CL Entrevista: Amanda Moura

A ex-atleta e gestora de futebol Amanda Moura nos recebeu em BH para um papo muito franco sobre o futebol feminino

Amanda fez história pelos Purple Knights (foto: Site Oficila da U. Bridgeport)
Por Lucas Poeiras – MG

O futebol feminino brasileiro, apesar de tudo, atrai mais investimento e interesse agora do que nos últimos anos. Obviamente ainda existem grandes barreiras tanto sociais quanto financeiras para o crescimento da modalidade. No CL Entrevista de hoje, a ex-atleta do Atlético-MG e da University of Bridgeport bate um papo muito divertido e franco sobre a sua carreira e sobre o futebol feminino.

Cenas Lamentáveis (CL): Amanda, obrigado por nos receber. Queremos perguntar a você muitas coisas sobre o futebol feminino, sobre sua carreira, sobre gestão. Gostaria de saber primeiro como começou todo esse interesse pelo futebol, pelo esporte. Sabemos que você é de uma família de esportistas, relacionada ao mundo da bola…

Amanda Moura (AM): Eu sou a mais nova de quatro irmãos e nossos pais sempre nos incentivaram a praticar esportes, atividades físicas. Quando pequena eu ia muito atrás do Rafael [Moura, atacante do Atlético-MG e irmão da atleta] que estava buscando a vida de jogador. Vivíamos batendo bola juntos e eu cresci querendo jogar bola. Vestia as camisas dele e ia correndo com a bola em casa junto dos meus irmãos. Minha mãe sempre disse que o futebol tinha que vir junto dos estudos e que era muito importante aliar esses dois lados.

CL: Os primeiros passos vieram como? Onde você começou a jogar ?

AM: Aos oito anos de idade eu participei de um projeto da UFMG chamado PROESP, onde eu era a única menina que participava do time. Joguei com os meninos por quatro anos e isso fez muita diferença no meu jogo. O tempo de bola, a velocidade, as decisões, todas foram no nível deles e isso me ajudou muito no desenvolvimento. Na sequência recebi uma bolsa de estudos do Colégio Magnus, de Belo Horizonte, e a equipe que eu participei ganhou praticamente tudo que disputou. Vencemos a Taça BH, os jogos escolares e o troféu Minas Gerais. Terminamos ficando em oitavo lugar no nacional. Então veio a chance de jogar pelo Atlético-MG.

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A jovem Amanda em sua passagem pelo Atlético-MG (foto: Uol Esporte/reprodução)

CL: A chance de jogar veio para o futsal, ou já pelo futebol de campo?

AM: Veio a chance através da minha convocação para seleção mineira de futebol, depois que joguei pelo Magnus. Quase todas as atletas eram do Atlético, então foi questão de tempo para me chamarem para jogar lá. Eu fui com 14 anos jogar em um time com meninas que jogavam na seleção e já com essa idade me profissionalizei. Vivendo aquele sonho eu percebi que era o que eu queria fazer da minha vida: jogar futebol. Fomos tricampeãs mineiras, título que tenho muito orgulho, e disputamos a Copa do Brasil. Não avançamos como nós gostaríamos, principalmente porque o futebol paulista era muito competitivo. Joguei contra Maurine, Cristiane, Formiga e era uma loucura! Elas jogavam rápido, com qualidade e era incrível poder assistir e jogar contra elas. Eu estava com 16 anos quando tive essa oportunidade.

CL: E a sua ida para os Estados Unidos, como se deu o processo? 

AM: Quando chegou a época do vestibular as faculdades que eu queria eram todas em tempo integral, e os treinos do Atlético eram em dois turnos. Não havia chance de conseguir conciliar tudo isso. Foi então que resolvi procurar opções diferentes. Durante a minha carreira nos EUA eu joguei em duas universidades. A primeira foi a de Central Florida, da primeira divisão, e depois joguei pela universidade de Bridgeport, da segunda divisão. A divisão não se refere à competitividade no sistema americano, e sim, na quantidade de bolsas disponíveis para estudantes atletas. Central Florida era um pouco mais competitiva por ser uma grande universidade em números e por ter uma grande disponibilidade de bolsas.

