“Aqui ergui meu templo para vencer”: os 90 anos de São Januário

Monumento inaugurado em 1927 contra o racismo e o arbítrio, estádio vascaíno é peça fundamental na arte, política e no esporte do Brasil

A Caravela Vascaína que embala as glórias vascaínas desde 1927. (Foto: Reprodução)
São Januário, a Caravela que embala as glórias vascaínas desde 1927. (Foto: Reprodução)
Por Marcelo David, RJ

Um problema de boa parte dos clubes brasileiros, sobretudo no futebol carioca, é a falta de um estádio para chamar de seu. Graças, sobretudo, à incompetência de dirigentes esportivos, histórica no Brasil, grandes e centenários clubes ainda não realizaram “o sonho da casa própria”. Alheio a isso tudo (mas não à incapacidade de seus comandantes), o Vasco da Gama comemora, neste 21 de abril, os 90 anos da maior joia de sua coroa: o estádio de São Januário.

Sua idealização foi, antes de tudo, uma forma que o Vasco encontrou para sobreviver. Na década de 1920, ainda um clube em ascensão, o cruzmaltino era sistematicamente atacado pelos grandes da época, Flamengo, Fluminense e Botafogo, todos situados na zona sul da cidade do Rio de Janeiro. O Vasco, da zona norte, ousava furar o bloqueio da elite com um elenco que fugia dos padrões – e das regras – da época: formado por negros, nordestinos e operários, o time vascaíno foi campeão carioca pela primeira vez em sua história em 1923, derrotando o trio da zona sul, que tinha em seus elencos jogadores brancos e herdeiros de famílias tradicionais, em sua maioria.

A partir do ano seguinte, os adversários criaram uma série de novas regras visando impedir a participação do Vasco na competição – entre elas, proibir a inscrição no campeonato de clubes que não tivessem estádio, o que atingia diretamente os cruzmaltinos. A solução encontrada pelo clube para enfrentar o racismo e o preconceito de classe foi a criação de uma campanha de arrecadação financeira entre torcedores para a aquisição de um terreno em São Cristóvão: a Campanha dos Dez Mil. Ato contínuo, buscou-se, através de carnês para torcedores, contribuições de comerciantes e de moradores do bairro, a quantia necessária para a construção de um estádio próprio. Em tempos de “crowdfunding”, eis um dos primeiros casos de financiamento coletivo de que se tem notícia.

Inicialmente, São Januário foi inaugurado sem a arquibancada atrás de um dos gols, concluída um ano depois. (Foto: Reprodução)
Inicialmente, São Januário foi inaugurado sem a arquibancada atrás de um dos gols, concluída um ano depois – ao fundo, o Morro do Corcovado, ainda sem a estátua do Cristo Redentor, inaugurada em 1931. (Foto: Reprodução)

A construção do estádio durou apenas 11 meses. Inaugurado em 21 de abril de 1927, com a presença do presidente da República, Washington Luís, o Estádio Vasco da Gama (até hoje seu nome oficial) surgia como o maior estádio da América do Sul, até a inauguração do Estádio Centenário, três anos depois, em Montevidéu, no Uruguai. O posto de maior estádio brasileiro seria mantido até 1940, quando da inauguração do Estádio Municipal do Pacaembu, em São Paulo. Já em 1950 o Maracanã surgia como o maior estádio carioca. Até hoje, São Januário é o maior estádio particular da cidade do Rio.

A partida inaugural, disputada contra o Santos, terminou em 5 a 3 para os paulistas. O primeiro gol da história da nova casa do Vasco foi marcado pelo santista Evangelista; já o primeiro gol vascaíno da história do estádio, chamado de São Januário por causa da rua de mesmo nome que compõe os arredores do estádio, foi marcado por Negrito.

Um ano depois, num jogo contra o Wanderers, do Uruguai, foram inaugurados os refletores e a arquibancada atrás de um dos gols. O Vasco venceu a partida por 1 a 0, com um gol olímpico do ponta Santana, um dos primeiros que se tem notícia no Brasil. Após esse jogo, São Januário foi, por mais de 20 anos, o único estádio do Rio apto a receber jogos noturnos.

No início dos anos 1930, o estádio de São Januário pronto e ocupado pelos seus. (Foto: Reprodução)
No início dos anos 1930, o estádio de São Januário pronto e ocupado pelos seus. (Foto: Reprodução)

E nem só de futebol vive a história da casa vascaína: em 1935, foi realizado um concerto regido pelo maestro Heitor Villa-Lobos com um coral de 40 mil estudantes de escolas públicas do Rio, à época capital federal. Em 1945, das tribunas de onde geralmente realizava seus comícios e pronunciamentos, o presidente da República, o vascaíno Getúlio Vargas, fazia uma grande festa em comemoração à Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), as primeiras leis trabalhistas do Brasil.

