Ceará Sporting Club de 2009

Da terra arrasada ao acesso a Série A do Brasileiro

Comemoração do gol do acesso (Foto: Kiko Silva/Agência Diário)

O ano era 2009. Fazia 16 temporadas seguidas que o Ceará estava na Série B do Campeonato Brasileiro. Oitenta e quatro equipes já haviam passado por essa competição neste período, e somente o Vovô continuava nela desde então. Quase sempre fazendo campanhas de meio de tabela ou lutando para não cair, salvo raras exceções. No ano em questão, o time parecia fadado a repetir a sina dos anos anteriores – fazer campanha boa com título ou razoável no estadual para depois penar na segunda divisão. A temporada se iniciou com o time fazendo diversas contratações, mas em todo o Campeonato Estadual a equipe não engrenou totalmente, foi eliminado da Copa do Brasil pelo Central-PE dentro de casa e chegou sem muitas esperanças de um futuro melhor na Série B.

O cenário parecia de terra arrasada, visto que os gastos para a montagem do time tinham sido relativamente altos para os padrões alvinegros e não havia mais como fazer contratações que não fossem certeiras e baratas. Além do que, a desorganização da diretoria foi palavra chave no primeiro momento do ano, demitindo o técnico Zé Teodoro e um mês depois o reconduzindo de volta ao cargo. Na primeira parte do ano a equipe perdeu o Campeonato Cearense para o maior rival, o Fortaleza, na final e iniciou de forma terrível a Série B, chegando a ficar na lanterna. Tudo ia se confirmando para o resto da temporada, deixando torcida e time totalmente desacreditados em relação a alguma melhora. Mas como num roteiro de filme épico ou de saga de Football Manager, após a contratação do treinador Paulo César Gusmão a equipe começou a ganhar a partir da 7ª rodada do campeonato para depois não parar mais de somar pontos. A chegada de Gusmão foi a solução encontrada para a saída do técnico Zé Teodoro, que assinou pelo Juventude no início da Série B.

Em um processo de união muito forte dentro do elenco, característica mais marcante daquela equipe, e com a torcida que abraçou o time dentro de casa nos piores e melhores momentos, tendo a segunda maior média de público daquele ano na Série B, além de trabalho árduo, disciplina tática e reconhecimento das próprias limitações na proposta de jogo. Era um time de jogadores esforçados, os resultados começaram a acontecer. O Ceará passou a começar a ganhar dentro e fora de casa jogando com 3 volantes, 1 meia e 2 atacantes. Éramos uma equipe reativa, de contra ataques venenosos e muita marcação. Para encaixar perfeitamente nessa ideia de jogo, o Vovô contratou um velho ídolo de sua torcida e também torcedor de arquibancada do time: Mota. O atacante que veio para receber um salário condizente com a situação financeira da equipe no período. Ele recusou propostas de grandes times do Brasil no período, como o Santos, para voltar ao Ceará que é seu time de coração depois de 5 anos jogando na Coréia do Sul. Uma curiosidade: o salário do Mota foi pago integralmente pela torcida, numa ação de marketing do clube, onde os torcedores fizeram uma vaquinha para manter o ídolo no time.

Foram muitos jogos marcantes nesta campanha. Foi contra tudo e contra todos os prognósticos que o Ceará conseguiu aquele acesso: pois houve de roubo descarado de juiz contra o time no gol de mão validado do Paraná dentro do Castelão. As partidas épicas como as vitórias contra o Vasco no Rio de Janeiro por 2 a 0, fora de casa contra o Brasiliense depois de 600 dias sem ganhar um mísero ponto longe do Castelão na Série B, o jogo das quedas de energia no estádio que durou mais de 3 horas contra o Guarani. A partida em casa contra o Brasiliense quando vencemos nos acréscimos, gol do ídolo, Sérgio Alves, e o do acesso contra a Ponte Preta, dentre outros. Foi uma Série B pra aguentar de coração quase explodindo, com o gol da classificação saindo aos 31 minutos fora de casa, levando a torcida a uma sensação que ela não lembrava mais como era estar de volta a Série A.

Dos jogadores podemos destacar quase todos do elenco, mas não há como não exaltar os veteranos, Geraldo, maior destaque individual do time, e Sérgio Alves, encerrou a carreira nesta campanha, pelo futebol jogado e a experiência/tranquilidade que passaram ao grupo, além dos jogos que decidiram. É necessário falar também de Mota e sua paixão contagiante dentro de campo, um torcedor bom de bola que fazia a diferença nos jogos. Ele chegou no meio da campanha, mas foi fundamental. Misael, o rei do segundo tempo e seus dribles para incendiar a torcida e prender o jogo quando estávamos ganhando. Os laterais, Boiadeiro na direita e Fábio Vidal na esquerda, sendo grandes assistentes dos atacantes. O setor de defesa e sua segurança através de Erivélton, Fabrício e a eterna “trinca de ferro”: Michel, João Marcos e Heleno.

O time quase todo, apesar de suas limitações técnicas, correspondeu muito bem a proposta de jogo implementada por PC Gusmão. *Menção honrosa: Jorge Henrique e Arlindo Maracanã (os “coringas” do time, jogaram de lateral e meio campo várias vezes), Anderson (zagueiro dos bons), Careca (volante que marcava até a mãe), Wellington Amorim e Preto (atacantes que ajudaram e muito o time, apesar de serem fracos tecnicamente).

Com o apito do árbitro ao final do jogo contra a Ponte Preta em Campinas, o que se viu foi os torcedores ensandecidos nas arquibancadas do Moisés Lucarelli depois de 16 anos na mesma divisão e o fim daquela sina. Houve gente em Fortaleza chorando e abraçando a TV quando apareciam os seus heróis nela, mas a festa mesmo estava guardada para a chegada do time no Ceará. O aeroporto foi tomado e mais de 100 mil pessoas se reuniram na frente da sede do clube para comemorar aquela tão sonhada e inusitada promoção. Terminamos em 3º lugar na tabela de classificação, mas isso não importou em nada para a torcida, pois o maior objetivo estava alcançado e aquela campanha já estava marcada na história do time.

O Ceará foi o time da grande campanha, ganhando aqui ou lá fora, com os seus craques em campo a brilhar e sendo o Ceará que tem em toda a sua glória a fama e o orgulho de lutar. Houve com toda certeza momentos talvez de maior expressão do clube no cenário nacional, mas para a torcida essa foi uma das ou a mais inesquecível trajetória da equipe numa competição.

 

Elenco do Acesso:

Goleiros: Adilson
Marcelo Bonan
Rainier
Lopes

Zagueiros e laterais: Fabrício (Z)
Erivelton (Z)
Anderson (Z)
Wescley (Z)
Elson (Z)
Fábio Vidal (LE)
Thyago Fernandes (LE)
Ernandes (LE)
Arlindo Maracanã (LD)
Boiadeiro (LD)
Andrezinho (LD)

Meio-campistas: Esley (M)
Geraldo (M)
Reinaldo (M)
Luizinho (M)
Alex Gaibu (M)
Jorge Henrique (M)
Rone (M)
Michel (V)
João Marcos (V)
Heleno (V)
Careca (V)
Jardel (V)

Atacantes: Wellington Amorim
Sérgio Alves
Misael
Marcelo Brás
Preto
Rômulo
Mota

Técnico : Paulo César Lopes de Gusmão (PC Gusmão)

Segue aí os vídeos que resumem toda essa saga:

 

 

Texto: Victor Portto

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