Brazucas Hermanos: João Cardoso, El Campeón del Mundo

Gaúcho de Uruguaiana foi campeão mundial pelo Racing em 1967

Os anos passam, mas a história fica. Cardoso participou do primeiro título mundial da história do futebol argentino (Foto: Arquivo Pessoal João Cardoso)
Por Dudu Nobre, PR

Todo jogador almeja ser reconhecido por apresentar um bom futebol. Imagine então fazer parte da maior glória de um clube? Um brasileiro conseguiu este feito no país vizinho. Trata-se do gaúcho João Cardoso, guri que saiu de Uruguaiana para conquistar o mundo com a camisa do Racing em 1967.

O atacante começou a jogar em 1959 no Esporte Clube Uruguaiana, mas ficou pouco tempo no time da cidade, já que cerca de três meses após a estreia se destacou em um amistoso contra o Grêmio e, por consequência, foi contratado pelo tricolor de Porto Alegre. A passagem pelo Olímpico foi frustrante para o atleta. Nos três anos em que vestiu a camisa gremista, João sofreu com a concorrência de Gessy, Juarez e, posteriormente, Paulo Lumumba, o que fez a diretoria gaúcha trocá-lo pelo ponta direita Ribeiro. Próxima parada: El Coloso del Parque, Rosário.

Mesmo tendo se consagrado em Alvellaneda, Cardoso é torcedor assumido do Newell’s Old Boys-ARG. Ele explica a paixão pelos Leprosos em uma entrevista ao saudoso site Impedimento, em 2008: “O Newell’s acreditou em mim, que era desconhecido na Argentina. Eu tinha sido trocado, como se troca um cacho de banana.”

No rubro-negro jogou por quatro temporadas, entre 1962 e 1966. O clube havia conquistado o acesso à Primeira Divisão, mas um caso de “mala branca” foi descoberto e o castigo foi disputar a Série B por mais um ano, subindo apenas em 1963. Mesmo fazendo boas atuações, o atacante não conquistou títulos expressivos por lá.

Cardoso passou por Newell's e pelo rival Independiente antes de chegar ao Racing (Foto: Reprodução / Futebol Portenho)
Cardoso passou por Newell’s e pelo rival Independiente antes de chegar ao Racing (Foto: Reprodução / Futebol Portenho)

Em março de 1966 Cardoso desembarcou em Alvellaneda para jogar no Independiente-ARG, clube que ostentava duas conquistas seguidas da Libertadores nos anos anteriores. A esperança de uma passagem marcante veio logo na estreia, com um gol e uma assistência na vitória sobre o Boca Juniors em La Bombonera. Mas no quarto jogo, João passou pelo que se tornou um momento delicado na carreira. Ao machucar o tornozelo, recebeu, no intervalo, uma injeção de xilocaína do médico do clube para aguentar até o fim da partida (em uma época onde não existiam substituições). A prática ilegal fez efeito na semana seguinte: o atleta ficou fora daquela temporada.

Em 1967, Cardoso não conseguia engatar uma sequência de jogos sem lesão. A situação era crítica, o que o levou a visitar a Basílica de Nossa Senhora de Luján (localizada a 70 km da capital Buenos Aires). Naquela madrugada a diretoria do Racing foi à residência do brasileiro e fez a proposta para que ele jogasse a Libertadores daquele ano. O jogador atravessava a rua para fazer história.

Naquela competição continental La Academia fez uma ótima primeira fase, com oito vitórias, um empate e só uma derrota. Na segunda fase, fez 16 pontos e eliminou Universitario-PER, Colo Colo-CHI e River Plate para chegar até a decisão contra o Nacional-URU. Após passarem em branco por 180 minutos, as duas equipes fizeram uma terceira partida em Santiago. João marcou o primeiro e Raffo o segundo, os argentinos venceram por 2 a 1 e levantaram o caneco inédito.

Pela frente, o Mundial de Clubes (chamado de Copa Intercontinental) e um adversário que também sentia pela primeira vez o gosto de uma taça continental: o Celtic-ESC, campeão europeu após derrotar a Inter de Milão-ITA. No primeiro jogo, em Glasgow, os escoceses venceram por 1 a 0. Na volta, em Alvellaneda, La Academia se recuperou e venceu por 2 a 1.

Mais uma vez um terceiro jogo, cujo palco era simplesmente o estádio Centenário em Montevidéu. As duas derrotas do rival Independiente-ARG nos anos anteriores pesavam. A camisa listrada em celeste e branco, calções e meias pretas… Como diria o outro, “O Racing era a Argentina na decisão”.

Eram 11’ do segundo tempo, nervos a flor da pele. Cárdenas pega a bola, vê a brecha, arrisca e petisca. Não tinha jeito: Os Hermanos chegavam pela primeira vez ao topo, o mundo era azul e branco com um tempero brasileiro.

O time que fez história no Uruguai: Cejas, Basile, Perfumo, Martín, Chabay e Rulli; Cardoso, Maschio, Cárdenas, Rodríguez e Raffo (Foto: Reprodução Futebol Portenho)
O time que fez história no Uruguai: Cejas, Basile, Perfumo, Martín, Chabay e Rulli; Cardoso, Maschio, Cárdenas, Rodríguez e Raffo (Foto: Reprodução / Futebol Portenho)

Cardoso ficou em La Academia até 1969, quando voltou ao Brasil para jogar pelo Náutico. Pendurou as chuteiras pouco tempo depois e retornou ao Rio Grande do Sul para trabalhar no Departamento Estadual de Portos, Rios e Canais (Deprec) de Porto Alegre, cidade onde se aposentou e vive até hoje. Mesmo que não seja um nome lembrado constantemente por nós brasileiros, a estrela prateada acima do escudo do Racing não deixa dúvidas de que João Cardoso deixou sua marca no futebol argentino.

Fontes: ConmebolEsporte Fabico, Folha de S. PauloFutebol Portenho, Impedimento e Terra

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