Como a Primeira Liga fracassou antes mesmo de começar

O desinteresse dos clubes pela competição fica cada vez mais evidente, e a extinção da Primeira Liga cada vez mais real

Londrina fará final com Atlético-MG após passar por times reservas de Fluminense e Cruzeiro (Foto: Reprodução/Site Oficial da Primeira Liga).
Por Lucas Silva, AM

Com o objetivo de se distanciar da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), após vários escândalos de corrupção, e ter mais liberdade nos clubes, grandes times da Série A resolveram criar uma liga paralela e independente. No papel, era o cenário perfeito e o momento ideal. Porém, a falta de planejamento e o corporativismo no Brasil impediram o andamento do que era um projeto visionário.

Grandes ligas ao redor do mundo também surgiram após desligamento dos clubes com as entidades máximas do futebol em seus países. A Premier League, fundada em 1992, é um grande exemplo disso. No Brasil, a ideia de se desligar de um meio que prejudica os clubes buscando o benefício próprio é altamente válida.  Além disto, levando em conta o alto envolvimento em corrupção dos principais dirigentes da CBF, se tornava necessária.

COPA UNIÃO

Vencida pelo Flamengo, a Copa União foi um exemplo de revolta dos clubes com a CBF que acabou dando certo (Foto: Reprodução/ESPN).
Vencida pelo Flamengo, a Copa União foi um exemplo de revolta dos clubes com a CBF que acabou dando certo (Foto: Reprodução/ESPN).

Em 1987, tivemos algo parecido no cenário nacional. Até hoje polêmica, a Copa União foi criada após diversas crises políticas internas na CBF. A entidade não realizou o campeonato nacional daquele ano. Com a falta de crédito que a federação tinha, os 13 grandes clubes da primeira divisão, conhecidos como Clube dos 13, se uniram no objetivo de formar o campeonato que representasse a maior competição no âmbito nacional. Apesar das dúvidas que o cercam até hoje, o campeonato obteve êxito e foi o refúgio dos grandes times naquele ano. A união das equipes, como levou o nome da competição, mostrou ser o suficiente para se livrar de uma federação que mais atrapalha do que ajuda.

A FALTA DE VONTADE DA CBF

Surgindo com a proposta do Coritiba de repetir outra liga que já existira, a Copa Sul-Minas, a Primeira Liga começou a ganhar forma após Flamengo e Fluminense ameaçarem abandonar o Campeonato Carioca e migrarem para a que se chamaria Copa Sul-Minas-Rio. Porém, todos os milhões que seriam perdidos em um possível rompimento com a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ) fizeram com que os clubes voltassem atrás e não desistissem do estadual.

Apesar das diversas dificuldades impostas pela CBF, a entidade estudava como incluir a liga no calendário brasileiro. Porém, com a insatisfação da FERJ, a CBF voltou atrás e trouxe toda a incerteza que girava em torno da realização da competição novamente à tona. Foi nessa ocasião que Alexandre Kalil, então diretor-executivo da Primeira Liga, perdeu a paciência e causou uma discussão com um dos dirigentes da CBF em reunião. Este fato destruiu as esperanças de uma união entre os mandatários dos clubes participantes e a CBF. A discussão de Kalil não agradou os representantes dos clubes na liga, o que causou sua saída antes mesmo dela acontecer.

Em assembleia, a realização do campeonato foi aprovada. Apesar de se mostrar favorável publicamente, havia um clima de desconforto na CBF. A possibilidade da federação perder força com a realização de uma competição nacional independente gerava uma tensão nos bastidores.

 

A DESUNIÃO DOS CLUBES

Coritiba e Atlético-PR, clubes fundadores, desistiram de participar da edição atual (Foto: Site Oficial do Coritiba).
Coritiba e Atlético-PR, clubes fundadores, desistiram de participar da edição atual (Foto: Site Oficial do Coritiba).

Após tanto lutar pela realização da competição, os mandatários dos clubes se viram obrigados a participar do campeonato com seriedade. Entretanto, a conjuntura política que estava se orquestrando nos bastidores foram dividindo os clubes. As cotas de TV, que poderiam ser igualmente repartidas, fato que traria um atrativo ainda maior, foram novamente repetidas como no Campeonato Brasileiro. Isso fez com que Atlético-PR e Coritiba, dois dos fundadores da competição, abandonassem este ano.

Outras causas, como o desafeto criado com a CBF, fizeram com que a Primeira Liga deixasse de ser um campeonato interessante e se tornasse uma obrigação a mais para os clubes. Times como Flamengo, Fluminense e Internacional, que jogaram com os times principais na edição passada, neste ano entraram com times mistos. No ano passado, Renato Gaúcho nem viajou para Brasília para comandar seu time reserva na partida entre Flamengo e Grêmio. Não houve qualquer responsabilidade pela competição que eles próprios lutaram para acontecer.

O FIM CADA VEZ MAIS PRÓXIMO

O desgosto da CBF pela competição fez com que não houvesse facilidade para a realização da mesma. Com os calendários cheios, a Primeira Liga foi estendida ainda mais, com as fases dispersas durante a temporada. A Copa do Brasil e a Libertadores sendo realizadas durante todo o ano agravou a situação. Para se ter uma ideia, enquanto a fase inicial aconteceu no mês de fevereiro, as semifinais ocorreram apenas no início de setembro. A final, que será realizada entre Londrina e Atlético-MG, acontecerá apenas em outubro — um mês após a classificação dos times.

Aos poucos, equipe por equipe, todos decidiram abrir mão de uma competição que se tornou completamente amistosa. O excesso de politicagem no meio do futebol brasileiro e a desunião dos clubes foram responsáveis pela destruição de uma oportunidade para eles mesmos mostrarem a força que têm. Novamente, a evolução do futebol brasileiro foi adiada por mais algum tempo.

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