Onde estão os jogadores negros da Argentina?

PAÍS SÓ TEM UM NEGRO CAMPEÃO MUNDIAL

Héctor, hoje com 66 anos, ainda é o único jogador negro com o título de expressão pela seleção argentina (Foto: Reprodução/Cadena 3)
Héctor, hoje com 66 anos, ainda é o único jogador negro com o título de expressão pela seleção argentina (Foto: Reprodução/Cadena 3)
Por: Jean Costa, RS

O preconceito infelizmente está presente no futebol. Na Argentina, a situação aparentemente é ainda mais impactante. Você conhece algum jogador argentino negro? Não? Isso se justifica porque os afro-argentinos parecem ser mais estrangeiros do que nativos na sua nação.

Cerca de 85% dos argentinos se identificam como descendentes de imigrantes europeus que desembarcaram em Buenos Aires há mais de um século. Só que um fato muito chamativo para a história da nação é: o país foi colônia, mas de espanhóis. Então como a cultura hispânica fez com que a escravidão funcionasse de outra forma em sua colônia? Nossos vizinhos tinham uma população negra considerada grande até o final da década de 1810, história que você pode conhecer um pouco mais aqui.

Atualmente, menos de 4% da população argentina é formada por negros, sendo que a maioria vive em regiões interioranas do país. Quando voltados para o interior argentino, os números sobem, chegando até a 21% do povo local, o que ainda é minúsculo para um país que foi colônia.

Mas voltemos ao futebol.

Em 1978 a Argentina foi campeã do mundo pela primeira vez. Mas em uma pesquisa aprofundada, não foi isso que chamou a atenção. Entre os convocados estava Héctor Baley, goleiro do Huracán na época. Ele entraria para a história por ser o único jogador argentino negro a se tornar campeão mundial pela Albiceleste. O “Chocolate”, como era chamado, começou a carreira no Estudiantes de La Plata. Antes de ir à Copa, ele ainda passaria pelo Colón, até sua transferência para o Huracán, onde se destacou e foi convocado para a Seleção.

O herói numa história de omissão

Héctor também esteve entre os convocados para a Copa de 1982. Fez parte da seleção eliminada na segunda fase da competição. Não entrou em campo, mas já tinha deixado sua marca na história. História que ficou manchada em 2013, quando o goleiro teve um vídeo polêmico vazado no qual chamava de “boliviano” alguns jogadores do Belgrano (termo usado de forma pejorativa porque a maioria das pessoas nascidas na Bolívia possui a pela escura). Logo, a cor da pele dos atletas fez com que sofressem insultos de alguém que também é negro.  

(Foto: Reprodução/Futebol Portenho)
(Foto: Reprodução/Futebol Portenho)

Em 2005, em uma entrevista concedida à Folha, o ex-zagueiro Daniel Passarella disse que o seu país não é racista, mas sim multirracial. Isso foi após o caso onde o zagueiro Desábato proferiu ofensas ao ex-atacante do São Paulo, Grafite.

A pergunta que fica para você, caro leitor, é a seguinte: se a Argentina é multirracial, onde estão os atletas negros nascidos lá? Não me vem à cabeça nenhum atleta da cor negra e nascido no país que defenda pelo menos um dos grandes clubes argentinos. E não foi por falta de pesquisa. Há jogadores negros de outras nacionalidades no país, mas as portas parecem se fechar para quem é negro e nascido nas terras de Héctor Baley.

Se quiser conhecer um pouco mais da história de atletas negros ou pardos no país, você pode conferir aqui.

Fontes: Copa3x4, lanacion.com, mundod.lavoz.com e Terra

4 Comentários em Onde estão os jogadores negros da Argentina?

  1. Eu moro na Argentina e esse texto é complicado. Imagino que ele exista pra dizer que a Argentina não é multiracial e para provar isso cita a ausência de negros no futebol argentino (ou na seleção deles, não fica bem claro).

    Nenhuma das duas situações faz sentido. Ser multiracial é totalmente diferente de não ser racista. A Argentina é multiracial E é racista. Assim como o Brasil, não esqueçam disso. Querer colocar a Argentina como racista e usar o futebol como argumento é fraco especialmente quando parece que ignoramos o nosso próprio racismo que é muito mais vergonhoso, já que nossa população negra é maioria no país e sofre tanto quanto um negro na Argentina.

    O argumento do número de argentinos no futebol também é fraco. Temos aqui (tanto nas ruas quanto no futebol) muitos mestiços e não sei se a métrica deles os considera “pardos” como no Brasil ou negros. Ábila e Tissone são dois jogadores de origem negra que me recordo, mas usar isso como argumento para dizer que a Argentina é mais ou menos racista é ridículo. Eu não sei qual é o interesse do jovem negro argentino. Talvez eles prefiram outro esporte. Basquete é muito forte aqui, mas eu não acompanho os clubes para saber se existem afro argentinos no esporte. Não sei se há um histórico de barreiras para um jovem negro entrar no futebol. Menos de 1% da população é MUITO pouco para tirarmos uma amostragem da realidade racial usando apenas UM esporte como parâmetro.

    E pelo amor de Deus “menos de 4%”. Não chega a 1%, segundo o Censo Argentino. Na Wikipedia em español temos um dado bem direto: “De acuerdo a los datos suministrados por el último Censo Nacional, en 2010 la población afrodescendiente de Argentina ascendía a 149.493 personas (0,4% del total). De este total unos 137.583 eran Afro-argentinos (el 92%), y los restantes 11.960 (8%) provenían de otros países, en su mayoría americanos.” Quero acreditar que houve talvez um erro na matemática ao bater 0.4% como 4% pois 0.4% ainda é menos de 4%, como o texto fala (risos) mas isso é, no mínimo, ser tendencioso.

    Se vocês querem dizer que HISTORICAMENTE houve a “eliminação” de negros na Argentina, é outra história, mas o futebol não pode ser parâmetro já que não se pode “criar” negros para colocá-los nos times.

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