Bruce Grobbelaar: O goleiro mais autêntico do futebol inglês

ÍDOLO IRREVERENTE DOS REDS

Bruce Grobbelaar, o eterno paredão do Liverpool. (Foto: Reprodução)
Por: José Victor – RJ

Quando mencionamos qualquer jogador de um gigante europeu, quase todos os apaixonados por futebol sabem na ponta da língua. Se comentarem sobre os melhores goleiros da atualidade, certamente ouviremos os nomes de Courtois e De Gea como os principais destaques embaixo das traves. Mas o que dizer da carreira de ambos fora de campo? Jogadores disciplinados, que apereceram jovens, disputaram Copa do Mundo… Pois é, são poucas as características presentes que se assemelham ao nosso personagem de hoje: Bruce Grobbelaar, arqueiro que escreveu o nome na história do Liverpool.

Nem herói e nem vilão, uns conhecem como um gênio embaixo das traves, outros apenas como um fanfarrão. Mas o fato é que rótulos não combinam com a excentricidade do ídolo dos Reds.

Viver a vida intensamente é o que define a carreira do irreverente atleta que marcou época em Anfield Road. Grobbelaar nasceu em Durban na África do Sul, numa região colonizada por holandeses. Escolheu defender a seleção do Zimbábue devido às sanções em que a África do Sul sofria tanto da FIFA quanto da CAF, por conta do Apartheid, que impossibilitavam o país de disputar qualquer campeonato.

Outro fato peculiar que cerca o goleiro é a participação na guerra que culminou na independência do Zimbábue. Enquanto praticava o futebol, Grobbelaar serviu à Rodnésia, e dentro do próprio exército chegou a praticar outros esportes com relativo sucesso. Porém, nem o conflito foi capaz de fazer Grobbelaar desistir de estar dentro das quatro linhas. Em sua autobiografia, ele retrata os aprendizados do combate e seu amor pelo futebol: “Se a guerra te ensina alguma coisa, é uma apreciação de estar vivo e eu nunca vou pedir desculpas por rir da vida e desfrutar do meu futebol. “

Sua trajetória é dar inveja a qualquer jogador de modo carreira do FIFA. O goleiro bigodudo saiu do Durban City-AFR, e rumou até o Vancouver Whitecaps-CAN, clube filiado a extinta North American Soccer League (NASL) e que hoje disputa a MLS. Ficou poucos meses até chegar ao Crewe Alexandra-ING, o que acabou se tornando a maior oportunidade da vida após um empréstimo ao West Bromwich-ING. Grobbelaar conseguiu “cair pra cima”, fez uma temporada muito boa no pequeno clube inglês, e na sua última partida pelo time, pegou tudo o que podia e ainda fez um gol de pênalti.

Com os olheiros do Liverpool observando o duelo no estádio, o arqueiro acabou sendo contratado pelo clube de Anfield por “míseras” £250.000. Em 1 ano, Grobbelaar deixou o futebol da África do Sul, passou pelo Canadá, foi parar nas divisões inferiores da Inglaterra, e enfim, mudou para um dos maiores clubes do mundo, começando a escrever sua história como um dos maiores goleiros que já passaram pelo Liverpool.

Brucie, como era carinhosamente chamado pelos torcedores, chegou inicialmente para ser reserva da lenda Ray Clamence. Por sorte, Clamence acabou deixando a equipe em 1981, rumo ao Tottenham. Com isso, Grobbelaar assumiu a titularidade dos Reds na ocasião, sendo inclusive o goleiro titular no Mundial de 1981, quando o clube inglês perdeu o título para o Flamengo.

O começo de Grobbelaar no Liverpool foi difícil, em seus primeiros 6 meses, fez partidas horrorosas e quase acabou dispensado. Como era espalhafatoso e até então imaturo, acabava por vezes se complicando em lances simples. Quando o técnico Paisley lhe deu um puxão de orelha, e ameaçou devolvê-lo para o Crewe Alexandra-ING, Gobbelaar amadureceu e conquistou o Campeonato Inglês seis vezes, além de três Copas da Inglaterra, três Copas da Liga Inglesa e uma Liga dos Campeões, sendo o último título citado, o mais marcante na carreira.