CL: O seu principal momento foi em Bridgeport e como foi essa experiência e a carreira bem sucedida lá?

AM: Bridgeport é em Connecticuit, um lugar bem mais pobre e muito frio. Cheguei a pegar -26°C lá! Apesar disso, a proposta da universidade era excelente e para a temporada que eu ingressei eram dezesseis meninas internacionais, vindas de países como Alemanha, Dinamarca, Suécia, mas só eu era brasileira. Fomos muito bem sucedidas com essa equipe, fomos campeãs de conferência, regionais e chegamos ao Final Four, na semi final em rede nacional. Tenho muito orgulho desses feitos e de ter participado disso. Hoje vejo meninas que preferem ir para Bridgeport do que ir para algumas universidades de primeira divisão por causa dessa campanha que chegamos entre os quatro melhores de mais de duzentas universidades. Hoje a equipe conta com mais patrocínios que antes e melhores condições de treino. Teve uma reforma nos vestiários, elas fazem pré-temporada na Califórnia, então ficou um grande legado nosso dessas temporadas. Depois dessa experiência, eu decidi parar de jogar bola para trazer esse conhecimento para a nossa gestão futebolística.

CL: O know-how americano de organização esportiva é muito diferenciado, é incrível como eles conseguem ampliar os esportes profissionais.

AM: Eles são demais nesse sentido!

CL: Aproveitando esse assunto das universidades, como foi a sua saída da University of Central Florida, que está em um estado rico americano e é uma universidade gigantesca para a Bridgeport, que tem menos tradição esportiva?

AM: Quando eu fui para Florida, fui treinada pela Amanda Cromwell, ex-jogadora da seleção americana, medalhista olímpica e terceira colocada na Copa do Mundo. Uma mulher muito dura que sofreu muito para ser atleta e imprimia esse lado no estilo de treino e de jogo dela. O que aconteceu é que eu tinha 40% de bolsa no primeiro semestre e estudar nos EUA é muito caro. A pretensão é que eventualmente a minha bolsa fosse integral. Mas as universidades menores ficam de olho nas grandes universidades, e então Bridgeport trouxe uma proposta com 100% de bolsa, moradia e alimentação. Então eu pensei nos meus pais e na minha família e aceitei. Quando cheguei lá, me senti mais líder do time, mais proativa. Saí de um time que tinha muitas estrelas para ser a estrela daquele time. Tive o prazer de ser treinada pela Amanda e tive um choque quando cheguei em Bridgeport, era muito diferente. O clima era outro, a universidade bem menor, a cidade fria demais. Mas fui acolhida de forma maravilhosa.

Amanda durante sua temporada final em Bridgeport (foto: Site oficial da U. Brideport/reprodução
Amanda durante sua temporada final em Bridgeport (foto: Site oficial da U. Brideport/reprodução

CL: Você acha que passou por muita cobrança, pelo estigma da atleta de futebol brasileira? Foi necessário um grande esforço e uma performance alta para cumprir essa expectativa?

AM: Foi pressão total. Sempre gostei de pressão. Adoro quando me criticam, falam mal, me puxam para ser melhor. Sou meio Cristiano Ronaldo nesse sentido: acho que o treinamento é mais importante que apenas o talento. Eu sou muito compromissada. Acordava às cinco da manhã e ia para academia, sempre cuidei da minha alimentação com bastante cuidado. Um dos motivos que eu saí do Brasil tem a ver com essa cobrança, de sair do estereótipo de ser irmã do Rafael. Nunca sofri pressão, mas sofri preconceito. “Ah ela joga no Atlético porque é irmã do Rafael”, ouvia tudo quanto é coisa e sempre me desmereciam. Se em um jogo eu fiz três gols, eu mereci eventualmente jogar e ser titular. Quando alguém que não acompanha o esporte vê que eu sou titular fala “ah lá, é irmã do Rafael”. Eu pensei bem e fui para um lugar onde ninguém me conhecia para eu ser independente desse estereótipo e ser a Amanda sem essa associação.

CL: Terminada a sua carreira universitária, você teve chance de ingressar no draft da liga profissional?

