A batalha dos aflitos – Uma trave, um cartão, um goleiro e um gol

Quatro personagens foram decisivos para a história da Batalha dos Aflitos

O cartão vermelho que foi peça importante na Batalha dos Aflitos. (Foto: Lance!/Diario de Pernambuco)
Por: Max Galli, SP

Em 69 minutos dá para se fazer milhares de coisas, mas os gremistas, neste tempo, sofriam, choravam, rezavam, imploravam, gritavam e, por fim, comemoraram. Não era final de Copa do Mundo, nem final de Libertadores, tampouco de Copa do Brasil, era o jogo que decidia uma das vagas na elite do Campeonato Brasileiro, além de um possível título da Série B de 2005. O Grêmio só precisava de um empate para voltar à Série A, mas teria que viajar até Recife e encarar um Naútico que precisava da vitória para subir e tinha como aliado um caos pernambucano que fizeram de um jogo um cenário de guerra.

Penalidades, expulsões, polícia em campo, invasão da torcida, copos lançados, catimba e tudo que uma típica decisão nos oferece aconteceram nesses 69 minutos. Os personagens: uma trave, um cartão vermelho, um goleiro e um gol. Podemos dizer que Porto Alegre e Recife ficaram calados, ao mesmo tempo, aos 59 minutos e 40 segundos do 2º tempo, no mesmo instante em que a bola sai da marca do penalti em direção ao gol e, em menos de um segundo, só um milagre poderia salvar o Imortal Gaúcho, apelido esse que surgiu após essa partida.

A equipe gremista pronta para a batalha. (Foto: Lance!/qqd.final)
A equipe gremista pronta para a batalha. (Foto: Lance)

Depois da tristeza do rebaixamento no ano anterior, o Grêmio iniciava o ano de 2005 das piores formas possíveis. Com apenas sete atletas no plantel, o presidente eleito na época, Pedro Odone, teve trabalho para reformular a equipe. Com isso montou uma direção de futebol formado por campeões mundiais pelo clube 1983. Mário Sérgio fora contratado para o cargo de Diretor de Futebol e, Hugo de León para ser o técnico e assim tentarem levantar o clube novamente.

O início da temporada já demonstrava como seria sofrido até o final, depois de uma derrota na semi-final do Campeonato Gaúcho para o Caxias do Sul, então treinado por Mano Menezes, e uma derrota de 3×0 para o Fluminense na Copa do Brasil, fez com que Hugo de León fosse despedido. Mano é então contratado dois dias antes do início da Série B. O Náutico vinha de um vice no Campeonato Pernambucano, mas com um time que sofreu mudanças depois do estadual. O tricolor gaúcho ocilou muito durante a primeira fase, tendo como consequencia a demissão de Mário Sérgio, mas conseguiu se classificar para a segunda fase em quarto colocado.O Náutico sofreu mais, conseguindo a classificação apenas na última rodada. Já na fase posterior, as duas equipes conseguiram se classificar para o quadrangular final sem grandes sustos juntamente com Santa Cruz e a Portuguesa de Desportos.

Recife, 26 de Novembro de 2005, 16h. Estádio dos Aflitos.

A rodada ainda dava chance para as quatro equipes para conquistarem duas vagas rumo a Série A. Santa Cruz, Portuguesa, que se enfrentavam distante de alguns metros dos Aflitos, no Arruda e o Náutico precisavam da vitória, já o Grêmio o empate bastava para o acesso. Com todo o clima de decisão, a torcida alvirubra descobriram o hotel onde os tricolores estavam hospedados e começaram o foguetório. A equipe porto-alegrense sentiu o efeito e só foi piorando, pois no caminho do hotel para o Estádio viu como seria a recepção dos torcedores pernambucanos sendo atirados copos, garrafas e muito mais nos ônibus e depois nos jogadores ao descerem.

O vestiário dos visitantes era pequeno, todo fechado e que tinha passado por pintura na mesma manhã e fez com o que o cheiro forte atrapalhasse ainda mais os jogadores, sem contar uma sirene e os gritos da torcida perto do vestiário que fizeram com que os últimos gritos antes da entrada em campo mal fossem ouvidos, sem contar que não havia entrada direta para o campo pois o portão de acesso estava soldado, enfim, a guerra estava pronta, só precisavam ir até lá enfrentá-la.

