CL na Copa: Croácia, olho no passado para sonhar com o futuro

Por Gabriel Ferreira

Dessa vez, sem a seleção brasileira (e o árbitro Nishimura) pelo caminho, a Croácia vai à Rússia apostando na força coletiva para voltar a alcançar as oitavas de final da Copa do Mundo após 20 anos. Sorteada em um grupo bastante equilibrado, o objetivo dos croatas é mostrar que possuem cartas na manga além de Rakitic e Modrić, e, assim como em 1998, podem surpreender no cenário mundial.

Da estreia brilhante em copas ao fantasma da fase de grupos

Antiga integrante da Iugoslávia, a Croácia surgiu tarde para o futebol profissional. Desde sua independência no início dos anos 1990, tem sido a seleção de maior sucesso entre os separatistas do extinto reino iugoslavo. Se hoje é comandada por uma dupla de meias que esbanja classe no futebol espanhol e também conta no elenco com outros jogadores de destaque nas principais ligas europeias, na sua melhor participação em copas, em 1998, jogadores tão talentosos quanto os atuais fizeram o improvável e ficaram a um passo de disputar a final do mundial com a seleção brasileira.

Tudo dava certo para Davor Suker! O atacante do Real Madrid e da ainda jovem seleção croata de futebol comandava o esquadrão que ainda contava com grandes jogadores como Boban, Prosinecki e Jarni, estava imparável na Copa do Mundo de 1998.

Na primeira fase foram dois gols em três partidas, sendo um deles garantindo vitória importante pelo placar mínimo contra o Japão, resultado que, após vencer a Jamaica na primeira rodada, seria o suficiente para garantir a classificação dos croatas para as oitavas de final com uma rodada de antecedência. O fechamento da fase de grupos se deu com derrota frente à Argentina com gol solitário de Maurício Pineda, o único dele em sua carreira pela seleção argentina (situação que ainda iria se repetir na campanha croata naquela copa).

No mata-mata é que viria a surpresa. Nas oitavas de final, vitória sobre a Romênia com gol nos acréscimos do primeiro tempo marcado por Davor Suker. Nas quartas, a Croácia se confirmou como sensação daquela copa: 3×0 na Alemanha de Matthaus e Klismann, que detinha o título da Eurocopa. Suker, claro, deixou o dele. Naquele momento, o mundo do futebol tentava entender de onde vinham e até onde iriam os quadriculados. O destino reservou os donos da casa como o maior teste para seleção que ganhava a simpatia de todos, Lilian Thuram provocaria a queda da cama que iria acordar os croatas do sonho de 98.

O Stade de France era o centro das atenções naquele 7 de julho de 1998. Nas arquibancadas, 76 mil torcedores aguardavam a definição do primeiro finalista daquela Copa do Mundo no embate entre França e Croácia. Claro, os donos da casa tinham maior torcida entre aqueles milhares de torcedores, mas ao redor do mundo a surpresa croata ganhara a simpatia dos amantes de futebol. Com a bola rolando, o artilheiro Suker marcou para os “visitantes” no início da segunda etapa. A participação na final naquele momento era palpável, muito além de um sonho. Até que um herói improvável tomou os holofotes: Thuram. Com dois gols (seus únicos pela seleção francesa), o então lateral direito decretou a virada da seleção que viria a bater o Brasil, com muito menos dificuldade, na final daquela Copa.

Mesmo com a derrota, aquela já seria a melhor participação da Croácia em mundiais. A vitória contra a Holanda na disputa pelo terceiro lugar serviu para consolidar aquela ótima campanha croata e confirmar Davor Suker como artilheiro da copa e futuramente eleito o 3º melhor jogador do mundo, ficando atrás apenas de Ronaldo e Zidane.

De 1998 até a última edição da copa, em 2014, a Croácia só não participou da edição sediada pela África do Sul, em 2010. Mas a consistência em participações nos mundiais não se refletiu em boas campanhas. Do protagonismo na sua primeira participação a Croácia passou a conviver com seguidas eliminações na fase de grupos, sendo em duas edições (2006 e 2014) derrotada pelo Brasil na fase inicial, a última contando com uma mão amiga do árbitro Yuichi Nishimura, que marcou pênalti polêmico em Fred quando a partida estava empatada em 1×1 com um cenário não muito favorável à seleção brasileira. Neymar converteu e, nos minutos finais, Oscar matou a partida vencida pela seleção canarinho por 3×1.