Bruce Grobbelaar (ao centro) comemora o título da FA CUP em 1992. (Foto: Andy Hooper/DailyMail)

No dia 30 de maio de 1984, Grobbelaar chegaria ao ápice. Na final da Copa dos Campeões da Europa, atual Liga dos Campeões, o arqueiro brilhou contra a Roma. A equipe italiana que tinha até então grandes jogadores da Itália campeã mundial de 1982 – como Conti e Graziani – além do craque brasileiro e um dos maiores ídolos da história romanista: Paulo Roberto Falcão.

Após o empate em 1×1 no tempo normal, o goleiro brilhou na disputa de pênaltis no melhor estilo Grobbelaar. Desconcentrou os batedores giallorossi fazendo o movimento que ficou conhecido como “pernas de espaguete”. Na irreverência, fez o Liverpool se impor como gigante da Europa para o conquistar o seu quarto título de Liga dos Campeões em pleno estádio Olímpico de Roma.

A inspiração para a história se repetir

Anos depois, na célebre final de Istambul, o Liverpool encararia outro clube italiano em busca de sua quinta Taça. No tempo normal, o poderoso Milan de Kaká abriu 3×0 logo no primeiro tempo. O que aparentava ser uma goleada tornou-se uma das histórias mais bonitas já escritas na Liga dos Campeões.

Os Reds buscaram o empate no segundo tempo e conseguiram levar a decisão para os pênaltis. Se Grobbelaar não estava presente em corpo na decisão, seu espírito tomou conta de Dudek, repetindo os mesmos movimentos do goleiro para desconcentrar os batedores. O resultado também não poderia ser diferente: Liverpool campeão da Liga dos Campeões mais uma vez.

A decadência

Se a década de 80 foi gloriosa para Brucie, não podemos dizer o mesmo da década seguinte. Além do rendimento em campo cair consideravelmente, o goleiro foi protagonista de um dos maiores escândalos de manipulação de resultados da história do futebol inglês.

O arqueiro foi acusado de combinar resultados na partida entre Liverpool x Newcastle, em 1993 pela Premier League, no qual o time da terra dos Beatles saiu derrotado por 3×0. O tablóide The Sun testemunhou um encontro do goleiro com apostadores num quarto de hotel, daí em diante, a carreira de Grobbelaar foi só ladeira abaixo, se dividindo entre a tentativa de se inocentar e o desempenho abaixo da média em times pequenos europeus, sem abrir mão da extravagância.

Nos década de 2000, Bruce acabou inocentado sobre as acusações de manipulação de resultados, e com isso, decidiu processar o The Sun alegando difamação. Apesar de obter ganho de causa em primeira instância, o The Sun recorreu, deixando o ídolo dos Reds ainda mais arruinado financeiramente.

O jornal The Telegraph divulgou uma matéria em 2002 com os detalhes processuais sobre a empreitada enfrentada por Grobbelaar para tentar limpar o seu nome. Após ganhar 85 mil libras do tablóide sensacionalista, sua indenização foi reduzida as míseras 1 libra e ao promulgar a sentença, o juiz da corte britânica alegou:

“Seria uma afronta à justiça se um tribunal de justiça concedesse danos substanciais a um homem que tivesse agido em flagrante violação de suas obrigações morais e legais.”

O tribunal deu ganho de causa para o tablóide e ainda condenou o goleiro a pagar uma indenização de 500 mil libras ao tablóide Inglês pelos custos legais, e por conseqüência, o goleiro declarou falência.

Em 2007, Grobbelaar – após bons anos perambulando pelos pequenos clubes ingleses – decretou sua carreira encerrada e poucos anos depois retornou para a África do Sul. De volta a sua terra natal, tentou se tornar treinador de pequenos clubes locais, porém sem obter resultados expressivos.

Grobbelaar arrancou risadas dos torcedores repetindo o mesmo gesto da final da Champions de 1984, ao se aventurar nas divisões inferiores inglesas em 2007, quando atuou pelo Glasshoughton Welfare  (Foto: FourFourTwo)

Em entrevista a revista FourFourTwo, o goleiro deu uma declaração polêmica sobre os seus problemas com a justiça. Ainda assim, como todo jogador folclórico, conseguiu contemplar toda a sua história na Inglaterra, desde quando era apenas um menino imigrante Sul Africano que se lançou ao mundo para tentar a sorte no futebol:“Eu cheguei à Inglaterra com £ 10 no meu bolso e, depois da decisão da Justiça, fiquei com £ 1. Mas que vida eu tive com essas £ 9!”

Fontes: lfchistory.nettrivela.uol.com.brfourfourtwo.comtelegraph.co.uk

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