Bebeto: da Gávea para São Januário, um dos maiores chapéus da história

QUE PASSADA DE PERNA

Em 1989, Bebeto saiu de maneira polêmica do Flamengo e rumou para o seu maior rival (Foto: Arquivo Lance!/ Reprodução Internet)
Por: José Victor – RJ

Dezembro e Janeiro no futebol brasileiro são meses que a bola pouco rola. Porém, é sempre a mesma história, especulações e mais especulações que giram sempre em torno dos mesmos questionamentos clichês: quem fica ou quem sai, o jogador renova ou não renova? O sonho de consumo vem ou não? E o ídolo, será que dessa vez volta para os braços da torcida?

Seguindo esta linha, em janeiro de 1989, José Roberto Gama de Oliveira, popularmente conhecido como Bebeto, foi pivô de um enorme rebuliço na janela de transferência do futebol brasileiro. O atacante do tetra era ídolo do Flamengo. No clube carioca, ganhou o Campeonato Carioca de 1986  e a Copa União de 1987. Era queridíssimo pela torcida, até que no final do ano de 1988, começou o imbróglio entre o atacante e os dirigentes. A partir daí, começa a história do que certamente foi um dos maiores chapéus do futebol brasileiro.

O Flamengo tinha repatriado bons nomes, o maestro Júnior, havia voltado do futebol italiano, assim com Renato Gaúcho. Estes jogadores atuavam respectivamente por Pescara e Roma, e eram contratações que chegaram com pompa de estrelas. Bebeto, até então ídolo da Nação, não tinha acertado sua renovação e o presidente do clube na época, Gilberto Cardoso, estava irredutível. Não queria renovar com o xodó nos termos em que o atacante pretendia. Uma pena, pois o final foi trágico para o Rubro-Negro.

Se em janeiro já tinha o imbróglio da renovação contratual do jovem atacante, a duração foi realmente maior que uma novela. Para se ter ideia do quanto as negociações entre Vasco e Flamengo se arrastaram ao longo do ano de 1989, Mulheres Apaixonadas, novela marcante escrita por Manoel Carlos em 2003, durou aproximadamente 8 meses. É praticamente o mesmo tempo em que Bebeto levou desde as primeiras conversas para a renovação de contrato com o Flamengo até o acerto com o Vasco.

O que poucos sabem ou lembram é que Bebeto já esteve próximo de acertar com o cruzmaltino antes de atuar pelo Flamengo. Em 1982, o Vitória vivia uma situação financeira caótica e Bebeto era, até então, o jovem mais promissor e uma possibilidade de afago financeiro para os combalidos cofres da equipe. O Gigante da Colina até que tentou de maneira incessante a contratação da nova revelação do futebol brasileiro, mas o time baiano se mostrou irredutível.

Bebeto foi pretendido pelo Vasco quando ainda era uma promessa do Vitória-BA (Foto: Jornal dos Sports)
Bebeto foi pretendido pelo Vasco quando ainda era uma promessa do Vitória-BA (Foto: Jornal dos Sports)

Não teve jeito: Bebeto já estava com o destino traçado para o Rio de Janeiro, apenas para um bairro diferente. Ele não desembarcou em São Cristóvão como era esperado, mas acabou indo para a Gávea em 1983. Contratado por 53 milhões de cruzeiros, o jovem escreveu uma bonita história, conquistando títulos e se declarando rubro-negro. Porém, o parceiro de Romário no tetramundial, acabou indo do céu ao inferno no conceito da torcida quando deixou o clube para jogar no maior rival, e isso no ápice da sua passagem pelo Flamengo.

Bebeto chegou ao Flamengo em 1983 e logo se tornou ídolo do clube (Foto: Jornal dos Sports)
Bebeto chegou ao Flamengo em 1983 e logo se tornou ídolo do clube (Foto: Jornal dos Sports)

Após os títulos e a consolidação da idolatria, o casamento de Bebeto com o Flamengo dava alguns indícios de que estava chegando ao fim. O que muitos não esperavam, era que ele fosse continuar atuando por um clube brasileiro, já que era um dos jogadores mais caros do país e nome certo na Seleção, o que servia como uma grande vitrine para que grandes clubes europeus o vissem jogar. Mesmo a disparidade não sendo como nos dias atuais, os grandes do Velho Continente, principalmente os italianos, já levavam uma boa vantagem financeira perante as equipes brasileiras.