O caminho até a Rússia

O ciclo após o mundial do Brasil foi marcado por irregularidade e trocas no comando técnico. Inicialmente, Niko Kovac seguiu como treinador da seleção croata mesmo após a eliminação decepcionante na fase de grupos da copa de 2014. Mas ainda antes da Eurocopa, ele seria demitido por conta de resultados ruins nas eliminatórias que visavam a competição europeia. Ante Cacic foi escolhido como seu substituto e seria o responsável por tentar fazer a Croácia surpreender no maior torneio de seleções do velho continente.

A campanha na Eurocopa de 2016 iniciou de maneira animadora. O clima na França – país que sediava o evento – parecia fazer bem ao esquadrão quadriculado. Em um grupo forte que contava com Espanha, Turquia e República Checa, a Croácia surpreendeu ao conseguir alcançar a liderança na primeira fase, superando a tradicional seleção espanhola.

Após a vitória na estreia frente à Turquia com gol solitário de Modrić e um susto na segunda partida ao levar o empate mesmo após abrir dois gols de vantagem contra a República Checa, a Croácia confirmou a classificação para as oitavas de final e a liderança do grupo em grande estilo: triunfo de virada contra a Espanha com gol decisivo de Perisic aos 42 da segunda etapa de partida.

Mas, ao contrário do que se desenhava, aquele seria o ponto alto da trajetória dos croatas na Eurocopa. Logo na primeira fase de mata-mata, a Croácia enfrentou a seleção de Portugal e, mesmo em partida extremamente equilibrada, a vitória seria decretada aos 12 minutos da segunda metade da prorrogação: Quaresma decidiu após rebote em finalização de Cristiano Ronaldo. Os portugueses avançavam para as quartas na caminhada que os daria seu primeiro título europeu.

A Croácia ficava novamente com a sensação de que poderia ter alcançado voos maiores, e teria que mudar o foco para as eliminatórias para a copa da Rússia. E, como no mundial de 2014, a eliminação em uma importante competição não foi o suficiente para derrubar o técnico que comandava a seleção. Mas o filme se repetiu, e não demorou muito para Ante Cacic ser demitido.

Em uma campanha com altos e baixos nas eliminatórias europeias para a Copa do Mundo, Ante Cacic foi demitido após o empate com a Finlândia dentro de casa que complicou a situação dos croatas, que, poucos dias depois, teriam confronto decisivo contra a Ucrânia pela vaga na repescagem em que não poderiam ser derrotados. Nessa situação, Zlatko Dalic assumiu o cargo de treinador da equipe quadriculada. Profissional que já havia trabalhado na seleção sub-21 do país e que tinha como mais recente trabalho o comando do Al-Ain FC dos Emirados Árabes, onde permaneceu por dois anos. E a aposta deu certo.

A resposta do grupo foi boa e a Croácia venceu a Ucrânia fora de casa por 2×0 na última rodada das eliminatórias, garantindo classificação na repescagem, onde teria como adversário a Grécia. Sem grandes dificuldades, os croatas passaram por cima dos gregos goleando dentro de casa por 4×1 e conseguindo um empate sem gols na partida de volta. Com isso, o esquadrão de Modrić e cia terá, em 2018, nova chance de repetir o sucesso da equipe estrelada dos anos 90!

Sim, temos um time!

Para quem gosta de coincidências, aí vai uma: 20 anos após a brilhante campanha de 1998, a Argentina novamente está na chave da Croácia. Além da seleção sul-americana, Nigéria e Islândia compõem o grupo D. Para passar de fase e tentar alcançar o topo, os croatas terão que provar que possuem armas além da dupla de astros do Barcelona e do Real Madrid. E o provável elenco que irá à Rússia representar o país europeu se mostra capacitado para isso.

Goleiros:

Danijel Subašic (Mônaco-FRA) – Jogador de 33 anos, titular incontestável na baliza do Mônaco há 6 anos e fundamental para oferecer segurança à defesa croata.

