CL entrevista: Maloqueiro Azul, o cruzeirense que faz sucesso no Twitter

Um papo sobre futebol, arte e muito mais

Ódio Eterno ao Futebol Moderno (Foto: @malocaarts)

Por: Daniel Bravo, MG

Amigo torcedor, amigo leitor. Assim como o Cenas Lamentáveis, o Esse dia foi louco, o Desimpedidos e mais várias páginas que tratam o futebol com humor, não é difícil encontrarmos perfis de torcedores que falam majoritariamente para adeptos do clube do coração. João Almirante com o Vasco, o amigo Léo Leal com o Flamengo, a Tv Ilha com o Sport e mais um número enorme de gente que se propõe a cornetar e brincar com seus times. Em Minas Gerais, um perfil bem diferente diverte e atraí o carinho da torcida cruzeirense. Estamos falando do fantástico Maloqueiro Azul.

Maloca, como é carinhosamente conhecido, tem quase 36 mil seguidores no Twitter. Boa parte deles cruzeirenses, mas também um grande número de gente que admira suas piadas, seu conhecimento por escolas de samba (O amor pela Estácio de Sá), perfumes, bares e mais ainda, seu trabalho acima da média e totalmente fantástico com design gráfico. Com um jeito diferente de tratar futebol, a CL resolveu entrevistar esse personagem que falou desde seu inicio no Twitter até a perda do irmão que lhe fez ter o amor pelo Cruzeiro.

Materazzi e Rui Costa em um clássico italiano (Foto: @malocaarts)

Cenas Lamentáveis: Maloca, primeiro agradecer pela oportunidade e já adiantar que não vou pedir para revelar o personagem, mas contar de onde surgiu a ideia?

– Vamos lá então. Agradeço pelo convite pra essa troca de ideias. Para falar a verdade eu nem sei de onde tirei a ideia de criar o personagem, acho que as coisas foram acontecendo sem que eu mesmo percebesse. Não foi algo premeditado. Me lembro que comecei a usar o twitter em 2011, o Cruzeiro estava na disputa da Libertadores… ~Barcelona das Américas~… E eu trabalhava à noite, e como não tinha como ver ou ouvir os jogos lá onde eu trabalhava, eu criei um perfil no Twitter pra poder acompanhar os jogos lendo a timeline quando os supervisores se distraíam.

Cenas Lamentáveis: Quando surgiu a vontade de postar, criar as artes e interagir com os cruzeirense? A temporada 2013/2014 foi algo que influenciou muito?

– Vamos por partes. Quanto a interagir; na reta final de 2011 veio a luta do Cruzeiro contra o rebaixamento, nesse período eu postava muita coisas, obviamente só xingamentos por causa da má fase do time. E acho que as pessoas gostam de xingamentos, nesse período comecei a ser seguido, e trocar interações. Quanto às artes e ilustrações, tudo começou um dia em que eu estava trocando ideia com um amigo sobre a minha indignação em não ter na torcida do Cruzeiro uma bandeira em homenagem ao Roberto Batata. E como ele sabia que eu gostava muito de desenhar, sugeriu “pô, por que tu não faz uma e tenta fazer chegar até alguma torcida organizada?” Fiz na época o desenho e vetorizei em um programa muito ruim, ficou uma bela bosta (risos). Mas ali foi um start para eu estudar, fazer cursos em busca de estar sempre me aperfeiçoando. 2013/2014: caramba, esse biênio me influenciou muito, não só aqui no Twitter, mas como pessoa. Foram anos de grandes transformações. Em 2013 comecei a usar a foto do mendigo no perfil em homenagem a um mendigo muito gente boa, cruzeirense fanático que ficava na rua de onde trabalho. Nasceu o user Maloqueiro Azul inspirado no Alberto Rodrigues e seus apelidos terminados em Azul. 2014 marca o inicio da minha mudança de postura no twitter, também já fui desses que acha que certas atitudes são aceitáveis porque “faz parte futebol” ou “é apenas humor”. Fazia muitas piadas homofóbicas e machistas, mas na minha vida pessoal eu nunca fui de fazer. Sempre fui o cara palhaço da turma, que brinca e zoa com todo mundo… mas nunca usei meu bom humor como ferramenta pra ferir ou magoar os outros, e no twitter, talvez pela “sensação de proteção” que o anonimato traz, você acaba “se perdendo no personagem”. Um dia percebi o quanto eu vinha sendo babaca quando uma pessoa entrou em contato comigo em DM, contando o quanto uma pessoa do ciclo de convívio dele vinha sofrendo bullyng por causa de uma postagem minha usando a foto dela. Foi um dos piores dias da minha vida, não fazia parte do tipo de educação que tive. Foi um dos motivos para começar a ser menos personagem e mais eu. Tinha que tocar nesse ponto da mudança de postura, acho importante e mais do que necessário abordar isso, dado o momento em que o país vive

Cenas Lamentáveis: Você falou sobre o começo dos desenhos. Recorda qual foi o primeiro desenho que teve uma grande repercussão e chegou ao jogador? Você recebe mensagem de algum, agradecimento, como é esse reconhecimento deles e também da torcida?

– Acho que o desenho (no caso os desenhos) que tiveram grande repercussão, foi o compilado de momentos da campanha do penta da Copa do Brasil. Muitos jogadores repostaram em seus status do Instagram. Já recebi mensagens de agradecimento de alguns, mas as mensagens que recebi que mais me marcaram foram de alguns seguidores que também gostavam de desenhar e vendo meus trabalhos se interessaram por buscar estudar design gráfico e ilustração pra se aperfeiçoar. É algo incrível você saber que você trouxe um impacto positivo na vida de alguém.