Como o impasse com o Rubro-Negro ia crescendo desde o final de 1988, o número de interessados em Bebeto só aumentava. Olympique de Marsielle, Monaco, Roma, Fiorentina, Sampdoria e Atalanta, além do Michelen-BEL, eram os clubes europeus de olho no craque. Nenhum time do Brasil até então tinha condições de contratar o jogador que já era figura constante na seleção brasileira principal. Se o impasse com o clube da Gávea era grande, Bebeto teve chances de atuar por grandes clubes europeus neste período. O atacante chegou inclusive a acertar com o Bayern de Munique, pediu dispensa da Seleção Brasileira e viajou para a Alemanha com o intuito de assinar contrato e já ser apresentado. Porém, um impasse de ultima hora acabou com o negócio.

Bebeto era dado como certo na Alemanha, porém o negócio acabou desfeito sem maiores explicações por divergências contratuais em plena assinatura do contrato (Foto: Jornal dos Sports)
Bebeto era dado como certo na Alemanha, porém o negócio acabou desfeito sem maiores explicações por divergências contratuais em plena assinatura do contrato (Foto: Jornal dos Sports)

O desgaste com o mandatário Gilberto Cardoso era enorme. Bebeto e seu agente tiveram rusgas com o presidente do Flamengo que passaram a ser insustentáveis. O atacante confessou anos depois, em entrevista para o Esporte Interativo, que foi escondido à Gávea, sem a presença de seu agente, para tentar a última cartada na renovação de contrato. Segundo o jogador, nesta tentativa ele aceitaria 40% do valor da proposta que ele tinha em mãos de um clube brasileiro para ficar no clube. Porém, as rusgas e a demora na renovação foram tão grandes que o presidente rubro-negro achou que Bebeto estava blefando, recusando o apelo do artilheiro.

Enquanto o Flamengo duvidava da capacidade de algum clube brasileiro contratar o jogador, o Vasco vinha se reestruturando. Após as vendas de Romário para o PSV e de Geovanni para o Bologna, era necessária a contratação de um grande nome, e principalmente um substituto à altura de Romário. Por ironia do destino, o Vasco cogitou a contratação de Bebeto em 1987, e em contrapartida, o Rubro Negro exigiu Romário e Geovani. Obviamente, não teve negócio e os jogadores permaneceram em seus clube.

No ano fim de 1987, Bebeto chegou a ser especulado em uma possível troca por Romerito, paraguaio que marcou época no Fluminense. Porém, o candidato mais forte era o Benfica, que também não conseguiu comprar o atacante, um dos destaques do título brasileiro de 1987 conquistado pelo Flamengo.

Flu tentou contratar Bebeto oferecendo o seu maior ídolo. Proposta foi prontamente recusada pelo Fla (Foto: Jornal dos Sports)
Flu tentou contratar Bebeto oferecendo o seu maior ídolo. Proposta foi prontamente recusada pelo Fla (Foto: Jornal dos Sports)

Se atualmente os dirigentes do Vasco não demonstram tanta união e colocam as vaidades pessoais a frente do amor pelo clube, em 1989 foi bem diferente. Grandes vascaínos como o presidente do clube, Antônio Soares Calçada, o empresário Arthur Sendas, o polêmico Eurico Miranda e Paulo Angioni, deixaram as diferenças políticas de lado para sacramentar um dos maiores chapéus da história do futebol brasileiro.

A negociação com o Gigante da Colina durou exatos 28 dias, e na maior parte do tempo em sigilo absoluto. A movimentação dos dirigentes vascaínos para viabilizar a chegada de Bebeto foi parecida com o que aconteceu no começo da década de 1970, quando o Cruzmaltino contratou o gênio Tostão vindo do Cruzeiro através do aporte financeiro de empresários como o banqueiro Afonso Pinto Magalhães, e o mesmo Arthur Sendas que também não mediu esforços para viabilizar a contratação de Bebeto.

