Atletiba e a luta contra o monopólio no futebol brasileiro

Jogadores unidos a favor da democracia (Foto: Cleiton da Cruz - Do Rico ao Pobre).
Por Dudu Nobre PR, Honorato Vieira CE e José Victor RJ

Dia 19 de fevereiro de 2017, guarde esta data, pois ela é histórica para o futebol brasileiro.

A dupla Atlético/PR e Coritiba protagonizou uma das cenas mais memoráveis do futebol brasileiro. No início da temporada já davam indícios de que o fato consumado neste domingo (19) poderia acontecer. Após tentar negociar com a Primeira Liga um aumento no repasse da transmissão, para se igualar ao Flamengo e receber uma resposta negativa dos mandatários, o Furacão e o Coxa resolveram sair da competição.

O “Atletiba 370”, que seria realizado na Arena da Baixada na tarde deste domingo, foi cancelado após a Federação Paranaense de Futebol (FPF) entrar em campo e proibir que os clubes transmitissem os jogos via Facebook e YouTube.

Entenda o caso

Os clubes não aceitaram e não venderam os direitos de transmissão de seus jogos no Campeonato Paranaense, por não concordarem com os valores recebidos. Mesmo com a Globo oferecendo um valor consideravelmente mais alto para a transmissão do clássico, a dupla bateu o pé e resolveu transmitir o duelo em seus canais oficiais.

Mesmo com o aviso prévio de que faria esta “cobertura alternativa”, a FPF não se pronunciou durante a semana. Até que, minutos antes da bola rolar, os dirigentes da federação entraram em campo e ordenaram que o árbitro não iniciasse a partida devido à falta de credenciamento dos profissionais que ali estavam, informação desmentida pelo quarto árbitro Rafael Traci – que disse que o jogo foi cancelado porque o veículo em questão não era o detentor oficial dos direitos. A verdade é que eles têm contrato com a Globo e poderiam estar sujeitos a uma multa milionária caso o jogo fosse realizado.

O fato é que a FPF agiu de forma desrespeitosa com o torcedor. Poderia ter informado aos clubes as possíveis irregularidades antes, para que os torcedores não fossem prejudicados. Parabéns aos jogadores pela atitude de não jogar e aos treinadores por acatarem. Vocês acabam de entrar para a história na luta contra o monopólio de transmissão que assola o futebol brasileiro. Os clubes são reféns de uma emissora, mas atitudes como estas mudam um panorama.

Torcida indignada com a decisão da Federação Paranaense de Futebol (Foto: Cleiton da Cruz - Do Rico ao Pobre)
Torcida indignada com a decisão da Federação Paranaense de Futebol (Foto: Cleiton da Cruz – Do Rico ao Pobre)

A história das transmissões no futebol sempre teve seus percalços para os espectadores. Durante a maior parte da história do nosso país, a democracia foi escassa. Por isto, a comunicação esportiva sofreu com o monopólio durante anos. Aos poucos os clubes vêm se mobilizando para uma maior liberdade de escolha e valorização das transmissões nos jogos.

A entrada da Fox Sports no Brasil em 2011 para transmitir a Libertadores, mesmo que faça um controle na captação de imagens, e a inserção do Esporte Interativo trouxeram uma nova opção para os clubes negociarem suas cotas de TV. O que causou, claro, uma tensão na hora de definir os contratos – já que as cotas são receitas importantes para os times.

É preciso fazer uma breve viagem no tempo para explicar como funcionam as transmissões de futebol no Brasil, e as transições feita para cada meio de comunicação se tornar referência para os espectadores do esporte mais popular do mundo.

Até a década de 30, as transmissões das partidas eram praticamente inexistentes no Brasil. A cobertura dos jogos ficava por conta dos meios impressos, o que limitava por exemplo, a divulgação do esporte. A divulgação e cobertura dos jogos aconteciam com mais intensidade pelos periódicos que circulavam nos meios urbanos, sem contar que excluía boa parte da população brasileira de acompanhar o esporte, já que o número de analfabetos era elevado até então.

As transmissões na rádio aconteceram de maneira gradual. No livro “Você, Ouvinte, é a Nossa Meta” de Márcio Guerra, é possível ver como se iniciaram as transmissões esportivas na era do rádio aqui no Brasil. A primeira transmissão aconteceu pela rádio Educadora Paulista em 1931, durante um combinado entre as seleções de São Paulo e do Paraná. A partida contou apenas com o narrador, sem repórter de campo ou comentarista.

O monopólio no rádio era menor se compararmos com a televisão atualmente. Várias outras rádios faziam coberturas dos jogos, e o maior problema era concentração das rádios de difusão nacional e os clubes que tinham suas partidas transmitidas.

