Biriba, o “cãofrade” e talismã botafoguense

Um jejum de 13 anos, um presidente supersticioso, um zagueiro e seu fiel escudeiro Biriba, o cachorro moralizador das décadas de 40 e 50

Por: Jean Costa, RS

Confrades de todos os cantos do nosso Brasil brasileiro, a saga dos “cãofrades” continua! Recentemente, tivemos a história de Pickless contada por outro de nossos colunistas moralizadores, mas a crônica de hoje é sobre um Fox Paulistinha conhecido no Rio de Janeiro e especial para você, caro leitor e torcedor botafoguense, o cachorrinho Biriba.

Jamyr Sueiros, também conhecido como Macaé, era zagueiro e reserva no Glorioso. O beque morava em uma pensão no bairro de Copacabana. Lá, vivia com um cachorro que perturbava a vida dos hóspedes e, a pedido da dona do local, recebeu ordem de se livrar dele. Era o início da história do cãofrade botafoguense. Sem saber o que fazer, Macaé, então, levou Biriba para a sede da agremiação e justamente quando estava em andamento um jogo entre os reservas contra o Madureira. Em um momento de desatenção do zagueiro, Biriba invadiu o campo e urinou na trave, tirando a atenção do goleiro do Madura, e resultando no gol do Glorioso. Para o presidente alvinegro Carlito Rocha, que possivelmente foi o dirigente mais supersticioso da história do RJ, aquilo não era um simples acontecimento. Era um sinal dos Deuses do Futebol! A partir daquele momento, Carlito levou Biriba para todos os jogos do Bota no Campeonato Carioca de 1948.

Rocha achava que o cão dava sorte e não aceitava de maneira alguma que o animal fosse barrado. A diretoria do Vasco tentou impedir a entrada de Biriba em São Januário. Porém, ele colocou o cachorro de baixo do braço e desafiou: “Ninguém impede o presidente do Botafogo de entrar onde quer que seja e quem estiver com ele entra, com certeza!”, garantia Carlito. Com a presença de Biriba, em 19 jogos, o Botafogo venceu 17 partidas e empatou as outras duas no Carioca de 1948, e sagrou-se campeão, após um jejum de 13 anos. É a partir de Biriba que o cachorro foi adotado como mascote. Na decisão, o alvinegro derrotou o poderoso Vasco da Gama, chamado de “Expresso da Vitória”.

Biriba devidamente uniformizado ao lado do seu dono (Foto: Reprodução/ Terceiro Tempo)
Biriba devidamente uniformizado ao lado do seu dono (Foto: Reprodução/ Terceiro Tempo)

Na véspera do jogo contra o próprio, o cão sofreu um atentado a tiros. Dizem que alguns padeiros vascaínos ofereceram uma verdadeira fortuna para quem entregasse “Biriba”, vivo ou morto, o que nos faz remeter aos bons filmes do Velho Oeste americano. Seria cômico, mas assassinar um cãofrade? Sacanagem, caro leitor. Carlito Rocha, temeroso de que o mascote fosse envenenado, ordenou que Macaé provasse toda a refeição antes de dar ao vira-lata. “Antes de dar comida ao “bichinho” prove antes, se não acontecer nada com você, pode alimentá-lo”.

Além de Macaé, o único que Biriba permitia que o pegasse no colo era o Presidente Carlito Rocha (Foto: Reprodução/ Terceiro Tempo)
Além de Macaé, o único que Biriba permitia que o pegasse no colo era o Presidente Carlito Rocha (Foto: Reprodução/ Terceiro Tempo)

Algumas das histórias do vira-lata mais querido pelo torcedor botafoguense circulam, como a de uma viagem para enfrentar o São Paulo, no Pacaembu, Carlito não queria gastar muito e resolveu cortar o meia-esquerda Bauduca da delegação, para levar Biriba, já que era uma cláusula contratual para o amistoso. Após o incidente, o atleta encerrou a sua carreira profissional. O dia em que um cãofrade valeria mais que um atleta havia chegado. Outro conto da saga de Biriba foi sobre a contratação de um zagueiro do Bangu, em 1953. O negócio estava bem adiantado, mas um dirigente do Glorioso lembrou que este mesmo jogador chutou o “talismã” botafoguense em uma partida e o negócio acabou por não sair.

Biriba era arisco, apenas o seu dono Macaé e Carlito Rocha que o confrade permitia que o pegassem no colo. O fato curioso da história do mascote é que antes de tudo o que viria a acontecer com ele, o vira-lata não se chamava Biriba. Macaé o chamava apenas de “Cão” e se contentava com o fato de que o mesmo correspondia. Isso mudou quando o goleiro Osvaldo “Baliza” batizou o então “Cão” de Biriba, pois era um jogo de cartas muito popular entre os atletas. O mascote “trabalhou” no Botafogo até meados da década de 50.

Com a popularidade de Biriba, a figura do cachorro foi adotada como mascote não oficial do Fogão. Uma das torcidas, mais especificamente a Fúria Jovem, inclusive, tem o “cusco” como símbolo e divide partes por “canis”. As torcidas dos adversários apelidaram, também, a torcida do alvinegro de “a cachorrada”.

O cãofrade botafoguense nasceu no dia 14 de setembro de 1945, em uma calçada de Copacabana. Aos 12 anos, já quase inteiramente cego e com problemas cardíacos, no dia 10 de agosto de 1958, morreu na residência de Macaé, seu dono, na zona sul do Rio de Janeiro e justamente onde nasceu, na Rua da Pompéia.

Em 2008, quis o destino que a tradição de ter um cachorro como mascote botafoguense fosse revivida quando o cachorro Perivaldo (nome em homenagem ao ex-jogador do clube nos anos 1970 e que nome) entrou junto com a equipe durante uma partida da Copa do Brasil contra o Atlético Mineiro, na qual se classificou para as semifinais. E ele deu sorte ao clube. O Beagle trazia nas suas costas uma marca de nascença em formato de estrela na cor branca, o que faz remeter ao símbolo máximo do clube, a Estrela Solitária. Ainda em 2008, o Botafogo lançou os cachorros Biriba & Biruta como mascotes oficiais.

Perivaldo, o novo talismã botafoguense ao lado de seu dono (Foto: Reprodução/ Globo Esporte)
Perivaldo, o novo talismã botafoguense ao lado de seu dono (Foto: Reprodução/ Globo Esporte)

 

Fontes: Reconto Animal, Terceiro Tempo e Nilo Dias Repórter 

1 Comentário em Biriba, o “cãofrade” e talismã botafoguense

  1. Que história, que zagueiro, que presidente e que cãofrade! Fantástico o post, CL! Sou gremista, mas essa é uma história daquelas que tem tudo a ver com o Botafogo, clube moralizador, com muita tradição, história e histórias de superstição. O futebol e os cãofrades são demais.

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