Jogo truncado quase todo o tempo. (Foto: Arquivo/D.P/D.A Press/Superesportes)
Jogo lá e cá quase todo o tempo (Foto: Arquivo/D.P/D.A Press/Superesportes)

O Timbu tinha como característica a rapidez no ataque com Kuki e Paulo Matos, o que poderia trazer grandes trabalhos para a dupla grandalhona do Grêmio, Domingos e Pereira, mas na verdade trouxe para o todo o time. O Náutico entrou querendo a vitória e o time armado de Mano Menezes foi para parar a velocidade dos alvirubros, mas apresentava falhas nos minutos iniciais. Danilo era o meia mais criativo dos pernambucanos e o homem dos lançamentos para a rapidez dos atacantes, tanto que em um desses passes, o primeiro personagem aparece na partida. Aos 31 minutos, Paulo Matos invade a área e é empurrado por Domingos, pênalti assinalado pelo árbitro Djalma Beltrami. Eis que surge a trave para salvar os gaúcho, Bruno Carvalho tentou tirar de Galatto, mas tirou demais e a bola foi na trave.

Isso não abalou o Timbu que continuou indo para cima, o que fez de Galatto surgir como possível herói do dia com grandes defesas o que impediu do Náutico de abrir o placar na primeira etapa. O resultado mandava o Grêmio para a Série A e deixava os pernambucanos mais um ano na Série B. Mano Menezes vendo a dificuldade de marcação da equipe no primeiro tempo, resolveu sacar um de seus atacantes e mandar Lucas Leiva para o jogo, dando assim mais velocidade na transição da zaga para o ataque e mais força na marcação.

O primeiro personagem, a trave, salva o Grêmio na primeira etapa. (Foto: Arquivo/DP/D.A.Press/Superesportes)
O primeiro personagem, a trave, salva o Grêmio na primeira etapa (Foto: Arquivo/DP/D.A.Press/Superesportes)

Na segunda parte da partida, o jogo foi mais aberto com tentativa para os dois lados, mas Rodolfho pelo time de Recife e Galatto pelo lado gremista não deixavam as redes serem balançadas com defesas decisivas. Marcel que era um dos meia de ligação da equipe gaúcha não vinha bem na partida e Mano Menezes resolveu mandar o menino Anderson, só 17 anos, para a partida. Entrou e fez efeito. Aos 22, deu passe para o uruguaio Lipatin chutar livre, mas que não conseguiu abrir o placar.

O jogo ficava ainda mais corrido com os passes de Lucas Leiva e a velocidade de Anderson pelo Grêmio, junto com os passes de Danilo, as subidas de Miltinho e os ataques rápidos de Kuki e Paulo Matos pelo Náutico. Aos 33 minutos, mais um desastre para o tricolor, o chileno Escalona mandou a mão na bola e o juiz deu-lhe o segundo amarelo e, consequentemente, o segundo personagem surgia, o cartão vermelho. Grêmio com um jogador a menos, mas com o resultado a seu favor.

Dois minutos depois, Galatto parou Miltinho com o braço dentro da área, mas o árbitro assinalou simulação do atacante do Timbu. As reclamações dos pernambucanos não abalaram os jogadores que seguiram buscando o gol da vitória. Mas, aos 35 minutos, Djalma Beltrami compensou o erro anterior, deu mão na bola de Nunes num chute de Paulo Matos assinalando assim penalti para o Náutico. O lateral Patrício foi com tudo para cima do árbitro com um empurrão e o árbitro o expulsou imediatamente. Com isso foram todos os jogadores gremistas para cima do camisa amarela dando assim início a confusão. Com o cartão na mão, ainda deu tempo de expulsar Nunes antes do policiamento vir a tona. A imprensa aproveitou do momento para entrar em campo, torcedores invadiram o campo para atrasar ainda mais a partida. Beltrami não queria nem saber, seguia com o vermelho na mão só esperando o que viria acontecer, depois de 25 minutos de paralisação, a partida enfim seria recomeçada com a penalidade para o alvirubro, mas o zagueiro Domingos lançou a bola para longe, impedindo a cobrança e também foi expulso. O Grêmio ficava com sete jogadores, se mais um fosse expulso, a partida acabaria.