O Rádio popularizou os clubes do eixo Rio-São Paulo (Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS)
O Rádio popularizou os clubes do eixo Rio-São Paulo (Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS)

As rádios de difusão nacional eram concentradas no Rio de Janeiro e em São Paulo, o que ajuda explicar a expansão das torcidas dos times destas para o resto do país. Se cada clube tivesse sua própria rádio transmitindo suas partidas para todo o país, do mesmo modo que o Atlético Paranaense e o Coritiba tentaram fazer no clássico, ao transmitir o jogo pelo Youtube, os clubes do eixo Rio – São Paulo teriam tantos torcedores Brasil afora?

Nos anos 1970 houve  uma expansão da TV aberta e, por consequência, da Rede Globo. No entanto, alguns grandes jogos não foram transmitidos pela maior emissora do país e os níveis de audiência foram impressionantes. A final do Brasileiro de 1990, entre São Paulo x Corinthians no Morumbi rendeu 53 pontos de audiência para a Band. A Copa do Brasil de 1995, entre Grêmio x Corinthians no Olímpico foi transmitida pelo SBT e rendeu 52 pontos em SP.

No Pernambuco, outro exemplo:  o estadual de 1999 foi transmitido pela TV Pernambuco, um canal estatal. A final do segundo turno entre Santa Cruz e Sport deu 50 pontos na região metropolitana do Recife. Recorde. Para se ter ideia dos ótimos números de audiência das partidas citadas, a final da Libertadores de 2011 entre Santos x Peñarol no Pacaembu rendeu a Globo 37 pontos de audiência.

Na TV fechada, o monopólio do campeonato brasileiro já pertence à  Globosat desde 1997, e quando a Turner entrou na disputa para levar as transmissões de alguns clubes para o EI, parecia que estávamos entrando em uma nova era para o futebol brasileiro. Porém, foram poucos os clubes que anunciaram acordo com o novo canal, e ainda estamos testemunhando os desdobramentos da concorrência com a Globosat.

Transmissão via internet poderá ser realidade no futebol brasileiro (Foto: Reprodução/Doentes por Futebol).
Transmissão via internet poderá ser realidade no futebol brasileiro (Foto: Reprodução/Doentes por Futebol).

Diante desse dia histórico, fica claro que a transmissão do Atletiba via internet seria mais um marco na comunicação esportiva nacional. No entanto, há uma peça nesse quebra cabeça que poucas pessoas sabem. A assessoria do Atlético Paranaense enviou um e mail aos profissionais de comunicação afirmando que só o clube poderia fazer a captação de imagens do clássico. Uma transmissão alternativa, mas com o mesmo pensamento da conservadora Rede Globo: monopolizar.

Mas isso que deve ser combatido. É contra isso que jogadores e torcedores lutaram no episódio histórico desta tarde de 19/02. Para que chegue um dia em que todos possam fazer o seu trabalho da melhor maneira, sem restrições, sem vantagens por ser amigo de alguém ou mandar e desmandar porque pagou mais.

Já dizia o escritor e jornalista Fernando Sabino: “Democracia é oportunizar a todos o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um”.

Fontes: Arena 303, Banda B, Doentes por Futebol, Diário de Pernambuco, Do Rico ao Pobre , PPP Audiência da Tv, UOL, Vivian Schetini.

4 Comentários em Atletiba e a luta contra o monopólio no futebol brasileiro

  1. Pagar mais para o Madureira do que para Atlético e Curitiba é o fim da picada!
    Comparar com a visibilidade de Corinthians e Flamengo, é claro que não dá, mas colocar os dois times em pé de igualdade com Bangu, Novorizontino, estão de brincadeira! Atlético PR e Coritiba são times grandes e campeões brasileiros, você não acha um time fora dos estados de RS, SP, RJ, MG, que se compare aos dois.
    Eles tem que boicotar mesmo!
    E Palmeiras e Santos deveriam fazer o mesmo, não vejo flamengo e Corinthians maior do que Santos e Palmeiras.
    Você que mal conhece a esquina da sua casa, não pode vir aqui desmerecer is times do Paraná, o londrina por exemplo, tem mais estrutura do que a maioria dos clubes do Rio.
    O Atlético tem estádio de primeiro mundo! O Coritiba tem estádio grande.
    O Corinthians, para ter un estádio, todos sabemos como foram as falcatruas,né…
    O flamengo nem estádio tem!
    Vamos deixar de ser bairristas e enxergar a realidade! As torcidas dos clubes são inchadas pelo bairrismo da mídia.

