Até Deus tem medo da final do fim do mundo

Como Boca e River, uma rivalidade de bairro que, 105 anos depois, decidirão quem ocupa o topo da América

A tensão que atingiu os Céus. (Foto: AFP)
Por Marcelo David Macedo, RJ

O relógio marcava: eram 23 horas e 33 minutos do dia 31. Um intenso outubro do ano da graça de 2018 estava prestes a acabar. Em São Paulo, a maior cidade de um país virado de pernas por ar por embates (e rasteiras) eleitorais que racharam até o outrora imaculado ambiente familiar, a parte verde chorava a queda de sua Academia de Futebol na competição mais importante do ano. As outras cores da cidade, claro, festejavam o ocaso do hoje primo rico financiado por uma família bilionária – um bilhete de loteria no falido (em vários sentidos) futebol brasileiro.

A arena multiuso do Palmeiras multiplicava 40 mil sofrimentos. Por outro lado, uma minoria vermelha e branca festejava em solo adversário a chegada à final de um torneio já conquistado outras três vezes – porém, nem todo esse currículo os livraria da necessidade de processarem o que estaria por vir: a final tão sonhada e, no fundo, jamais desejada, era uma realidade. Ali, no apito final, o destino os reservava aquele jogo que todo torcedor sonha ter e, no minuto seguinte, desiste, desconfiando da resistência do próprio coração. Assim, às portas de novembro, o mundo soube que, para alguns, o fim estava próximo: a Taça Libertadores da América de 2018 seria decidida por Boca Juniors e River Plate.

Um torneio continental disputado por 47 equipes de dez países diferentes, um deles de dimensão continental por si só, seria decidido por dois clubes nascidos no mesmo bairro: La Boca, no sul da cidade de Buenos Aires. O porto de La Boca foi uma importante rota de chegada de imigrantes à Argentina, sobretudo italianos, que em 1914 correspondiam a 25% da população que vivia em solo argentino. Ali, River Plate (1901) e Boca Juniors (1905) nasciam, forjados pela paixão e pelo caldo sociocultural irresistíveis, presentes em qualquer espaço de convivência de pessoas genuinamente diferentes, oriundas de espaços diversos – como era o caso.

Bombonera e Monumental: que templo festejará a final dos sonhos? (Foto: Reprodução de Internet)

Com o tempo, o River Plate se mudou do bairro alçando voos ao norte – mais precisamente, em Belgrano, norte de Buenos Aires, onde ergueu o seu Monumental de Nuñez em 1938. Por este ser um bairro nobre, contrastando com sua origem proletária e popular, o River Plate passou a ser visto como um clube da elite, dicotomia reforçada pelos apelidos dos dois rivais: “Millonarios”, por causa das grandes contratações realizadas pelo River na década de 1930, e “Bosteros” apelido dado aos torcedores do Boca (e reivindicado por eles) por conta de sua origem e permanência em um bairro ocupado por camadas populares.

Poucas coisas são mais argentinas que uma rivalidade de bairro que se tornou de classe, adquirindo contornos épicos após 359 partidas, com 132 vitórias do Boca, 117 do River e 112 empates. Mas números dizem pouco aqui. O Superclássico que já aconteceu quatro vezes em mata-matas da Libertadores, com três vitórias do Boca e uma do River, justamente a última, em 2015, em plena Bombonera (no famoso jogo do spray jogado por torcedores da casa no vestiário do River), é muito mais que um jogo. Envolve discussões de classe, origem, política (o atual presidente da Argentina, Mauricio Macri, é ex-presidente do Boca Juniors) e de muitas outras searas que transcendem, e muito, os onze contra onze em 90 minutos.

E em meio a tudo isso, Boca e River decidem a América. Uma final marcada para um sábado ao invés da tradicional quarta-feira justamente por questões de segurança – ainda que em terras argentinas também exista a tragédia de clássicos disputados com torcida única, traço da falência da política de segurança pública tocada e também nossa enquanto civilização; uma final em dois palcos, a última, uma vez que a partir de 2019 a Libertadores será decidida em estádio neutro, num jogo único, numa decisão equivocada que estará ainda mais exposta após jogos finais em estádios como La Bombonera e o Monumental de Nuñez, dois colossos mundiais; uma final envolvendo nove Libertadores (seis do Boca e três do River) e quatro títulos mundiais, três dos Bosteros e um dos Millonarios; uma final cuja rivalidade fora construída a uma distância que já foi de apenas três quarteirões, entre cortiços e puteiros, como descreveu o jornalista Douglas Ceconello neste brilhante texto em sua coluna no globoesporte.com

Uma final tão grandiosa, tão esperada e ao mesmo tempo tão temida que talvez nem Deus tenha conseguido se conter. O dilúvio de proporções bíblicas que assolou Buenos Aires durante todo o sábado e que forçou o adiamento do primeiro jogo da decisão, ao contrário do dilúvio narrado em Gênesis, que destruiu uma civilização dando à Humanidade uma nova chance, nos deu apenas mais algumas horas de agonia à espera da final do fim do mundo, a maior da história do futebol.

Eis o roteiro perfeito para uma final continental disputada num bairro da capital argentina, um país marcado pelo improvável, pelo exagero, pela dor, pelo drama, pela redenção. Nem nos nossos melhores sonhos.

Um tango em campo e bola. E vida.

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