Uma das imagens do penta cruzeirense da Copa do Brasil (Foto: @malocaarts)

Cenas Lamentáveis: Você chegou a ficar um tempo distante do Twitter, como foi ver o impacto que você tem na vida das pessoas? Aproveitando ainda, como surgiu o amor ao Cruzeiro e quem criou esse amor em você?

– Das várias coisas que tive o prazer de aprender no período de convivência com meu irmão, uma delas foi torcer pelo Cruzeiro. Um episódio que me marcou muito foi a final da Copa do Brasil de 1996; me lembro que naquela noite meu pai cruzeirense também, quando foi chegando a hora do jogo desligou a TV e disse que não iríamos assistir pois dificilmente venceríamos aquela partida. Eu era criança e meu irmão um pré-adolescente já com dificuldades de se locomover devido a uma doença degenerativa muscular. Meu irmão esperou todos dormirem, inclusive eu, mas quando o jogo começou ele me acordou para que apoiado em meu ombro conseguisse ir até a sala para ver o jogo. Vimos o jogo, fomos campeões e fizemos a maior farra comemorando o título. Certamente esse dia foi definitivo pro meu fanatismo pelo Cruzeiro. Quanto ao período em que me ausentei do twitter, foi no pior momento da minha vida, o do falecimento do meu irmão, fiquei sem chão. Mas na rede social foi um dos lugares que mais encontrei apoio, recebendo mensagens de conforto diariamente. Uma delas me marcou bastante, uma DM de um seguidor que me seguia por influência do irmão dele, que há pouco tempo também havia falecido. Certamente dessa vez os seguidores causaram mais impacto positivo na minha vida, do que eu na deles!

Cenas Lamentáveis: É difícil conter as lágrimas. A gente nunca está pronto pra uma perda dessas… Maloca, além do Cruzeiro e dos desenhos, uma outra paixão sua é o futebol sul-americano no geral. Como surgiu e como você acompanha? Algum palpite de futuros nomes que possam aparecer?

– A paixão pelo futebol sul-americano surgiu em 2008, quando meu pai compra um desses aparelhos receptores de TV via satélite, gato Net. Ali comecei a acompanhar muito futebol chileno, argentino, colombiano. Depois passei a acompanhar pela internet através de links e sites. Infelizmente de uns dois anos pra cá devido ao trabalhos e estudo, ficou bem difícil de acompanhar como eu gostaria, então fica até difícil de citar algum nome que esteja surgindo, mas um jogador que acho que pode evoluir é o Soteldo que está na Universidad de Chile e pertence ao Huachipato.

Cenas Lamentáveis: Maloca, fora do futebol outras duas paixões que você tem são perfume (comprei o meu por dica sua, um DeG Pour Homme) e escolas de samba, como é isso?

– DeG Pour Homme é justamente o perfume responsável por eu ter virado colecionador, foi o primeiro importado que comprei, tudo começou em um dia em que fui ao shopping pra comprar um ingresso pro Axé Brasil, mas acabei saindo de lá com um perfume e viciado. Meu pai é sambista, acompanha desfiles de escolas de samba… então cresci nesse ambiente, vendo os desfiles e ouvindo os lp’s e os k7’s de Martinho da Vila, Fundo de Quintal entre outros, e o que eu mais gostava de ouvir era o do Dominguinhos do Estácio, intérprete da Estácio de Sá. Daí foi gerando minha simpatia pela escola e pelo carnaval carioca em si. E hoje sou um admirador do caráter social que muitas dessas escolas têm nas comunidades cariocas, como ferramenta de inclusão, não só por gerar emprego nos barracões, mas por oferecer também oficinas, cursos, reforço escolar.

Saudosa e eterna Dona Ivone Lara (Foto: @malocaarts)

Cenas Lamentáveis: Voltando ao futebol, você costuma ficar de fora de algumas discussões sobre diretoria e lado. Quanto você acha que o torcedor comum se deixa levar e ser influenciado, como vê toda essa bagunça envolvendo os bastidores dos clubes?

– Eu particularmente tomei a decisão de ficar alheio ao máximo de questões de bastidores políticos do clube, e me ater apenas a torcer pro time dentro das quatro linhas. Eu vejo aqui no twitter o pessoal polarizado demais, turma do Fulano x turma do Ciclano, uma turma com cheia de ódio, isso não é pra mim não, prefiro me manter fora disso.

Cenas Lamentáveis: Maloca, acho que falamos bastante já, deu pra saber um pouco sobre você. Pra encerrar, quais os planos, vontades e dicas desse cara gente boa que você é pra quem curte seu trabalho?

– Então, a dica que dou é usar a internet e as redes sociais sempre como uma ferramenta para o crescimento. Seja ele intelectual, profissional, como pessoa… como um ferramenta pra diversão e não para proliferação do ódio.

Cenas Lamentáveis: Para encerrar, é claro que teria um pedido diferente. Monte o seu Cruzeiro de todos os tempos.

– Meu Cruzeiro de todos os tempos, um compilado dos que vi jogar com os que meu pai não cansa de falar: Fábio, Nelinho, Perfumo e Dedé. Nonato, Piazza, Zé Carlos. Dirceu Lopes e Alex. Joãozinho e Tostão.

Frase que se tornou caneca a venda para a torcida celeste. (Foto: @malocaarts)

Pois é, amigos. Por trás de um personagem tão simples, uma pessoa diferente como uma historia gigante e admirável. Quem não segue, vá no Twitter e comece logo a seguir o @Maloqueiro_Azul. Pra quem gostou, indique mais nomes aqui na rede para mais entrevistas como essas.

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