Lovre Kalinic (Gent-BEL) – Com 28 anos, o goleiro alcançou a titularidade no futebol belga nessa temporada, com 37 partidas completadas. Na seleção, se mostra uma boa opção para o caso de uma indisposição do titular Subašic.

Dominik Livaković (Dinamo-CRO) – Jovem atleta com 23 anos recém-completados, Livaković ainda não estreou pela seleção nacional, apesar de ter uma carreira de bastante destaque nas equipes sub-19 e sub-21 da Croácia. Na sua equipe, vem de uma boa temporada onde se firmou como titular do Dinamo Zagreb.

Defensores:

Vedran Ćorluka (Lokomotiv Moscow-RUS) – Segundo jogador do elenco no número de partidas pela seleção nacional com 95 atuações (atrás apenas de Modric), o zagueiro conviveu com muitas lesões na atual temporada, mas é visto como peça importante no grupo principalmente pela sua liderança.

Dejan Lovren (Liverpool-ING) – Livre das lesões na temporada 2017/2018, Lovren é titular na equipe do Liverpool finalista da Liga dos Campeões. Na seleção, o zagueiro de 28 anos será ainda mais crucial para a sua equipe do que é atualmente na Premier League.

Domagoj Vida (Besiktas-TUR) – Após 5 temporadas completas no Dynamo Kiev, em janeiro Vida se transferiu para o Besiktas, onde alternou partidas como titular e como reserva. Com a instabilidade física de Ćorluka, ganha importância no time quadriculado.

Tin Jedvaj (Bayer Leverkusen-ALE) – Com apenas 22 anos, Jedvaj é uma das apostas para o futuro da seleção croata. Atualmente o zagueiro briga pela titularidade na boa equipe do Bayer Leverkusen, mas a tendência é que seja reserva na equipe que disputará a Copa do Mundo.

Matej Mitrović (Club Brugge-BEL) – O zagueiro de 24 anos se transferiu em 2018 do Besiktas, da Turquia, para o Club Brugge, da Bélgica, onde teve mais oportunidades de se desenvolver. Com a forte concorrência na defesa croata, deverá ser opção na reserva da seleção.

Ivan Strinić (Sampdoria-ITA) – Lateral-esquerdo discreto, Strinić se mostra mais necessário do que confiável na seleção croata. Na temporada, o jogador se transferiu do Napoli para a Sampdoria e não conseguiu se firmar como titular, atuando em 18 partidas e ficando no banco de reservas em outras 15.

Šime Vrsaljko (Atlético Madrid-ESP) – O lateral-direito de 26 anos vem alcançando ascensão no poderoso Atlético de Madrid, o que colaborou para assumir a ala direita da Croácia e se tornar crucial à seleção.

Josip Pivarić (Dynamo Kyiv-UCR) – Provável reserva da Croácia, Pivarić é titular na lateral-esquerda do Dynamo Kyiv, onde chegou nessa temporada e não demorou muito para se adaptar.

Duje Caleta-Car (RB Salzburg) – Com apenas 21 anos, o zagueiro Caleta-Car se destaca pelas participações nas seleções de base da Croácia, inclusive participando do Campeonato Europeu sub-21 por duas ocasiões, além de ser titular do RB Salzburg, da Áustria. Na seleção principal, ainda não fez sua estreia e tem sua convocação justificada pelo ganho de experiência internacional.

Meio-campistas:

Luka Modrić (Real Madrid-ESP) – Craque da seleção croata (sendo recordista em atuações, com 104) e fundamental no Real Madrid, Modrić vem de ótima temporada e é finalista da Champions pela equipe merengue. Na Rússia, a expectativa é que ele comande a organização da Croácia.

Ivan Rakitić (Barcelona­-ESP) – O outro grande nome da seleção quadriculada, o meio-campista teve sua temporada mais atuante pelo Barcelona, com 50 partidas e título espanhol garantido. Na seleção, divide o protagonismo com seu rival de Real Madrid na articulação.

