Calendário do futebol: dificuldade a ser gerida

As recorrentes reclamações sobre os calendários são justas?

Guardiola (Fonte: Telegraph)
Guardiola (Fonte: Telegraph)
Por: Lucas Poeiras, MG

O futebol moderno tem uma discussão recorrente em suas principais ligas pelo mundo: a gestão do calendário. Não são novidades as reclamações sobre a quantidade de jogos em determinadas épocas do ano. No Brasil há muito tempo se questiona o calendário congestionado e como são escolhidas as datas para as partidas. Recentemente o debate pegou fogo mais uma vez com as declarações de Pep Guardiola sobre a quantidade de exibições agendadas em curto espaço de tempo, precisamente entre o Natal e a primeira semana do Ano Novo: o City disputou quatro partidas oficiais em nove dias, pelo Campeonato Inglês. Em 2017 vários técnicos comentaram que o calendário lotado dificulta muito que os times treinem e recuperem seus jogadores com qualidade. Há um problema de excesso de jogos ou um equívoco nas datas e calendários?

Os clubes brasileiros e seus compromissos

Os clubes brasileiros da série A e B jogam em média 50 jogos se contarmos as participações em seus respectivos estaduais, na Copa do Brasil e no Brasileirão. Alguns farão ainda mais jogos se estiverem participando das competições continentais. Ao avançarem de fase este número só irá crescer.

O Grêmio por exemplo em 2017 fez quase 80 jogos pois avançou até as finais do Gaúcho e da Libertadores. Ainda fez boa campanha até as semi finais da Copa do Brasil e obviamente disputou as 38 partidas da serie A. O Vasco em contraposição fez menos jogos, aproximadamente 60 pois participou apenas do Carioca, Copa do Brasil e da Série A.

Campeões mesmo com muitos compromissos (foto: Globo Esporte/Reprodução)
Campeões mesmo com muitos compromissos (foto: Globo Esporte/Reprodução)

Alguns anos atrás os jogadores questionaram a gestão do calendário através do extinto Bom Senso FC. Em seu manifesto pediam uma racionalização dos jogos e a adição de uma pré-temporada maior para recuperação física e treinos. Não pediam para trabalhar menos, e sim para trabalhar de forma mais plausível e racional. Apesar dos questionamentos, a CBF não recuou e manteve praticamente a mesma estratégia de organização até hoje para as duas séries principais. A única alteração foi o descanso para os clubes em datas com disputas da Seleção Brasileira. Apenas a Conmebol recentemente alterou a disposição da calendarização das competições internacionais de clubes da América do Sul.

O fato é que principalmente os técnicos pedem que o calendário seja melhor distribuído através das semanas do ano. A justificativa é que para além de sessões de treinos mais frequentes, haja uma melhor recuperação fisiológica e muscular dos atletas. O esforço físico necessário nos jogos atuais é muito grande para que os clubes disputem com frequência duas partidas por semana.

Os esquadrões brasileiros muitas vezes têm pouco tempo para treinar e imprimir bons esquemas táticos. Muitas vezes um clube vencedor é aquele que gere bem seu plantel e faz um bom rodízio, a fim de evitar lesões e manter os jogadores nas condições físicas ideais para a competição. Mas o congestionamento não permite o crescimento e treino tático que os técnicos acham necessários.

Enquanto isso, as divisões inferiores C e D terminam seus calendários mais cedo em outubro e novembro e muitos dos clubes que disputam os estaduais e a Copa do Brasil não chegam até julho com jogos. Muitas agremiações menores em todo o país não disputam jogos oficiais no segundo semestre e perdem receita e atletas.

Nas melhores ligas da Europa o caso é muito diferente?

Os principais clubes europeus disputam também várias competições ao longo do ano. Os ingleses principalmente participam de várias copas que, mesmo tendo apenas jogos únicos, amontoam as semanas dos clubes. Um clube inglês na Premier League, em média, joga 50 a 60 partidas se contarmos as 38 disputas pelo título da divisão, mais as três copas que disputam. Os clubes de ponta que vão para as competições continentais ainda ganham no mínimo mais seis jogos na temporada que já tem outros vários compromissos. Dependendo do quanto avançarem nas copas, podem chegar até 70 jogos em uma temporada.

Os clubes espanhóis e alemães disputam menos partidas no ano. Ambos os países têm um calendário doméstico que conta apenas com a disputa da divisão de pontos corridos e da copa do país. O Barcelona, em sua histórica temporada 2014-2015, onde venceu os três títulos que disputou, jogou 60 jogos ao passar por todas as fases das competições da Liga Liga, Copa del Rey e da UEFA  Champions League. Um número ainda inferior comparado com os brasileiros. Se compararmos, o Barcelona obrigatoriamente teve apenas oito semanas com duas partidas, enquanto o Grêmio em 2017 teve pelo menos 20 semanas com duas partidas. Obviamente há muita diferença nesta preparação, e a quantidade um pouco menor de partidas permite um rendimento melhor devido às possibilidades de recuperação serem maiores.

O "triplete" contou com 60 exibições em uma temporada (foto: BBC UK/Reprodução)
O “triplete” contou com 60 exibições em uma temporada (foto: BBC UK/Reprodução)

Quais as possibilidades: reduzir o número de jogos ou mudar a gestão?

Os principais clubes do Brasil e da América do Sul e também da Europa precisam mudar a gestão ou se adaptar melhor aos calendários? O que é mais viável: priorizar as grande competições, ou ter um plantel inchado para que haja cobertura para as eventuais lesões e para o cansaço dos atletas? Enquanto não há consenso sobre o calendário e a melhor solução para o formato das competições atuais, os clubes nacionais se desdobram para manter alto rendimento.

Não é incomum que os plantéis brasileiros passem por crises de lesões e fiquem com vários jogadores parados em seu departamento médico. Não podemos simplesmente acreditar que o calendário seja um apoio às temporadas de insucesso de várias agremiações, mas precisamos entender que há bastante influência da organização. No segundo semestre do ano, os nossos clubes jogam praticamente todas as semanas duas vezes. E se avançarem em várias competições provavelmente não poderão disputá-las com a mesma qualidade sempre.

O que você, confrade torcedor, acha que precisa ser feito sobre o nosso calendário?

Fontes: Blog do Juca, BBC UK, Futebol em números, Globo Esporte,

1 Comentário em Calendário do futebol: dificuldade a ser gerida

  1. O calendário é excessivo no Brasil por causa dos estaduais. O mais óbvio seria transformar os Estaduais em série E/F do Brasileiro, onde só participa quem não está nas séries A,B,C ou D.
    Por outro lado, acho ridículo os times que aderiram a Primeira Liga reclamarem. O calendário tá curto e os caras decidiram entrar em um campeonato de 3 a 6 jogos a mais?

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