Brasil e Bolívia na Libertadores: os caminhos que levam à altitude

O HISTÓRICO DOS CONFRONTOS ENTRE BRASILERIOS E BOLIVIANOS

A altitude, literalmente o fantasma para nós. Créditos: reprodução/Globoesporte.com
Por Davi Ferreira, RJ

A Taça Libertadores de 2019 está rolando para valer. Já estamos na metade da fase de grupos. Para além das já conhecidas dificuldades encontradas nas “canchas” adversárias apertadas, dos temidos rivais argentinos e uruguaios, dos objetos arremessados pelos torcedores adversários durante as partidas, dos animais em campo e dos juízes que apenas trabalham na base do famoso “siga la pelota”, um dos maiores desafios desta competição para nós, brasileiros, é ter que viajar para locais distantes e atuar em lugares de grande dificuldade no ambiente. Quando falamos disso, já vem à cabeça a temida altitude de países como Equador, Peru e Bolívia.

Todo ano, há equipes bolivianas no caminho de uns dos nossos times, essas que têm como craques as grandes altitudes e o ar rarefeito. Como é prazeroso jogar nos 3.640 metros de La Paz, nos 2.500 de Cochabamba, nos 4.000 de Potosí, ou nos 3.700 de Oruro, não é mesmo? A verdade é que o maior desejo de todos é jogar em Santa Cruz de La Sierra, cidade com altitude de apenas 400 metros, mas dificilmente times de lá estão na competição.

Seguindo a tradição, dois dos nossos representantes brasileiros nesse ano caíram em grupos com esses vizinhos. Um deles é o Athletico-PR, que no dia 14 de março recebeu o Jorge Wilstermann, em Curitiba, pela segunda rodada do grupo G, e ganhou facilmente por 4 a 0. Antes do Furacão, no dia 5, o Flamengo já havia começado com o duro desafio de estrear no grupo D contra o San José, jogando em Oruro. Ciente das dificuldades, mesmo com elenco muito superior, o time fez uma preparação física especial e conseguiu a vitória por 1 a 0, com gol de Gabigol. Aproveitando esse contexto recorrente, resolvemos contar a história dos confrontos entre equipes brasileiras e bolivianas na Libertadores. Resgatamos estatísticas de todos os tempos e os principais casos que marcaram esses frequentes encontros.

Será que a altitude influencia?

De maneira geral e já contando com os jogos de Flamengo e Athletico-PR, aconteceram 116 jogos entre brasileiros e bolivianos na competição. São 72 vitórias nossas, 26 deles e 18 empates. Agora atenção quando separamos os jogos em relação ao local onde a bola foi jogada. Dos 58 jogos realizados em terras verde e amarelas, são massacrantes 52 vitórias nossas, quatro empates e apenas dois triunfos deles. Marcamos 188 gols e sofremos apenas 28. É quando o mando muda que a mágica acontece. Nos 58 jogos na Bolívia, são 20 vitórias nossas, 14 empates, e 24 vitórias dos adversários. Fizemos 86 gols e levamos 96. Sim, eles sabem muito bem usar seu fator casa.

O rei pioneiro na altitude

A história dos confrontos entre brasileiros e bolivianos começa na terceira edição da competição, lá em 1962. Quis o destino que o Santos de Pelé e companhia, que seria campeão sul-americano naquele ano e no seguinte, fizesse a primeira partida de Libertadores da sua história na altitude boliviana, contra o Deportivo Municipal, em La Paz. O confronto foi válido pelo grupo 1 e 38 mil pessoas assistiram ao “peixe” bater a equipe da casa por 4 a 3, com gols de Lima, Mengálvio, Pagão e Tite. Depois disso, o Santos seguiu sua caminhada rumo ao título, que incluiu o jogo do returno contra o mesmo Deportivo Municipal, uma goleada por 6 a 1 na Vila Belmiro.

Coutinho e Pelé em 1962, na Bolívia. Créditos: reprodução/site CONMEBOL

Números: O Santos, ao lado do São Paulo, é o time brasileiro que mais enfrentou rivais da Bolívia. No geral, são 16 jogos, com 11 vitórias, um empate e quatro derrotas. Contando apenas jogos como visitante, são só três vitórias em oito jogos. Todos os tropeços foram por lá, onde o Peixe não ganha desde 2007.

Cafezinho com Marcos

Era noite de 15 de fevereiro de 2000, e o Palmeiras ganhava tranquilamente o The Strongest por 4 a 0, em jogo da primeira rodada do grupo 7 daquela Libertadores, no antigo Parque Antártica. A partida estava tão tranquila que o goleiro Marcos resolveu pedir um cafezinho em pleno jogo e tomar no campo mesmo, o que rendeu uma das imagens mais inusitadas do nosso futebol. Na época, isso também deu bastante polêmica, inclusive entre jogadores do próprio Palmeiras. Marcão jurou que não foi provocação e era apenas para “esquentar” um pouquinho, e até pediu desculpas públicas ao time adversário.