Em São Januário teve samba também: em 1945, com a demolição da Praça Onze para a construção da avenida Presidente Vargas, o desfile oficial das escolas de samba do Rio de Janeiro ocorreu no gramado de São Januário. A Portela sagrou-se campeã com o enredo “Brasil Glorioso”, que exaltava o patriotismo, fato comum na época, sobretudo em meio à Segunda Guerra Mundial.

Principal palco do futebol carioca até 1950, São Januário também viu jogar a Seleção Brasileira, que disputou 23 partidas no estádio. Foi a Colina Histórica, aliás, o palco da maior goleada brasileira sobre a Argentina em toda a história: 6 a 2, em 1945, pela Copa Roca, com dois gols de Ademir Menezes, o Queixada, um dos maiores ídolos vascaínos. O placar brasileiro seria completado com gols de Leônidas da Silva, Chico, Zizinho e Heleno de Freitas.

Roberto Dinamite, um dos maiores ídolos da história do Vasco, é o maior artilheiro de São Januário, com 184 gols, seguido por Romário, com 152, e Ademir Menezes, com 94. Romário, aliás, revelado pelo Vasco, marcou o milésimo gol de sua carreira no estádio, em 2007, em um jogo contra o Sport. Após o feito, o Baixinho ganhou uma estátua atrás de um dos gols de São Januário.

Palco de grandes jogos, como as finais da Taça Libertadores da América de 1998 e da Copa do Brasil de 2011, conhecido como Caldeirão (cujo recorde de público data de 1978, em um Vasco 0 x 2 Londrina com 40.209 pessoas), São Januário cuida das gentes que abriga: seu complexo esportivo hoje abriga um parque aquático (que sediou uma etapa da Copa do Mundo de Natação, a primeira realizada no Brasil, em 1998, em meio às comemorações do centenário do clube), dois ginásios poliesportivos, um campo de treinamentos e um hotel-concentração (o único no Brasil situado em um estádio).

Além disso, funciona em São Januário o Colégio Vasco da Gama, que oferece os Ensinos Fundamental e Médio aos jovens atletas do clube, com calendário especial para viagens e competições. Pelo colégio já passaram atletas como Alan Kardec, Luan, Alex Teixeira e Philippe Coutinho. Também funciona no estádio a capela de Nossa Senhora das Vitórias, padroeira do clube, situada atrás de um dos gols. Sucessivos projetos de modernização de São Januário são descartados por envolverem a demolição ou o deslocamento da capela, de fundamental importância para o Vasco, um clube de forte tradição católica.

Recentemente, o complexo esportivo de São Januário recebeu os Jogos Mundiais Militares, em 2011, e sediou o treinamento de várias seleções para a disputa da Copa das Confederações, em 2013, e da Copa do Mundo de 2014, como Brasil, Espanha, Itália, Argentina e Alemanha. Em uma lista publicada pelo jornal inglês “The Telegraph”, São Januário foi eleito como um dos cinco estádios mais intimidadores do mundo. “Território hostil desde 1927”, como diz uma famosa pintura em uma parede em frente ao estádio vascaíno.

Em tempos de arenas modernas, recheadas de pontos de wi-fi e espaços premium, São Januário é um sopro de futebol. É, também, uma firme resposta do Vasco ao arbítrio de clubes que o negavam o direito à existência. Aos 90 anos, moderno e vanguardista como nunca, com sua fachada em estilo neocolonial, tombada como patrimônio municipal, com suas arquibancadas em formato de “ferradura” (ou de “caravela”), com seu entorno popular, favelado e pulsante, com seus torcedores orgulhosos da casa que têm, São Januário é uma peça de resistência, uma homenagem ao passado, um orgulho no presente e a certeza do futuro, independentemente dos desmandos e da truculência de quem o comande nos dias de hoje.

O templo e os seus: a torcida do Vasco celebra seu time em sua casa. (Foto: Reprodução)
“Te enfrentei, venci, fiz São Januário”: a torcida do Vasco celebra o time em sua casa. (Foto: Reprodução)
Fonte: C. R. Vasco da Gama.

1 Comentário em “Aqui ergui meu templo para vencer”: os 90 anos de São Januário

2 Trackbacks & Pingbacks

  1. Os 93 anos da Resposta Histórica: a maior glória do Vasco é contra o racismo - Cenas Lamentáveis
  2. Do Caldeirão, da Primeira - Cenas Lamentáveis

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*