Não teve jeito. Mesmo com a diretoria do Flamengo igualando a proposta, Bebeto chegou a São Januário com muita festa e recebido nos braços do povo. O próprio jogador confessou após encerrar sua carreira que pensou em desistir diversas vezes de atuar pelo Vasco para continuar na Gávea, pedindo inclusive, 400 mil a menos por ano em cima do valor da proposta vascaína, sem o consentimento do seu agente José Moraes.

Relação estremecida entre as diretorias dos clubes rivais marcou a a polêmica transferência de Bebeto (Foto: Jornal dos Sports)
Relação estremecida entre as diretorias dos clubes rivais marcou a a polêmica transferência de Bebeto (Foto: Jornal dos Sports)
O atrito entre Fla e Vasco deixou a imprensa carioca fervendo. O grande Apolinho não enxergava Bebeto como um craque e ainda defendeu a possibilidade da proposta do Vasco pelo jogador ser apenas um blefe (Foto: Jornal dos Sports)
O atrito entre Fla e Vasco deixou a imprensa carioca fervendo. O grande Apolinho não enxergava Bebeto como um craque e ainda defendeu a possibilidade da proposta do Vasco pelo jogador ser apenas um blefe (Foto: Jornal dos Sports)
Em sua coluna no Jornal dos Sports, o jornalista Mauro Cesar Pereira, não considerou a atitude da diretoria vascaína antiética e ainda fez severas críticas aos dirigente rubro negros (Foto: Jornal dos Sports)
Em sua coluna no Jornal dos Sports, o jornalista Mauro Cezar Pereira, não considerou a atitude da diretoria vascaína antiética e ainda fez severas críticas aos dirigente rubro-negros (Foto: Jornal dos Sports)

O Flamengo tentou fazer de tudo para voltar atrás. Márcio Braga que até então era dirigente, cortou relações com o presidente do Vasco. As diretorias não conversavam sobre nada até que a situação de Bebeto fosse resolvida e ele voltasse a ser jogador rubro negro, algo que não foi possível naquele momento. Não tinha mais o que fazer: Bebeto já era jogador do Gigante da Colina!

Bebeto no Vasco, o sonho acabou se tornando realidade (Foto: Jornal dos Sports)
Bebeto no Vasco, o sonho acabou se tornando realidade (Foto: Jornal dos Sports)
Jogada de diretoria vascaína para que a negociação se concretizasse foi exaltada pela imprensa (Foto: Revista Placar)
Jogada de diretoria vascaína para que a negociação se concretizasse foi exaltada pela imprensa (Foto: Revista Placar)

Bebeto se tornou ídolo do Vasco, onde foi fundamental para o conquista do Campeonato Brasileiro de 1989, tirando o clube da fila de 15 anos sem um título brasileiro. Deixou o clube em 1992, como ídolo, para atuar no futebol espanhol, onde marcou época jogando pelo Deportivo La Coruña.

Bebeto é recebido com festa pela torcida em sua chegada ao Gigante da Colina (Foto: NETVASCO)
Bebeto é recebido com festa pela torcida em sua chegada ao Gigante da Colina (Foto: NETVASCO)
Torcida rubro negra inconformada com a ida de Bebeto para o maior rival (Foto: reprodução internet)
Torcida rubro negra inconformada com a ida de Bebeto para o maior rival (Foto: reprodução internet)

Para os flamenguistas, ficou uma mágoa difícil de ser curada. E aos vascaínos, o gosto de contratar um ídolo diretamente do rival para chamar de seu.

Fontes: Jornal dos Sports, Revista Placar, Netvasco, Jornal O Globo

2 Comentários em Bebeto: da Gávea para São Januário, um dos maiores chapéus da história

  1. Parei de ler no trecho que vocês dizem que ele foi campeão da copa união de 87 pelo clube carioca.

    A copa união de 87, também conhecida como campeonato brasileiro de 1987, foi vencida pelo SPORT.

    Sem mais.

  2. Beleza, mas faltou situar melhor a história. A troca de clubes não foi na virada de 1988 para 1989. Bebeto foi para o Vasco no meio de 1989, quando estava na Seleçao disputando a Copa América.

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