AM: Sim, eu tive oportunidades de ingressar no sistema do draft. Depois que eu renovei meu visto eu recebi chance de ir para o draft e também recebi propostas para jogar na Europa. Mas a saudade de casa bateu e eu retornei para o Brasil. Ainda tenho condições de jogar profissionalmente com propostas sérias. Mas eu preferi voltar.

CL: Não foi então por questão de lesão ou algum motivo parecido?

AM: Eu sofri uma lesão séria no joelho rompendo o ligamento cruzado e fiquei 11 meses parada. Nunca tinha perdido um treino até então. Mas isso não me parou, continuei com força, joguei a temporada do ano passado e fui eleita a melhor atacante da divisão. Eu parei porque quis e hoje eu acho que posso contribuir muito mais fora do campo do que jogando. Temos muitas atletas, técnicas mas não temos gestoras esportivas. Eu me preparo para suprir essa questão que falta no futebol feminino ainda. Hoje eu trabalho como sócia no futebol feminino do empresário Francis Mello e estamos atuando em gestão de carreiras. Trabalho com a Andressa Souza, do Barcelona, a Letícia Izidoro, do Corinthians e com duas crianças: a Juju Gol, do Rio de Janeiro, e a Ariane, do Santos e que está no EUA agora.

CL: O que você pretende fazer pela realidade do futebol feminino para ajudar a modalidade a crescer no Brasil?

AM: Dentro de um plano possível quero muito trabalhar para mudar a perspectiva de como o público enxerga a mulher no esporte. Para os preconceituosos, ter uma atleta como a Andressa jogando no Barcelona é um feito muito grande. A Letícia foi campeã da Libertadores pelo Corinthians e isso é um feito gigante. Isso é ótimo para quebrar o estigma da homossexualidade do esporte. Eu tive pais que me apoiaram, mas nem todos são assim. Alguns pais não queriam por que tinham medos como se as filhas ficassem masculinas.

CL: Como se esporte tivesse algum gênero…

AM: Exatamente! Não quero guerra do sexos, quero que existam condições propícias para que as meninas joguem futebol. Meu irmão tem duas filhas e não tem um lugar na cidade para levá-las para jogar bola.

CL: Aproveitando essa questão, como você vê em Minas Gerais a questão de se encontrar novas jogadoras? Apenas o América que está na série A2 do Brasileiro faz algo parecido com as peneiras de futebol que conhecemos.

AM: Minas Gerais perdeu várias estrelas com o fim do Atlético-MG feminino, muitas delas ao irem para São Paulo foram convocadas para seleção em questão de meses. Eles perderam um grande produto e muito talento ali. Outro caso interessante: as jogadoras do América não tem contrato, elas ganham salário mínimo, tudo muito informal. Acontece que um time como o Corinthians vem e oferece um salário de três, quatro mil reais e leva na hora as meninas daqui para São Paulo. Tem muito talento em Minas, mas está indo embora para São Paulo. Temos a necessidade que o Atlético-MG e Cruzeiro assumam seus times femininos e o América suba para série A2.

CL: Certamente você sabe dessa informação, mas a Conmebol irá obrigar os clubes que disputarem a Libertadores masculina a, até 2019, terem seus próprios times femininos também. Pelo que conversamos, há muito pouca ação dos principais clubes mineiros. O que você pensa a respeito?

AM: Tanto Atlético quanto Cruzeiro estão sondando o mercado e analisando uma forma de fazer isso. O problema é que muitos clubes querem apenas pegar um time já montado ou passar a camisa, e perderíamos muito se isso acontecesse. Ano que vem temos Libertadores, Copa do Mundo, Campeonato Brasileiro e tenho certeza que o futebol feminino será a última prioridade para eles. Em dezembro, apenas, eu vejo que eles vão arrumar uma “confusão” para fazer isso. Parecido com o que aconteceu com o time que o Grêmio montou, que eram meninas que jogavam no Inter. Eles passaram coletes e camisas e botaram para jogar. Foi uma experiência muito amadora. Eu acredito que o time poderia ter tido uma gestão adequada para ter uma continuidade e proporcionar uma oportunidade melhor para as atletas. Mas eu vejo que houve muito aprendizado e isso foi importante para começar o trabalho deles.

