Como o futebol atravessou a guerra na Iugoslávia

O NACIONALISMO VENCEU

O estádio do Zeljeznicar-BOS (à dir.) é apenas um exemplo da devastação que a Iugoslávia sofreu na década de 1990 (Foto: Stacey Wyzykowski)
Por Dudu Nobre, PR

O século XX foi marcado por muitos conflitos, a maioria deles disputas territoriais entre etnias diferentes. Além das duas guerras mundiais, um confronto que manchou a história da humanidade nesse período foi a Guerra dos Bálcãs, que se arrastou pela década de 1990 e deixou um rastro de aproximadamente 120 mil mortos e 2,6 milhões de refugiados e desalojados nos dois principais episódios (guerras pelas independências de Croácia e Bósnia).

Todos os segmentos da sociedade da ex-República Socialista sofreram uma transformação drástica, e no futebol não foi diferente. Mas para entender o que mudou é preciso relembrar como o esporte era tratado antes do conflito. A partir de 1945 a Iugoslávia passou a ser governada por um regime socialista, comandado pelo Marechal Josip Broz Tito.

Tito acreditava que o esporte era uma ferramenta importante para a educação dos jovens e também um elemento que ajudaria a formar uma identidade iugoslava, na qual todas as repúblicas (Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia e Herzegovina, Montenegro e Macedônia) trabalhariam em busca do mesmo princípio: “Irmandade e Unidade”.

Sarajevo sediou os Jogos Olímpicos de Inverno em 1984 (Foto: Reprodução União europeia de Judô)
Sarajevo sediou os Jogos Olímpicos de Inverno em 1984 (Foto: Reprodução União europeia de Judô)

Por conta disso, o regime socialista de Tito construiu alguns complexos poliesportivos em todas as repúblicas, realizou competições anuais entre jovens e até sediou as Olimpíadas de Inverno de 1984 em Sarajevo. No entanto, houve também o lado negativo dessa política: impor a ideologia socialista aos clubes iugoslavos.

Algumas equipes, caso do Zrinjski Mostar-CRO, foram extintas das ligas profissionais por terem valores nacionalistas bem enraizados (nesse caso, o time usava os quadrados vermelhos e brancos da Croácia e o nome Zrinjski veio de uma família nobre de croatas). Além disso, o regime de Tito considerava torcidas organizadas ilegais pelo mesmo motivo, condenando-as a clandestinidade.

As agremiações que seguiam ativas, restavam se adequar aos valores vigentes. Em vários estádios iugoslavos (casos de FK Vojvodina-SER, Velež Mostar-BOS, FK Budućnost Podgorica-MON…) monumentos foram construídos em homenagem a heróis que lutaram pela República Socialista, outros clubes criados após a segunda guerra mundial carregavam no nome uma homenagem a algum ícone iugoslavo (caso do Spartak Subotica-SER, que leva o apelido “Spartak” do o comandante do Destacamento Partisan Subotica Jovan Mikic).

Em quase todos os escudos um elemento em comum: a estrela vermelha de cinco pontas, símbolo presente na bandeira do país.

Esse monumento do Velež Mostar-BOS é um exemplo da transformação ocorrida nos Bálcãs: antes iugoslavo, depois croata (ambas as fotos reprodução Universidade de Northern Iowa)
Esse monumento do Velež Mostar-BOS é um exemplo da transformação ocorrida nos Bálcãs: antes iugoslavo, depois croata (Ambas as fotos reprodução Universidade de Northern Iowa)

A morte de Tito e a ascensão dos nacionalismos das repúblicas

Tudo seguia nesse ritmo até 1980, ano da morte do Marechal Tito. Sem a principal referência de “Irmandade e Unidade”, os sentimentos nacionalistas foram aflorando de forma gradual, sem grandes impactos durante a primeira metade da década de 1980.

A partir daí as mudanças começaram a acontecer, e a primeira delas foi o surgimento de diversas torcidas organizadas nas principais cidades iugoslavas: Em 1986, a Bad Blue Boys do Dínamo Zagreb-CRO; Em 1987, a Komiti Skopje do FK Vardar-MAC, The Maniacs do FK Željezničar Sarajevo-BOS e Horde Zla do rival FK Sarajevo-BOS; em 1989, a Delije do Estrela Vermelha-SER, entre outras – além do ressurgimento de grupos como Torcida do Hajduk Split-CRO e Grobari do Partizan-SER.  

Essas torcidas tinham em comum o forte caráter nacionalista, característica reprimida pelo regime socialista de Tito. Logo as rusgas entre os grupos começaram a acontecer, até que no dia 13 de maio de 1990 o Dínamo de Zagreb-CRO recebeu o Estrela Vermelha-SER.

O que era para ser um jogo de futebol se transformou em uma praça de guerra, envolvendo principalmente membros da Delije e Bad Blue Boys, mas também a polícia (composta em maioria por sérvios) e até atletas (caso do capitão do Dínamo Boban, que chutou um policial).