Confusão armada dentro de campo. (Foto: Lance!/Linha de Fundo)
Confusão armada dentro de campo. (Foto: Lance!/LinhadeFundo.net)

Nem o mais otimista torcedor gremista achava forças para acreditar que o time viraria todo aquele revés, seis jogadores na linha, mais o goleiro e um penalti contra. Era o fim de um ano sofrido, depois de perder 30 jogadores depois do rebaixamento, desastrosas campanhas em outros campeonatos, a luta para a classificação na primeira fase, tudo isso vinha a tona naquele momento, o relógio assinalava 59 minutos e ainda tinha jogo. Nas palavras de Tulio Macedo, o diretor financeiro na época do Grêmio, antes da partida: “O Grêmio tem que subir de qualquer jeito. Que eles deixem sua alma dentro de campo. Deixem tudo. Porque eu não sei o que vai ser do Grêmio se o Grêmio não subir”. Faltavam cerca de 10 minutos de partida e nesse tempo o time porto-alegrense, para o torcedor, virava um time comum por ficar mais um ano na Série B, já enxergava a derrota, já via a eliminação estampada, as mais terríveis suposições já eram pensados, mas isso é futebol, nunca sabemos o que pode acontecer até o apito final e ainda faltavam dois personagens para essa partida, só que a torcida não sabia disso, muito menos os deuses da grande pelota.

Aos 59 minutos e 10 segundos, Ademar se prepara para a batida da penalidade, a torcida nos Aflitos estavam quietos, Recife estava quieto, menos nos arredores do Arruda pela vitória do Santa Cruz que voltava assim para a Série A. Em Porto Alegre, o silêncio era icônico. Aos 59 minutos e 38 segundos ele parte para a bola, aos 59:40 o chute. O mundo parou para torcedores do Timbu e do Tricolor, um segundo era o bastante para ver onde a bola iria, mas ai surge o terceiro personagem do dia, Galatto, o goleiro que pula para o lado esquerdo mas deixa a perna no caminho da bola e a impede de entrar nas redes, o mundo desabava para os pernambucanos, visto na cena de Kuki no chão depois do penalti perdido, o Grêmio ainda estava classificado para a Série A de 2006 e toda a morbidez antes daquele segundo decisivo foi embora, o sol brilhava nas camisas e nos rostos tricolores.

A luta continuava. Escanteio para os alvirubros que desperdiçam e dão contra-ataque para os gremistas puxado por Anderson. Avançando pela lateral sofre falta sem bola de Batata que vai expulso, deixando assim a diferença de jogadores apenas de três.

Galatto reza e tem a glória com sua perna direita. Herói do Grêmio. (Foto: Lance!/Linhadefundo.net)
Galatto reza e tem a glória com sua perna direita. Herói do Grêmio. (Foto: Lance!/Linhadefundo.net)

O desespero do Náutico ficou evidente, a falta de concentração tinha se dissipado depois daquele penalti. O Grêmio tinha que se segurar, não adiantava, mas ainda faltava um personagem para surgir em todo esse episódio. No mesmo lance da falta, Marcelo Costa cobra rápido para o menino Anderson, lançado na fogueira por Mano Menezes, mas que ponderava ser de grande personalidade, o menino então avançou, como se tivesse protegido pelos 6 milhões de torcedores tricolores, ninguém tocava, ninguém pensava em tocar nele, entrou na área, passou por dois zagueiros e tocou com a sua perna esquerda no canto direito de Rodolfho, pronto, surgiu ali o gol.

O impossível, o inimaginável, o improvável aconteceu, surgia naquele momento o Imortal Tricolor. Havia gritos e choros de emoção. Os gremistas tomaram conta daquele 26 de novembro seja no gramado, seja no banco de reservas, seja na pequena torcida que presenciava a história acontecer. Em Porto Alegre ou qualquer outra cidade com pelo menos um gremista vivo se imaginava a festa, o carnaval, o orgulho. Mas o jogo ainda não tinha acabado, faltavam oito minutos. Os oito minutos mais demorados para qualquer gremista. Mas o Timbu estava entregue, sem forças, mesmo se tivesse com mais jogadores em campo, nada e nem ninguém iriam tirar aquela glória dos gaúchos.

Anderson comemora o gol que garantiu o acesso a Série A. (Foto: Arquivo/DP/D.A.Press/Superesportes)
Anderson comemora o gol que garantiu o acesso a Série A. (Foto: Arquivo/DP/D.A.Press/Superesportes)

Aos 69 minutos, Djalma Beltrami apitou o final de uma partida que ficará marcado na história do futebol. O Grêmio vencia o Náutico, nos Aflitos, por 1 a 0 tendo quatro atletas expulsos, dois pênaltis perdidos pelo time rival, dormindo mal pelo foguetório da torcida pernambucana, entrando em campo tonto pelo cheiro de tinta do vestiário, prejudicado pela arbitragem e agredido pela polícia. Fizeram de tudo para acabar com Grêmio naquele dia, mas não conseguiram. O impossível não existiu, ainda mais para o Grêmio onde o impossível não existe, time imortal desde aquele fatídico 26 de novembro de 2005.

Créditos: GloboEsporte.com, GloboEsporte.com, Superesportes, Linha de Fundo

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