Consagrados em campo, ídolos devem virar técnicos?

Portaluppi, vencedor dentro e fora das quatro linhas (Foto: Lucas Uebel / Flickr Oficial Grêmio)
Por Frank Toogood, SP

Vale a pena um atleta renomado, consolidado na história de um clube, arriscar toda a credibilidade que construiu com a torcida (depois de muita cornetada), passando de atleta para técnico?

Alguns ídolos toparam a mudança de dentro para fora das quatro linhas. O nome brasileiro mais emblemático talvez seja Renato Gaúcho: campeão mundial pelo Grêmio em 1983, o folclórico Portaluppi tem três experiências à frente do tricolor gaúcho (2010, 2013 e 2016), todas com certo grau de êxito, em especial a atual, quando levantou a taça da Libertadores de 2017. Nada mal.

Na outra ponta está Rogério Ceni. Multicampeão com o São Paulo, se aposentou do tricolor paulista em 2015 e assumiu o comando técnico do clube já no final de 2016. A aventura não durou muito tempo: a queda aconteceu pouco mais de seis meses depois da apresentação oficial no Morumbi e frustrou muita gente.

A balança pende para os dois lados: Falcão foi mal no comando do Internacional… e em três tentativas. Já Gunnar Solskjaer tem salvado a pátria (e a temporada) do Manchester United, com direito a uma épica classificação na Champions League. Basílio saciou o jejum do Corinthians em 1977, mas não vingou em nenhuma das quatro passagens como técnico (ninguém pode dizer que ele não tentou, não é mesmo?).

CENAS LAMENTÁVEIS, que não é bobo nem nada, decidiu ouvir especialistas para achar a resposta.

“Não vale a pena”

Beto Bianchi, técnico hispano-brasileiro que treina o Petro de Luanda, em Angola, pontua bem a diferença de sucesso entre um treinador e um jogador. “Como técnico, você depende de todos os jogadores que você tem no plantel. Já como jogador, só depende de si e os resultados positivos sendo jogador são mais fáceis (só depende do seu esforço). Os que conseguiram bons resultados como treinador, a imagem segue intacta, mas para os que não conseguiram, mancha muito a boa imagem que tinham”.

Bianchi já treinou a seleção de Angola e enfatiza: “Sempre que uma pessoa ‘assume’ ser treinador, sempre há um risco, porque é uma profissão muito ‘desvalorizada’ – e no Brasil mais ainda. Só na Inglaterra que o treinador tem o seu devido valor. Nos casos do Ceni e Renato Gaúcho, sem dúvida o risco foi maior. O futebol tem a memória ‘fraca’ e não valoram o que eles fizeram no passado”, conclui.

O jornalista Flávio Prado, da Rádio Jovem Pan e TV Gazeta, é ainda mais incisivo. “Não vale a pena. O cara é ídolo do time e de repente está sendo chamado de burro. No caso do Rogério Ceni, não havia nenhuma preocupação com o trabalho dele. Os caras que dirigiam o São Paulo não tinham a menor condição de saber se o trabalho era bom ou ruim e usaram o Rogério”, pontuou.

Prado lembrou a passagem de Zico e Dinamite pelas direções de Flamengo e Vasco, respectivamente. “O Zico deixou bem claro que não seria jamais técnico do Flamengo. Foi diretor e foi acusado de roubo, veja se pode? Roberto Dinamite foi destruído por ser presidente do Vasco”, lembrou.

Ceni arriscou estrear como técnico no Morumbi. E fracassou. (Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net)

“Vale a pena”

Do outro lado do Meridiano de Greenwich, João Castelo Branco, jornalista dos canais ESPN, traz uma visão diferente sobre o tema. “Acho que o ídolo voltando como técnico tem mais a ganhar do que a perder. O torcedor vai lembrar dele como jogador, pode até não dar certo como técnico, mas a vantagem de ser ídolo é que você chega com a boa vontade da torcida, vão te dar mais tempo, te tratar com carinho. É o caso do Solskaer, do Zidane, Guardiola”, opina o jornalista.

Castelo Branco também cita outros bons exemplos: “Simeone, Conte,  Cruiff… dá para não ir muito bem e não acabar com sua imagem de ídolo. O Alan Sheerer, técnico do Newcastle por poucos jogos, para tentar salvar o time do rebaixamento: o time foi muito mal, rebaixado, mas ele não perdeu a idolatria que ele tem em Newcastle. A tentação deve ser muito grande”, concluiu.

Mauro Beting, dos canais Esporte Interativo/Turner, Rádio Jovem Pan e UOL, corrobora a opinião do colega. Para ele, vale a pena se arriscar como técnico independentemente do clube, se há capacidade técnica como Zidane e Renato Gaúcho, além de vontade para gerir jogadores. Mas questiona: “Será que todo craque tem paciência para ensinar e treinar algo que para ele era absolutamente natural? Se não tiver, é melhor ficar em casa”.

Beting analisa que o caso de Renato Gaúcho é exceção, não regra. E cita outros exemplos bem sucedidos, como Telê Santana, que foi ídolo no Fluminense e campeão carioca, e Zidane, que “só não ganhou mais Ligas Espanholas porque tinha e tem pela frente um baita Barcelona, com Messi na proa”. Apesar do otimismo, Beting alerta: “O treinador-ídolo tem os primeiros dias, os primeiros jogos, as primeiras semanas – e no Brasil, infelizmente, não dá para falar meses – com uma proteção maior, mas a cada jogo que passa você acaba comparando o treinador no banco com aquilo que ele fez em campo, e essa comparação muitas vezes é odiosa, não tem como virar esse jogo”.

Outro adepto dessa visão é Luiz Ceará, da RedeTV. Ele opina que vale a pena, mas tem de ter preparação. “Isso acontece no basquete e no vôlei. Futebol tem suas peculiaridades. Não tem problema nenhum ser ídolo do clube e depois ser treinador. Vai muito da estrela, do talento e da convicção na maneira que o time dele vai jogar”.

A experiência de Rogério Ceni foi novamente citada. “Acho que o Rogério deveria trabalhar nas categorias de base e subir, mas, por sua própria característica, já quis dirigir o São Paulo e não deu certo, não por incompetência, mas as vezes não dá, não encaixa. Ele ainda vai ser campeão muitas vezes.”

A difícil missão de repetir o impossível (Foto: Divulgação / Twitter oficial Real Madrid)

Ele voltou

O mais recente ídolo-treinador tenta dobrar a estatística. Zinedine Zidane voltou ao Real Madrid, depois de passar ileso e carregar “somente” três Champions League na conta (no total, nove títulos em pouco mais de dois anos). Já falamos aqui na CL, sobre o retorno de Zizou.

Claro que nem todos têm o perfil de treinador – por mais que alguns achem que tenham. Mas já imaginou como seria o Garrincha técnico do Botafogo? Ou mesmo Mauro Shampoo, fracassando com toda a glória com o Íbis?

De fato é muito difícil prever ou apostar que o trabalho de um Professor Pardal dará certo, principalmente quando ele vem carregado de nostalgia e de esperanças que refletem o que ele foi em campo. O risco é iminente à profissão, mas os ídolos apostam mais alto.

Bem mais.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*