Apesar de tudo… eu te amo, Moto Club

Papão do Norte completa 80 anos em 13 de setembro

Por Pedro Pereira, MA

Eu pensei muito sobre fazer esse texto. Em um 2017 simplesmente horroroso, eu não via motivos para comemorar os 80 anos do Moto. Uma campanha ruim tanto no estadual como no Brasileiro, rebaixamento, dívidas. Tudo isso me desanimou. Até que parei para pensar em dois pontos. Primeiro que o clube não tem culpa do que fizeram com ele. Uma gestão falha e incompetente que infelizmente o levou para o pior destino possível. Segundo: apesar de um ano ruim, temos outros 70 e poucos pra nos orgulhar de ser Moto Club.

Conversando com outras pessoas que gostam de futebol, logo de cara a primeira pergunta é “para quem você torce?”. Muitos se espantam quando respondo que torço para um time da minha cidade e prontamente perguntam “E da série A?”, “e na Europa?” ou “mas só pra ele mesmo?”. Sim, digo com orgulho que torço para o Moto Club de São Luís. Para os torcedores mais “limitados”, aquela contratação carregada de cifras ou os tão sonhados grandes títulos bastam para se sentirem bem. Eu penso de uma forma diferente. O meu entusiasmo em torcer pelo Papão do Norte é no esforço em torná-lo grande nacionalmente, em conseguir levá-lo até as séries mais altas e apoiá-lo em qualquer dificuldade.

Equipe do Moto Bicampeã Maranhense 81/82 (Foto/Divulgação: Blog Futebol Maranhense Antigo)
Equipe do Moto Bicampeã Maranhense 81/82 (Foto/Divulgação: Blog Futebol Maranhense Antigo)

Temos uma bela história que começou no coração de São Luís, mais precisamente no centro da capital, na Rua da Paz, nº 846. Lá residia o grandioso Cesar Alexandre Aboud que em 1937 decidiu fundar o Ciclo Moto de São Luís, entidade que visava incentivar a prática ciclística e motociclística na cidade. Quis o destino que o clube não se limitasse a estas práticas. Em 1939 começaram as práticas de futebol e, com início dela, o clube inicialmente alviverde se transformou em rubro-negro. Assim surgia o Moto Club de São Luís. No mesmo ano, os motenses teriam mais um motivo para se orgulhar: a construção do estádio Santa Izabel, no Canto da Fabril, foi o primeiro e único estádio particular de um time maranhense. As arquibancadas lotavam para ver o esquadrão rubro-negro jogar com grandes equipes como Flamengo, Bangu, Vasco da Gama e Santos. Ali começou a caminhada de um dos maiores times maranhenses e da região meio-norte.

O Moto ganharia a alcunha de Papão do Norte em meados dos anos 40 por duas justificativas: a primeira por ser o campeão da Copa dos Campeões do Norte, onde superou Fortaleza e Paysandu, ficando com o caneco. A segunda, por ceder a maior parte da seleção maranhense que chegou à final do Campeonato Brasileiro de Seleções. Além de Papão, recebe também o apelido de Rubro-Negro da Fabril, nome que faz referência ao local onde ficava Santa Izabel.

Em 1953 veio a maior goleada em um superclássico maranhense. O Papão venceria seu maior rival em um sonoro 9 x 3 que ficou marcado na história do futebol local. Aliás, os clássicos da capital maranhense sempre foram jogo à parte, com torcidas entusiasmadas e sempre lotando as praças esportivas de qualquer modalidade.

Torcida motense no Castelão (Foto/Divulgação: Blog do Hilton Franco)
Torcida motense no Castelão (Foto/Divulgação: Blog do Hilton Franco)

Sem duvidas, o maior patrimônio do Moto é sua torcida, que de forma enérgica apoia sempre o time em busca da vitória. Com fundação libanesa e operária, o rubro-negro sempre teve sua torcida formada pelas classes mais baixas, que sempre davam – e ainda dão – seu jeito de comparecer ao estádio. É uma das torcidas mais folclóricas que existe, com inúmeros personagens que parecem ter sido retirados de histórias. É angustiante passar a semana sem o Moto. Contamos os dias após o último jogo para voltarmos para o Nhozinho Santos ou Castelão, estádios onde construímos nossa história.

O relógio parece ter preguiça de trabalhar, a semana é sempre mais demorada. Ver a torcida se concentrar na Praça Catulo da Paixão ou nos Portões do Setor 1 desde uma da tarde, fazendo seu churrasco, bebendo e ouvindo música é algo sem preço. O jogo vai se aproximando e a ansiedade aumenta proporcionalmente ao número de torcedores que vão chegando. Ao entrar no Velho Nho, por exemplo, as arquibancadas vão sendo preenchidas pelas mais diversas faces das mais diversas classes e gêneros. A bancada entra em êxtase com a entrada das camisas rubro-negras que, como diz o hino, honram o valor da nossa gente. O alambrado, aliado à fanática torcida e o clima ludovicense, intimidam o adversário e fazem o time marchar para a glória, na conquista de mais uma vitória.

Falo com propriedade de como é contagiante a torcida rubro-negra. Foi algo que me atraiu, me fez motense. Ver todos aqueles personagens, os corneteiros, os sócios, os pobres, os ricos, os roqueiros, as organizadas, todos reunidos em prol do Papão é algo gratificante. Uma semana sem o Moto faz com que o fim de semana perca seu sentido, se torne algo vazio. A rotina da semana muda totalmente: a expectativa muda, os programas esportivos não têm mais graça. Sentimos saudade até das dificuldades, daquela preocupação com salários atrasados, das caravanas desgastantes para cidades do interior, da demora para o início da venda de ingressos e até daquele jogador que parece que foi contratado única e exclusivamente para ser xingado. Enfim, uma semana sem o Moto é algo estranho. Como diz o torcedor, é como juçara (Açaí para os não maranhenses) sem farinha, é como mocotó sem pimenta.

Nesses 80 anos de Moto Club, já presenciamos de tudo. Fomos do céu ao inferno várias vezes: desde chegarmos ao topo do estado por 25 vezes ou nas divisões da elite nacional, até o rebaixamento estadual por duas vezes e uma falência. Já é costume nas conversas entre motenses a frase “Se não for sofrido, não é Moto”, e o que se espera é que o rubro-negro da Fabril possa comemorar mais 80 anos de história sempre representando o Maranhão. E se esses próximos 80 anos forem tão gloriosos ou difíceis, a certeza que fica é que poderá contar com sua torcida, que apesar de tudo, sempre vai te amar.

Fontes: Futebol Maranhense Antigo

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