Ivan Perišić (Internazionale-ITA) – Destaque no futebol italiano, Perišić desperta o interesse de outras grandes equipes do futebol europeu e é titular incontestável na seleção. Vem de temporada bastante positiva com 11 gols marcados no campeonato nacional.

Mateo Kovačić (Real Madrid-ESP) – Com apenas 24 anos, o meia vem se consolidando no Real Madrid, apesar de não ser titular (muito em função da grande concorrência). O outro finalista da Liga dos Campeões também tenta garantir vaga no meio-campo concorrido da seleção croata e certamente será muito utilizado ao longo da Copa do Mundo.

Milan Badelj (Fiorentina-ITA) – Outro croata atuante no futebol italiano, Badelj não estava disponível para ajudar a Croácia na repescagem, mas foi bastante utilizado ao longo das eliminatórias. Na copa, briga por vaga na equipe.

Marcelo Brozović (Internazionale-ITA) – Com boas atuações na repescagem, o volante ganhou moral na seleção mas ainda enfrenta a concorrência de Badelj e Kovačić. Na Inter, fez boa temporada e faz as últimas partidas como titular da equipe.

Filip Bradaric (Rijeka-CRO) – Titular no Rijeka, Bradaric tem participações esporádicas na seleção principal croata. Na copa, dificilmente terá minutos em campo.

Atacantes:

Mario Mandžukić (Juventus-ITA) – Com 32 anos completados recentemente, o atacante permanece sendo muito importante tanto na seleção como em seu clube. Sendo como referência na área ou estrategicamente posicionado pelo lado do campo, Mandžukić será a principal esperança de gols para sua seleção.

Nikola Kalinić (Milan-ITA) – “Escondido” durante a maior parte de sua carreira em equipes pequenas da Europa e longe das principais ligas, aos 30 anos Kalinić vive seu melhor momento. Apesar da queda de rendimento em sua temporada de estreia no Milan, o atacante é forte candidato à vaga de titular na Croácia.

Andrej Kramarić (Hoffenheim-ALE) – Um jogador extremamente útil. Assim pode ser definido Kramarić. Opção para o meio-campo e também para o ataque, é um jogador que alterna entre a titularidade e a reserva tanto na sua equipe, como na seleção. Todavia, deverá ser muito acionado ao longo da campanha croata na Copa.

Marko Pjaca (Schalke 04-ALE) – Jovem aposta da seleção croata e da Juventus, Pjaca atuou durante poucos minutos na temporada atual. Com poucos minutos em campo pelo Schalke 04 (clube pelo qual está emprestado), inicia a Copa como opção no banco de reservas.

Ante Rebić (Eintracht Frankfurt-ALE) – Em situação semelhante à Pjaca, Ante Rebić é outro jogador para ser moldado visando aos próximos ciclos da seleção, mas com uma diferença importante: ele teve mais oportunidades na sua equipe. Apesar disso, também será opção na reserva da Croácia.

Como pode surpreender

É inegável a importância de Luka Modrić e Ivan Rakitić para o funcionamento da seleção croata. Mas, ao contrário do que se pode imaginar, o elenco com ótimas opções, principalmente no meio e no ataque, é o elemento crucial para que a Croácia se destaque em solo russo.

Entre as muitas opções, destacam-se Ivan Perišić, protagonista em diversos momentos da Internazionale, e seu companheiro de equipe Brozović, que se mostra ótima opção para carregar o piano no meio-campo croata. Mateo Kovačić, claro, se apresenta como postulante à titularidade na equipe, sendo, ao menos, boa opção para o decorrer das partidas, o que mostra o bom nível de concorrência no setor. Com boa capacidade de armação de jogadas, o experiente Mandžukić e o bom atacante Kalinić se apresentam como principais alternativas para oferecer poder de fogo à equipe croata.

Na Copa do Mundo de 2018, a Croácia chega à Rússia com o objetivo de evitar fantasmas das competições passadas. Para isso, conta com um elenco recheado de bons jogadores e, ainda, com algumas opções de luxo. Seja no talento de Rakitic e Modric ou na força da coletividade, o que podemos esperar é um alto nível de competitividade da seleção quadriculada.

Fontes: Soccerway, Wiki Croácia, 1998 FIFA World Cup France, Transfermarkt

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