CL: Sobre a seleção feminina você pensa que há uma supervalorização da imagem da Marta? De forma alguma desmerecendo ela, que é a maior atleta que tivemos no futebol feminino, mas isso não criou uma sombra sobre outras grande atletas? A Formiga, por exemplo, foi uma das principais jogadoras da seleção por muitos anos e só agora recebeu reconhecimento merecido.

AM: Vejo com naturalidade isso, por ela ter sido cinco vezes melhor do mundo. Vejo que a diferença, principalmente antes das Olimpíadas, é que havia pouca informação sobre as jogadoras. Não tinha transmissão na televisão. Não sabíamos os resultados dos jogos, mas sabíamos que a Marta era a melhor do mundo. O legado dela vem há muitos anos de trabalho e de certa forma virou nosso sinônimo no futebol feminino. Quando tivermos mais exposição, isso dá chance até ao próprio torcedor de escolher a sua favorita e ver quem é quem.

CL: O sucesso internacional de várias atletas também é ótimo para isso.

AM: Claro! Jogadoras como a Andressa Souza, que foi para o Barcelona e a Mônica no Atlético de Madrid foram as primeiras do Brasil a jogarem nesses clubes, e isso é um feito incrível para o esporte como um todo. O sucesso delas vai ajudar muito a modalidade.

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Andressa, jogadora do Barcelona (foto: Globo Esporte/reprodução)

CL: E sobre a estrutura do futebol na CBF para a seleção?

AM: Eu vejo claramente a CBF, o Marco Aurélio Cunha e a equipe dele trabalhando muito, fazendo o que pode com muito esforço para que as coisas deem certo. O problema é que a seleção é micro e [o futebol feminino] um universo macro. O futebol feminino não pode depender única e exclusivamente da seleção. É necessário que tenha mais patrocínio para seleção de base também, e que outras fases do futebol como um todo tenham o apoio necessário. Eu penso que o futebol feminino resiste, assim como o futebol masculino resistiu na história. Antes falavam que pobre não podia jogar bola, que não ia dar certo. Hoje falam que a mulher não tem que jogar, que não dá dinheiro. Acho que há uma luta para melhorar isso.

CL: Agora como amiga da CL, conta pra gente um caso de “boleiragem” em que você protagonizou Cenas Lamentáveis no futebol, que foi engraçado?

AM: Olha (risos)… tenho uma história muito boa no Galo. As meninas eram muito minhas amigas, mas por eu ser loira sempre brincavam chamando de patricinha. Teve um jogo no campeonato mineiro que foi Atlético e Iguaçu na final. Eu entrei com 30 minutos de jogo e estava 0 a 0, as meninas estavam muito nervosas pela possibilidade de ir aos pênaltis. Eu dei um chute da grande área do jeito que deu e acertei o gol em cheio. Foi uma loucura! As meninas pularam em cima de mim, gritando e tudo mais e eu falei: “Calma gente, nada demais, só fiz o gol.” E foi aquela confusão toda.

CL: Só o gol do título? (risos)

AM: Mas eu não tinha ainda me tocado, a ficha não caiu! Foi muito divertido, a ficha não caiu na hora, mas foi ótimo. E elas viram que eu não era essa patricinha (risos). Isso sem contar as brincadeiras e amizade que sempre tivemos.

CL: Obrigado por nos receber, pela entrevista. Deixa uma mensagem para toda a comunidade!

AM: Eu quero agradecer muito o espaço, não por falar de mim, mas sim do futebol feminino. Muitas vezes a gente é carente disso, e vir para CL que é conhecida pelo humor e saber que existe um site sério que conta e dá espaço a essas histórias é muito bom. Contem comigo para continuarmos contando essa história do futebol feminino que vai crescer. Um abraço a todos.

1 Comentário em CL Entrevista: Amanda Moura

  1. Bacana demais a matéria! Parabéns Amanda e Cenas Lamentáveis! Mas favor corrigir o nome do colégio que a Amanda jogou! Magnum! E não Magnus….
    obrigado

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