Aris x PAOK: O suspiro do Velho Continente

Rivalidade entre os clubes vai além do futebol e tem origem na Guerra greco-turca

(Foto: Reprodução/UltrasTifo)

O futebol europeu sofre uma forte e justa oposição aqui na CL, mas nem tudo dá desgosto no Velho Continente. A região chamada Leste Europeu, que compreende um conjunto de países moralizadores, reserva para nós, amantes do futebol raiz, um suspiro neste esporte que há muito agoniza.

No norte da Grécia, em Salonica, cidade localizada na região da Macedônia, Aris e PAOK travam uma intensa rivalidade. Não diferente dos outros países da região, o clássico é impulsionado por antigas questões sociais entre a população. Anterior e, por sua vez, causadora da rixa entre as duas torcidas, está a Guerra greco-turca, protagonizada pela Grécia e revolucionários do Movimento Nacional Turco que queriam um antigo território do Império Otomano até então sob poder dos gregos.

Como consequência à vitória dos rebeldes turcos, um processo de troca entre as populações da Grécia e recém-formada República da Turquia foi iniciado, chamado de Tratado de Lausanne. Um dos requisitos deste tratado foi a religião, o que obrigou a grande parte de cristãos não aceitos pela Turquia serem expulsos da região da Constantinopla e viverem como refugiados na Grécia. Desse grupo de exilados que surge o PAOK.

O Aris, representado pelos Gregos ”nativos” e o PAOK, encarnado pelos refugiados, fazem um dos clássicos mais tensos do planeta. Nas arquibancadas, as torcidas dão um show pirotécnico absurdo e entoam cantos rápidos, fortes e, apesar de não ser possível entender essa língua estranha, passa um sentimento de raiva, guerra e rivalidade. O vídeo abaixo é da torcida do Aris em um ginásio, quando o time disputava uma partida de basquete.

Em dia de jogo, Salonica respira e convive com a tensão do clássico. Confronto entre os hooligans, bebedeira nas sedes das torcidas e aquecimento nas ruas compõem o clima de guerra típico do Derby. Na cidade, paredes de concreto ostentam pixações hostis em alusão aos clubes e seus ultras. O estádio é um campo de batalha, bombas são atiradas no campo, policiamento pesado e forte proteção aos jogadores visitantes, que, para entrarem em paz no gramado, precisa ser por um túnel inflável que os leva até quase o meio-campo.

As torcidas de ambos possuem um ritual interessante: em dia de jogo, eles reúnem a maior quantidade possível de materiais da organizada rival (fardamentos, bandeiras e etc), penduram no alambrado e no meio do jogo iniciam um incêndio aos objetos, possivelmente conquistados em confrontos na cidade.

Torcida do Aris queima bandeiras e fardamentos dos ultras do PAOK. Foto: Reprodução/Youtube
Torcida do Aris queima bandeiras e fardamentos dos ultras do PAOK (Foto: Reprodução/Youtube)

A Grécia é um país recheado de fortes rivalidades. PAOK, Olympiacos, AEK, Aris e Panathinaikos sempre proporcionam ao público bons jogos, mudando somente o contexto em que está inserida a origem da hostilidade entre as torcidas. Cada uma possui a sua identidade e antecedentes que os fazem enxergar no clube a história de vida de sua gente, provando que o futebol, pelo menos por lá, está muito longe de ser só um jogo.

Texto: Felipe Cavalcante @Felipecss

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