futebol em relação a transmissão dos campeonatos no Uruguai e a intermediação do patrocínio das vestimentas da Seleção. O estopim para uma revolta dos jogadores uruguaios foi a possibilidade de ampliação do contrato desta empresa até 2025 e a rejeição a uma proposta.

Segundo o GloboEsporte.com, o movimento também busca uma revisão dos valores pagos aos atletas pelos direitos de imagem, uma remuneração mais justa dos que jogam em divisões inferiores e um maior repasse aos clubes do que é arrecadado pela Tenfield.

O movimento está em constante atividade, conta com muito apoio das grandes estrelas do futebol do país, mas o cenário uruguaio tem uma peculiaridade: a rede de TV que mostra os jogos não expõe nenhuma ação dos protestos e censura qualquer tipo de manifestação. Os rumos desse conflito ainda estão sendo escritos, entretanto já é uma bela história de luta das canchas uruguaias.

Na Argentina, temos o cenário da saída do Estado no financiamento do futebol num período de grave crise financeira do país e um panorama caótico em relação ao pagamento do salário dos jogadores (principalmente dos clubes menores). O Governo Macri decidiu extinguir o programa estatal que financiava o futebol argentino  e levou o caos aos clubes do país. Por essa quebra de contrato o Estado deve à Federação Argentina de Futebol mais de trinta milhões de dólares, mas com o país em recessão e a AFA em crise institucional profunda uma saída está longe de ser alcançada. Em 2016 os jogadores ameaçaram parar o campeonato se os repasses prometidos até o final do ano não acontecessem, mas no início de 2017 eles decidiram entrar em greve devido aos atrasos de mais de quatro meses de salário. Veja um vídeo sobre o assunto.

O viés do movimento na Argentina tem muito mais de busca pelos direitos que não estão sendo cumpridos, do que de claramente melhorias. Entretanto, o futuro é mais obscuro no país hermano devido à grave crise financeira e a incerteza de quem comprará a partir de agora os direitos de imagem do Campeonato Argentino. Os jogadores batem o pé por suas remunerações e pela de seus colegas dos clubes menores, mas percebem que um calote e a quebra dos clubes é uma possibilidade real.

A América do Sul passa por um momento de agitação e união de uma classe que por muitos era considerada ignorante, mas que demonstra mais de uma vez que quer os seus direitos reconhecidos e que o espetáculo melhore ainda mais de qualidade por estas bandas. Entendendo que para a beleza do jogo não basta só o espírito de luta e raça que vemos nos gramados latino americanos, mas que a busca por melhorias passa também pela vontade dos atletas de brigar por isso. Os jogadores, em geral, começam a exigir que seus direitos sejam respeitados, que as relações trabalhistas sejam mais claras e que o público perceba que eles também são trabalhadores na maioria das vezes mal remunerados. Que o futebol, esta máquina de sonhos e de ilusões, precisa dividir o dinheiro mais igualitariamente.

Fonte: Espn; Blog Latinoamérica Fútbol Club; Globoesporte.com; Bom Senso FC; Trivela.

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