  2. Uma visão totalmente distorcida, se pago por esse produto tenho direito de transmitir, e quando esse produto me leva lucro aí tenho direito de escolha, e quando meu produto leva mais lucro do que o do vizinho tenho direito a receber muito mais por isso, agora no dia que o produto do meu vizinho estiver no mesmo patamar que eu, não me importaria com a divisão. Isso é o que acontece no Brasil, Flamengo e Corinthians sempre trazem o triplo de lucro em suas transmissões televisivas do que o atletiba, então porque tenho que pagar mais por ele ? Porque a audácia de Paranaense e Coritiba se acharem no direito de ganhar o mesmo tanto que Flamengo ou Corinthians se não tem a mesma visibilidade ? Isso se chama divisão justa, no caso contrário é aproveitamento indecoroso .

  3. Amigos, acho que a intenção do texto é ótima e a luta dos dois clubes extremamente válida, mas a meu ver alguns pontos foram mal abordados.

    Em primeiro lugar, o entendimento dominante a respeito da legislação em vigor prevê que o direito de transmissão das partidas pertence aos dois clubes que participam do jogo, independentemente de mando de campo. Logo, uma TV que queira viabilizar a transmissão ampla de um campeonato deve fechar com todos ou quase todos os clubes que dele participam. Caso contrário, ninguém transmite o jogo. Ou seja, pretende-se induzir a negociação coletiva dos direitos de transmissão, embora isso não esteja expressamente escrito nem seja obrigatório. Esse modelo tem tendências monopolistas (o campeonato praticamente só é viável se uma única emissora assumir sua transmissão, fechando com todos os clubes) e só faz sentido se os clubes possuem uma instituição (uma liga) que centralize a negociação (vira, assim, um monopsônio) e se contraponha ao monopolista, obtendo a maior proposta financeira possível para o campeonato.

    No entanto, no começo da década de 2010 houve a implosão do Clube dos 13, patrocinada pela Globo, justamente quando se pretendia implementar um modelo que estimulava a concorrência entre as emissoras, além de critérios mais técnicos para a divisão de cotas, e parecia que a Record iria entrar com uma proposta bem forte na disputa.

    A Globo, então, com propostas vultuosas para Flamengo e Corinthians, conseguiu cooptar esses clubes e patrocinar a implosão do C13, que promovia a negociação coletiva dos direitos de TV, chegando a essa bagunça generalizada que temos hoje.

    Ou seja, no Brasil, hoje, temos um modelo muito distorcido, em que não há negociação coletiva dos direitos de transmissão (como a lógica da nossa legislação parece querer induzir), pois cada clube negocia seu próprio contrato com a TV, mas deve haver uma coordenação geral entre eles, de modo que todos fechem com a mesma emissora, a fim de viabilizar o produto (o campeonato). É um modelo muito ruim, pois favorece a discrepância entre as cotas de TV, além de reforçar o poder de monopólio da Globo, pois só ela tem condições de levar todos os clubes para sua carteira, enquanto mantém os clubes dispersos e sem coordenação entre si. A própria Globo “coordena” esses clubes, mas sem precisar se submeter a uma liga forte que extraia o máximo dela.

    Na prática, isso induz uma “espanholização” do futebol brasileiro, com uma crescente discrepância de cotas de TV que tende a tornar nosso campeonato cada vez menos e equilibrado e mais previsível, exceto por fatores externos e “fora da curva”, como o patrocínio da Crefisa ao Palmeiras, para manter a paridade.

    Altético-PR e Coritiba, por serem clubes fora do “clube dos grandes”, sofrem ainda mais com isso, e ficam com poucas alternativas para fugir do monopólio da TV. E quando tentam, como no caso acima, ainda são impedidos por meios obscuros e desleais.

    No mundo ideal, os clubes menos favorecidos se uniriam em um grupo e forçariam a Globo a negociar coletivamente, pois transmitir apenas os jogos de Flamengo e Corinthians e mais 2 ou 3 entre si não vai a lugar nenhum. Na prática, os clubes são desunidos, financeiramente frágeis e a legislação não favorece a concorrência (ao não atribuir ao mandante o direito exclusivo). O resultado é esse aí.

    A única solução a meu ver é passarem uma lei como fizeram na Itália e Espanha, IMPONDO a negociação coletiva de direitos de TV, reduzindo o poder da Globo e fortalecendo esses clubes (não apenas Atl-PR e Coxa, mas Bahia, Vitória, Sport, Chape, etc) e tantos outros na negociação.

    Para ler um pouco sobre essas mudanças na Espanha:
    https://fastfut.blogosfera.uol.com.br/2015/04/30/barcelona-e-real-perdem-com-novo-acordo-de-direitos-de-tv-na-espanha/

  4. Texto muito bacana. Mas pra faltar levar 10 a única ressalva que faço é que uma emissora que coloca travesti na televisão dizendo que se sentia mulher incentivando crianças a escolherem se são menino ou menina em programa de TV às 11 horas da manhã pode ser qualquer coisa, menos conservadora.

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