Bom, ainda havia o jogo de volta do grupo, quase dois meses depois. De qualquer forma, os bolivianos certamente ficaram revoltados, não receberam nada bem aquela atitude, e entraram com um gás a mais para se vingar. Na altitude de La Paz, o The Strongest aplicou 4 a 2 no Verdão, e os jogadores comemoraram os gols simulando tomar café, em “homenagem” ao goleirão do alviverde.

Os bolivianos retribuíram a provocação. Créditos: reprodução/Twitter/Memórias do Futebol

Números: Contra bolivianos, o Palmeiras tem oito vitórias e quatro derrotas em 12 jogos. Como a maioria dos times que abordamos aqui, todos esses tropeços foram jogando fora de casa. Enquanto em casa, são seis vitórias em seis jogos, fora dos seus domínios são duas vitórias e as quarto derrotas.

Sucumbindo na altitude

Essa história vem mais pelo meme que foi gerado na época e por retratar bem a maior dificuldade que nossos clubes enfrentam ao jogar na Bolívia: respirar. Em 2015, o meia Anderson, revelado pelo Grêmio, chegava ao rival Internacional como um dos principais reforços para a temporada. A estreia do Colorado na competição era contra o The Strongest. Na marca dos 30 do primeiro tempo e já perdendo por 2 a 0, o badalado reforço precisou deixar o campo por falta de ar, após uma atuação sem brilho. A altitude de 3.640 metros em La Paz não perdoou o atleta, que também estava com uns quilos a mais na balança. O jogo foi 3 a 1 para os bolivianos e Anderson virou o símbolo daquela derrota. O Inter ainda conseguiu se recuperar no torneio, até cair na semifinal.

Anderson vivendo o pesadelo da altitude. Créditos: reprodução/Fox Sports

Números: O histórico geral do clube enfrentando times da Bolívia é de quatro vitórias, um empate e uma derrota em seis jogos. Jogando na altitude, apenas uma vitória.

Pequenos, mas bravos

Não só dos principais clubes brasileiros é feita a história do nosso país na Libertadores. Em vários anos, times de menor expressão do país viveram uma grande fase e conquistaram o direito de jogar a principal competição de futebol da América. E experimentaram a altitude. Começamos com o Criciúma de 1992, que ganhou a Copa do Brasil do ano anterior, quando caiu em um grupo com San José e Bolívar. Em terras bolivianas, o tricolor carvoeiro ganhou o primeiro e empatou com o segundo, além de derrotar ambos em casa. Com essa grande campanha, os catarinenses chegaram a passar em primeiro no seu grupo e foram até as quartas. Oito anos depois, também campeão da Copa do Brasil, o Juventude teve pela frente uma chave com o The Strongest. Ganhou de 4 a 0 em casa, mas jogando longe de seus domínios sofreu uma impiedosa goleada de 5 a 1. No fim, nem passou da fase de grupos.

Esquadrão do Criciúma em 1992. Créditos: reprodução/site Imortais do Futebol

Sensação do começo do século, o São Caetano enfrentou também o The Strongest no seu grupo em 2004 e fez bonito. Já tendo vencido em casa, foi até La Paz e aplicou 2 a 0 no rival, ignorando as dificuldades da altitude. Outro time que marcou presença nas alturas foi o Goiás de 2006. Contra o mesmo The Strongest, o esmeraldino até ganhou em casa, mas perdeu por 1 a 0 como visitante. E para fechar, chegamos ao Paraná Clube. Em 2007, enfrentou no seu grupo o Real Potosí. Ganhou em casa, mas foi outro que perdeu jogando na altitude.

Tragédia em Oruro

Gostaríamos de falar apenas de futebol por aqui, mas há acontecimentos que se destacam fora das quatro linhas. E este aconteceu justamente em um confronto entre Brasil e Bolívia. No jogo entre San José e Corinthians, válido pelo grupo 5 da Libertadores de 2013, um sinalizador foi disparado da torcida alvinegra e acabou atingindo e matando o torcedor boliviano Kevin Espada, de 14 anos. A polícia de lá chegou a prender por algum tempo corintianos suspeitos e o clube sofreu algumas punições. Aquela foi uma partida sem vencedores de forma alguma, nem no futebol, pois o placar foi de 1 a 1.

Homenagem da torcida corintiana. Créditos: reprodução/site Gazeta do Povo

Números: O Corinthians já enfrentou bolivianos seis vezes, estando invicto, com quatro vitórias e dois empates. Na altitude, foram uma vitória e dois empates.

Vasco no sufoco

No ano passado, o Vasco enfrentou pela primeira vez na Libertadores uma equipe boliviana. Era o gigante da colina visitando os 2500 metros de Cochabamba, para enfrentar o Jorge Wilstermann, pela terceira fase da competição, última antes dos grupos. Após fazer 4 a 0 em São Januário, a classificação parecia bem tranquila. Mas o torcedor vascaíno teve que segurar o coração e ver o adversário devolver o mesmo placar. A situação ficou tão difícil que o Jorge Wilstermann chegou a fazer um gol enquanto passava o replay de outro na televisão. Com a devolução do 4 a 0, a decisão foi para os pênaltis. Então brilhou a estrela do goleiro uruguaio Martín Silva, que pegou três cobranças e classificou o cruz-maltino para a fase de grupos.

