Careca: o meteoro que cruzou o Passo d’Areia

Em 1999, o atacante disputou o gauchão pelo São José

O São José foi o penúltimo clube da carreira do centroavante (Foto: Edison Vara / Revista Placar)
Por Dudu Nobre, PR

Não é fácil tomar a decisão de encerrar um ciclo. Seja terminar um relacionamento, mudar de cidade ou trocar de emprego. No mundo do futebol, a angústia aperta os corações dos jogadores que estão à beira da aposentadoria. No último dia 2, Frank Lampard (ex jogador do Chelsea e da Seleção Inglesa) decidiu pendurar as chuteiras aos 38 anos. Enquanto isso, atletas como Adriano Gabiru e Acosta, com 40 anos, ainda se aventuram pela Série A3 do Paulista, por não conseguirem largar a gorduchinha.

Essa indecisão também passou pela cabeça de Antônio de Oliveira Filho, idolatrado nos campos como Careca (apelido que ganhou por gostar do palhaço Carequinha). Dúvida compreensível para quem deitou e rolou com a bola nos pés. Natural de Araraquara, começou no Guarani e, logo aos 18 anos, conquistou um grande feito ao ser campeão nacional com o Bugre campineiro em 1978. De lá pra cá, ganhou mais um brasileiro com o São Paulo em 1986;  um Scudetto, uma Copa da Itália e uma Copa da Uefa com o Napoli entre 1988 e 1990. Além disso, disputou dois mundiais com a Seleção Brasileira (1986 e 1990).

Careca já havia ameaçado a despedida. Em fevereiro de 1999 – dois anos após disputar a “última” partida oficial pelo Santos – o centroavante fez um jogo festivo no estádio Sao Paolo (casa napolitana), com a presença de ídolos do esporte como Maradona e Baresi. Mas, assim como o personagem das telas Rocky Balboa, não suportou as lembranças que estavam presas ao “sótão” (metáfora usada pelo pugilista para o coração) e acertou com o São José-RS, clube da zona norte de Porto Alegre.

Um ótimo reforço, mas que carrega uma polêmica quanto à negociação. Na época, o Zequinha tinha como vice-presidente Francisco Noveletto, dono de uma famosa loja de produtos eletrônicos e que cinco anos mais tarde assumiria a Federação Gaúcha de Futebol. Ele acertou a compra de Careca, mas quem pagaria os salários do atleta era a empresa argentina Totobola, que realizava sorteios em Porto Alegre. Em 2004 a companhia foi condenada por fraude e lavagem de dinheiro.

Bastidores à parte, era um jogador consagrado que pisava no Passo d’Areia no dia 6 de maio de 1999. Era a estreia do time na segunda fase, também chamada de repescagem, contra a equipe do Lajeadense. Mesmo não fazendo gols, Careca agradou ao público e a crítica. Segundo o jornal Correio do Povo, o atacante “manteve o futebol que o consagrou internacionalmente e protagonizou alguns lances de elevada qualidade”. Além disso, o São José-RS venceu por 2 a 0.

Tudo caminhava bem até a partida seguinte, contra o Brasil de Farroupilha. O Zequinha conseguiu o empate por 1 a 1, mas Careca teve uma contratura muscular na coxa e foi substituído. Resultado: o time ficou sem sua principal estrela por toda a segunda fase. Mas os deuses do futebol queriam vê-lo em campo mais uma vez. O São José-RS seguiu um caminho de triunfos: não perdeu e obteve a melhor campanha da repescagem.

Careca se recuperou a tempo de jogar contra o Inter, no Beira Rio, pelas quartas de final. A situação era mais complicada, pois o Colorado havia vencido o jogo de ida por 1 a 0. Nos números, outra decepção e nova derrota, desta vez por 2 a 0. Mas o amante do futebol pouco se importou com aquele resultado.

A preocupação maior era ver o carinho revelador entre Careca e a redonda. Um gênio dos gramados que dava seus últimos suspiros no futebol em terras rio-grandenses, afinal foi a penúltima partida oficial que  disputou – a última em 2004 pelo Campinas na quinta divisão do campeonato paulista.

Quem não viu, assim como este que vos escreve, perdeu. Quem teve o privilégio de assistir se encantou com o meteoro que cruzou o Passo d’Areia.

Fontes: Folha de S.Paulo, Jornal Correio do Povo, Revista Placar, Sumulas-Tchê

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