Atílio Marotti: o estádio onde Anapolina foi maior que Zico

Inaugurado em 9 de setembro de 1951 com uma derrota por 3x1 do Serrano para o Olaria, o estádio viveu lado a lado com o Serrano de seu auge - aquele mágico jogo com o Flamengo em 1980 - até o ostracismo do clube serranista no início do séc XXI.

Foto: Ari Gomes
Por Kley Taboada, RJ

Todo “Templo do Futebol” começa sua história de um jeito particular e com o Atílio Marotti não é diferente. Inaugurado em 9 de setembro de 1951, o estádio foi levantado com o intuito de ser um grande marco não só para o Serrano, mas também para a cidade de Petrópolis. Foi o primeiro estádio da cidade a ter reais ambições de ser um templo do futebol, com a ideia de se tornar uma espécie de “Meca” do desporto petropolitano.

O nome do estádio é uma homenagem a Atílio Marotti, um comerciante petropolitano que dedicou sua vida em prol do desenvolvimento esportivo da cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro. Foi presidente do Serrano entre os anos 1946 e 1949, anos estes em que teve a ideia de construir o estádio que hoje tem seu nome. O mesmo foi responsável pela aquisição do terreno do estádio pelo Serrano, logo após o clube ser retirado do campo do bairro Terra Santa, local onde fora criado em 1915. Infelizmente, Marotti e sua esposa faleceram num acidente de carro na madrugada de 7 de Julho de 1949, na Avenida Brasil, na capital fluminense. Assim, Marotti acabou não vendo o seu projeto de vida tomar forma.

Dois anos depois, já em 1951, o Serrano acabaria finalizando seu tão sonhado estádio e o inauguraria em um 9 de Setembro, numa derrota para o Olaria por 3×1, jogo em que Maxwell (Olaria) acabou marcando o primeiro gol do estádio.

Desde de sua inauguração em 1951, até o tardio processo de profissionalização do futebol do Serrano em 1978, poucas partidas marcantes ocorreram no estádio. O evento mais notável deste período entre 1951 e 1979 é sem dúvidas o jogo contra a poderosa Academia do Palmeiras, que contava com os eternos ídolos palestrinos Djalma Santos e Ademir da Guia. Este jogo foi cercado de muita empolgação entre os torcedores serranistas. O Serrano ia enfrentar uma equipe que jogava o fino do futebol, algo então inédito na vida do clube de Petrópolis. No final, após o Serrano fazer um jogo duro contra o seu poderoso adversário, a partida acabou 1×0 para o Palmeiras, com gol de pênalti que foi convertido ao fundo das redes do Atílio Marotti por Bavani.

Projetado para ser um campo acanhado, o estádio passou a ser um dos maiores palcos do futebol do interior do estado do Rio de Janeiro após uma reforma que ocorreu de 1977 até 1979, ampliando a capacidade do estádio para incríveis 16 mil pagantes. O recorde de público do estádio foi em 19 de novembro de 1980, no mágico jogo entre o Flamengo de Zico e companhia e o dono da casa — onde o público pagante foi de 14.994 torcedores. O time do Flamengo subiu a serra certo de que seria tetracampeão carioca jogando contra o “indefeso” Serrano, aliás, que time seria páreo para o excelente elenco rubro-negro que tinha nomes como Zico, Júnior, Leandro e Adílio? Certamente poucos, e o Serrano foi um desses.

Prejudicado pelo campo pesado do estádio e pela forte chuva que castigava a cidade de Petrópolis antes e durante grande parte do jogo, o Flamengo não conseguiu colocar em prática o seu já tradicional rápido toque de bola, e acabou sendo envolvido pelo esquema tático do Serrano, montado em um ferrolho com Paulo Ramos, Paulo Verdun, Renato e Cândido defendendo muito bem a intermediária. O Serrano apostava em contra-ataques rápidos explorando a velocidade de Anapolina e Luis Carlos.

Foto: Arquivo Jornal do Brasil

Bem armado no meio de campo e com Humberto sendo literalmente a sombra de Junior, o Serrano atraía o Flamengo para seu campo e apostava todas suas fichas numa saída rápida de contra ataque. Numa dessas saídas, Luis Carlos penetrou pela direita e cruzou para dentro da área, a bola acabou batendo em Luís Pereira e sobrando livre para Anapolina, que sem resistência do goleiro Raul, acabou fazendo um dos gols mais antológicos da história do futebol carioca: o gol que adiava e complicava em muito o sonho do tetracampeonato carioca de Zico e companhia.