Aquilo não era só um confronto entre equipes, mas entre nações sedentas por independência. Nos congressos do Partido Comunista Iugoslavo, Eslovênia e Croácia solicitavam as próprias soberanias, enquanto a Sérvia buscava o comando do país sob as mãos de Slobodan Milosevic – alegando a desculpa de manter o país nos ideais de “Irmandade e Unidade”.

Em meio a este caos político e social, a seleção iugoslava viajava à Itália para a disputa da Copa do Mundo de 1990. Curiosamente, o treinador bósnio Ivica Osim fez uma convocação multiétnica, com sete croatas, seis atletas da Bósnia, três sérvios, três montenegrinos, dois macedônios e um esloveno. A expectativa era boa, visto que a seleção sub-20 havia conquistado o mundial três anos antes.

Essa foi a última vez que a Iugoslávia disputou um mundial com todas as repúblicas representadas (Foto: Reprodução Blog Zona Neutra)
Essa foi a última vez que a Iugoslávia disputou um mundial com todas as repúblicas representadas (Foto: Reprodução Blog Zona Neutra)

A estratégia foi de apostar em jogadores mais experientes (a média de idade era de 26 anos) e contar com uma base de jogadores com passagens por equipes estrangeiras (nove dos 22 convocados atuavam fora da Iugoslávia). O objetivo era montar um elenco que havia vivenciado a era de Tito e que pudesse conviver com outras etnias de forma pacífica.

A campanha foi muito boa, atenuando o clima hostil na República Socialista. A Iugoslávia chegou às quartas de final, derrotando a Espanha nas oitavas e levando o duelo com a então campeã Argentina para as penalidades – sendo que o defensor Sabanadzovic foi expulso aos 31’ da primeira etapa. No entanto, a eliminação marcou a última vez que o mundo viu a seleção “Irmanada e Unida”.

Željko Ražnatovic: das arquibancadas para o comando de um grupo paramilitar sérvio (Foto: Milos Jelesijevic / AFP Photo)
Željko Ražnatovic: das arquibancadas para o comando de um grupo paramilitar sérvio (Foto: Milos Jelesijevic / AFP Photo)

Conflito armado e torcedores no front

A partir de 1991 os confrontos iniciaram de fato. Primeiro na disputa territorial entre sérvios e croatas e, a partir de 1992, entre sérvios e bósnios. Além dos exércitos nacionais, os países contavam com grupos paramilitares que davam suporte nas batalhas.

Na Sérvia, um dos grupos paramilitares mais importantes era Os Tigres, comandado por Željko Ražnatovic, o Arkan. Chefe de segurança do Estrela Vermelha-SER e líder da Delije, Arkan recrutou membros da torcida organizada para o front em paralelo ao sucesso da equipe de Belgrado, campeã da Europa e do mundo em 1991 – o que potencializou o orgulho nacionalista sérvio.

O caso da Delije foi o mais extremo, porém não é exclusivo. Na Croácia, os Bad Blue Boys eram um grande núcleo de nacionalistas croatas e, assim como os torcedores do Hajduk Split-CRO, se alistaram em massa no exército local. Mais tarde, no conflito da Bósnia, o líder da torcida do Zeljeznicar-BOS Dževad Begić Đilda tornou-se um Sehid (mártir) da independência após lutar no primeiro ano do cerco a Sarajevo e morrer ainda em 1992 tentando salvar um civil baleado.

Após quase uma década de conflitos, o cenário do futebol local era semelhante ao do início da era Tito, porém enaltecendo os novos vencedores. Nos estádios, monumentos construídos pelas torcidas organizadas em memória de quem perdeu a vida nos campos de batalha. Nos escudos, a tradicional estrela de cinco pontas foi substituída por elementos dos novos países independentes, exceto nos dois grandes da Sérvia (Estrela Vermelha-SER e Partizan-SER).

CL IUGOSLAVIA

Na questão de desempenho, os clubes enfraqueceram em estrutura física e econômica, o que refletiu diretamente nos resultados (de 1991 pra cá, nenhum clube da ex-Iugoslávia chegou a uma decisão de Liga dos Campeões ou Liga Europa). Dentre as seleções nacionais, em seis edições do mundial apenas a Croácia de 1998 superou a campanha de 1990, contando com três atletas que também foram a Itália (Suker, Jarni e Prosinecki).

Ao observar a história, é possível ver as marcas profundas que a guerra causou ao povo iugoslavo e que o futebol pode retratar em suas relações o contexto social de uma (ou várias) nações de um território.

Fontes: Alex Sandro Janotte, BBC Brasil, ESPN, FIFA, Manchester Univesity Press, Terra, The Guardian, Universidade de East Anglia e Universidade de Northern Iowa.

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