Martín comemora seu momento de herói. Créditos: Carlos Gregório Jr./Site do Vasco

Um dos principais personagens desse jogo foi o zagueiro brasileiro Alex “Pirulito” Silva, velho conhecido de torcedores do São Paulo, Flamengo e Cruzeiro. Ele deu “aquela força” para o Vasco ao perder uma chance no final do jogo, que poderia ter sido o quinto e derradeiro gol, além da cobrança de pênalti final (pela qual ele se lamenta na foto acima).

Galo depenado

Enquanto o Vasco fugiu da vergonha da eliminação, o Atlético-MG fez feio e marcou história com isso. Na edição anterior, de 2017, após passar confortavelmente em primeiro no seu grupo, o clube mineiro tinha pela frente o mesmo Jorge Wilstermann, nas oitavas. A vantagem de decidir em casa parecia uma estratégia, e os bolivianos ganharam o primeiro jogo por 1 a 0, em Cochabamba. Só que na volta, nada deu certo para o Galo e o empate em 0 a 0 eliminou a equipe do torneio. Isso foi histórico porque pela primeira vez um clube brasileiro foi eliminado por um boliviano numa fase de mata-mata da Libertadores. Confrontos assim já tinham acontecido em oito oportunidades. Em todas os brasileiros haviam avançado. Fica o carimbo na história do Galo.

Noite de história e lamentações. Créditos: João Godinho/ Jornal O Tempo

Números: O clube já fez oito jogos contra bolivianos, sendo cinco vitórias, um empate e duas derrotas. No país vizinho, foram duas vitórias e duas derrotas.

Papelões

Como já dissemos no começo, em 58 vezes jogando no Brasil pela Libertadores, em apenas duas oportunidades equipes bolivianas saíram com a vitória. Quem então conseguiu a proeza de ser derrotado pelos nossos vizinhos? A primeira vez foi em 2002, com o Athletico-PR. Era a estreia na fase de grupos contra o Bolívar, na Arena da Baixada. Mesmo no conhecido caldeirão rubro-negro, foi derrotado por 2 a 1 e ofereceu essa vitória histórica aos adversários.

E isso voltou a se repetir 14 anos depois, dessa vez com o tricampeão São Paulo. Na sua estreia na Libertadores de 2016, o tricolor paulista recebeu o The Strongest no Pacaembu. E o que deveria ter sido uma vitória de rotina, virou um capítulo memorável. Os bolivianos brincaram com a história, venceram por 1 a 0 e comemoraram demais.

The Strongest faz história contra o São Paulo. Créditos: Marcos Ríbolli/Globoesporte.com

Números do tricolor paulista: Em 16 jogos, foram sete vitórias, seis empates e três derrotas. Como visitante, foram duas vitórias, quatro empates e duas derrotas.

Números do Furacão: Seu histórico é de cinco jogos, duas vitórias, um empate e duas derrotas. Nunca saiu vitorioso na casa dos adversários. Como já dissemos, terá nova oportunidade por lá esse ano, contra o Jorge Wilstermann.

Outras figuras

Não citamos o Grêmio até aqui por não ter capítulos marcantes para contar, mas o Tricolor Gaúcho é o time brasileiro mais consistente historicamente jogando contra adversários bolivianos. Além das seis vitórias em seis jogos em Porto Alegre, os gaúchos tem bons números jogando fora. São quatro vitórias e duas derrotas, com dez gols feitos e oito sofridos. Saldo positivo para o Imortal! Não tendo sido citado aqui também, o Cruzeiro tem seu histórico. Foram oito jogos, com cinco vitórias, dois empates e uma derrota. Na Bolívia, apenas uma vitória e todos os tropeços.

E para fechar, temos o Flamengo, que não tem grande retrospecto jogando contra os bolivianos, principalmente nos domínios adversários. Em casa, são cinco vitórias e um empate em seis confrontos. Já como visitante o clube tem apenas duas vitórias, além de dois empates e três derrotas. Antes desta última vitória contra o San José, a única tinha sido na primeira vez, lá em 1981, quando o time de Zico venceu o Jorge Wilstermann por 2 a 1, em Cochabamba, na sua caminhada para o título daquele ano. Desde então, o Rubro-Negro devia a sua torcida um novo triunfo na Bolívia.

Jogada de Gabigol e Bruno Henrique deu vitória ao Fla na Bolívia, mais de 37 anos depois. Créditos: Alexandre Vidal/Flamengo

Agora vamos esperar pelo restante dos confrontos Brasil x Bolívia que acontecerão este ano, e serão no mínimo mais dois. O Flamengo volta a enfrentar o San José neste dia 11 de abril, no Maracanã. Já o Athletico-PR voltará a enfrentar o Jorge Wilstermann no dia 24 de abril, quando faz sua visita a Cochabamba.

Olho na Libertadores!

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