Esse gol acabou deixando a torcida do Flamengo nervosa e apreensiva já que, após ele, o rubro-negro se lançou completamente ao ataque e não conseguia de maneira alguma penetrar o ferrolho montado pelo Leão da Serra. Perto do final do jogo, Anapolina quase aumentou o placar ao driblar Raul e ficar de frente pro gol vazio, mas acabou chutando pra fora e o jogo acabou 1×0 Serrano. Vendo como o time estava jogando e já sem paciência, próximo ao final do jogo a torcida do Flamengo começou a arremessar bombas em direção ao gol de Acácio, dando início a uma confusão generalizada pós-jogo.

Infelizmente, de seu auge na década de 1980 até os dias atuais, o Serrano não conseguiu manter o mesmo rendimento de outrora. Desde essa memorável partida, o Serrano conquistou apenas dois títulos no futebol profissional, sendo os dois da Segunda Divisão Estadual.

No início deste século o clube acabou vivendo a pior crise financeira de sua história, chegou a ficar sem time para jogar a Terceira Divisão Estadual. Viu o Atílio Marotti ir à leilão por culpa de enormes dívidas trabalhistas, e só não perdeu a sua tão valiosa casa devido a um pedido de anulação do leilão requerido pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. O clube viveu um inferno de 2007, quando foi impedido de jogar a terceira divisão por pendências financeiras, até 2015, ano em que o Serrano acabou não tendo recursos suficientes para montar um time profissional.

Felizmente, em 2016 o grupo Frente Azul assumiu o controle do clube com a proposta de reerguer o Serrano, de transformar o Leão da Serra em um leão novamente. As propostas do grupo liderado pelo jornalista Eduardo Monsanto, colocam a esperança e o sonho de todo torcedor serranista em pauta novamente. O grupo tem o intuito de sanar as dívidas financeiras do Serrano, recolocar o clube novamente na elite do futebol carioca, estreitar as relações entre o clube e outros times da Europa, para assim importar conhecimento técnico e promover intercâmbio de jogadores. Ainda, por fim, obter classificação para as competições nacionais novamente.

Desde a entrada da Frente Azul na direção do Serrano em 2016, são visíveis as melhorias ocorridas no estádio. No mesmo ano, houve um esforço coletivo dos torcedores e diretoria do clube para colocar o Atílio Marotti em plenas condições de uso novamente. A diretoria conseguiu junto ao Corpo de Bombeiros a liberação do estádio para a disputa da Terceira Divisão Estadual daquele ano e o clube pôde, enfim, voltar a mandar suas partidas no estádio, e o Atílio Marotti voltou a pulsar a cada jogo do Leão da Serra novamente

Foto: Sou Serranista Sim Senhor

Para a disputa da Segunda Divisão Estadual deste ano, o grupo “Sou Serranista Sim Senhor” se reúne semanalmente desde setembro de 2018 para deixar o estádio em ordem até o início da competição. O estádio tem ficado lindo e com a cara do Serrano novamente após esses ajustes. Os torcedores pintaram toda a arquibancada social do clube e trabalham arduamente para conseguir finalizar toda a geral até a primeira partida do Serrano em casa pela Série B1, que ocorre no dia primeiro de junho contra o Friburguense.

Foi provado pela Frente Azul que não só “camisa com história não morre”, mas um estádio com uma rica história como essa, também não. O Atílio Marotti vive – e viverá muito tempo ainda, de acordo com os serranistas – para contar a história do futebol não só petropolitano, mas também fluminense. Um estádio em que craques como Ademir da Guia, Zico, Djalma Santos, Leandro e Garrincha já jogaram, merece viver na eternidade, como apenas os mais icônicos Templos do Futebol merecem.

1 Comentário em Atílio Marotti: o estádio onde Anapolina foi maior que Zico

  1. Obrigado por contar nossa história com tanto carinho, Kley! Esperamos fazer uma grande temporada em 2019, estão todos convidados a visitar nosso Atilhão e viver de perto o futebol raiz do Serrano FC. Vale muito a pena! Forte abraço a todos do CL, um campeão da audiência 🙂

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*