Copa América: o torneio de seleções mais antigo do futebol

Desorganizada e muitas vezes sem brilho, a Copa América resiste e se mostra mais forte que a Conmebol e seus interesses

O torneio de futebol mais antigo do mundo volta a ser disputado no Brasil (Foto: Divulgação / Conmebol)

Em janeiro a Conmebol realizou o sorteio dos grupos da Copa América 2019, que será realizada aqui no Brasil entre os meses de junho e julho. O torneio será disputado entre as dez seleções sul-americanas filiadas à confederação e terá como convidadas duas seleções da Ásia.

A Copa América é a competição de seleções mais antiga do mundo, tendo a sua primeira edição sendo disputada em 1916. O torneio, batizado à época de Campeonato Sul-americano de Futebol, foi organizado pela Argentina que, na ocasião, organizou o evento como parte das comemorações pelo centenário da sua independência. Além dos donos da casa, Brasil, Uruguai e Chile foram os convidados dessa disputa, com a seleção uruguaia estragando a festa dos Hermanos. O torneio foi considerado um sucesso, diante disso, Hector Rivadavia, dirigente da Federação Uruguaia de Futebol, propôs as associações de futebol das quatro seleções participantes, a criação de uma confederação, a Conmebol.

Os argentinos foram vice-campeões em casa na primeira edição da Copa América (Foto: Arquivo / AFA)

Até a disputa da primeira Copa do Mundo em 1930, no Uruguai, o torneio sul-americano era considerado a maior competição entre seleções do mundo e era disputada anualmente, não tendo sido disputada apenas uma vez, em 1918, quando o Brasil passava por um grande surto de Febre Amarela, o que obrigou o cancelamento do campeonato. Uruguai e Argentina se revezavam entre os campeões, algo que criava uma rivalidade cada vez mais acirrada entre os dois países, com seu ápice acontecendo após a derrota argentina para os uruguaios na final do Mundial de 30. Tal rivalidade fez com que o Campeonato Sul-americano de Futebol não fosse disputado por seis anos, tendo seu retorno apenas em 1935, quando o Peru serviu como país sede. Desde então, a competição voltou a ser disputada com certa regularidade com sedes fixas e com uma pequena intermitência em seus anos de disputa, geralmente a cada dois anos, mas em alguns casos ano a ano, a cada quatro ou até no caso de 1959, quando foi disputado duas vezes.

Obviamente, a Conmebol nunca foi um grande como exemplo de organização, infelizmente. Com diversos problemas entre ela e as associações participantes, muitas edições só foram reconhecidas anos depois. O descaso acabou fazendo com que muitos países enviasse seleções menores por diversas vezes, às vezes não enviando time algum. Um exemplo disso aconteceu na segunda disputa de 59, quando o Brasil enviou a Seleção de Pernambuco para representa-lo. Outro motivo para a perda da importância do campeonato, foi a criação da Copa Libertadores da América, no mesmo ano de 1959.

Em 1975 a competição foi batizada finalmente como Copa América, sem sede fixa para a disputa e com as partidas sendo jogadas ao longo do ano em cada país, sendo disputado a cada quatro anos. Vendo que esse formato não estava dando certo, em reunião realizada em 1986, a Conmebol decidiu voltar ao formato com país sede e definiu que sua periodicidade seria a cada dois anos e com a participação de suas dez seleções filiadas. Tal mudança trouxe um grande interesse de cobertura e transmissão por parte da Europa e América do Norte, trazendo de volta toda a repercussão positiva necessária para aquele torneio que um dia havia sido o maior do mundo.

É claro que mudanças são extremamente interessantes para o aumento e a comercialização de campeonatos, e a reunião de 86 foi extremamente importante para criar uma nova forma de a Conmebol organizar e vender seu torneio de seleções, mantendo sua tradição e trazendo de volta seus grandes craques para a disputa. Em 1987, na Argentina, atual campeã do mundo, foi realizada a primeira edição dessa nova era da Copa América. Brasil em 89 e Chile em 91 também mantiveram o formato de disputa com as dez seleções da Conmebol na disputa.

Argentina x Peru fazem o jogo de abertura da Copa América de 1987 (Foto: Arquivo / AFA)

A disputa de 1993 foi realizada no Equador. Nesse ano pela primeira vez o torneio teve a participação de 12 seleções, já que a Conmebol achou necessário criar uma padronização da forma de disputa em grupos. Assim nasciam os controversos convites a equipes de fora da América do Sul. De cara, México e Estados Unidos tiveram a honra de completar a lista de participantes. Membros da Concacaf, nossa confederação vizinha, até então, não era algo tão estranho ter a participação deles em nossa competição. Logo de cara, o México foi vice campeão, perdendo a final para a Argentina por 2 a 1.

México estreia na Copa América diante da Colômbia (Foto: Reprodução / Youtube)

Óbvio que a padronização do formato do torneio poderia servir como base para tal padronização. México e Estados Unidos também eram as seleções com o futebol mais nivelado com o jogado aqui em nosso continente, o que fazia o critério de escolha ser totalmente coerente quando aos convidados. Com a desistência dos Estados Unidos, a Costa Rica foi a convidada para a edição da 1997, na Bolívia, mantendo a coerência novamente por escolher outra seleção bem ranqueada das Américas do Norte e Central. Mas em 1999, na edição disputada no Paraguai, a Conmebol começou a mostrar que os interesses financeiros realmente poderiam falar mais alto que qualquer outro critério continental ou técnico. O Japão foi a primeira seleção de fora do continente americano a participar da Copa América, algo bizarro, se pensarmos que uma seleção de um continente do outro lado do mundo, poderia conquistar o título.

Japão e Peru em campo pela Copa América 1999 (Foto: AFP / Daniel Garcia)

Após 2001, o torneio passou a ser disputado a cada três anos. Em 2007, com a realização da edição venezuelana, a Copa América passaria a ser disputada de quatro em quatro anos, e começaria um novo revezamento entre os países que a sediarão. A única exceção foi a Copa América do Centenário, disputada em 2016 nos EUA, em homenagem aos 100 anos de fundação da confederação. Onde o campeonato foi teve 16 equipes participantes (10 da Conmebol e 6 da Concacaf). Com um grande viés comercial, e sem a presença da maioria dos dirigentes das associações participantes, todos investigados ou presos por corrupção, o relativo sucesso de público e audiência, aumentaram ainda mais as chances de uma futura fusão entre as duas confederações do continente americano para a organização de uma Copa América nesse formato.

Em 2004, Adriano comemora um dos gols mais inesquecíveis entre as conquistas da Seleção Brasileira (Foto: AFP)

Os interesses financeiros começam a ser cada vez mais priorizados no futebol, um fenômeno natural que, aos poucos, fomos nos acostumando. Mas os artifícios utilizados pela Conmebol, mais uma vez, vão de encontro às tradições e cultura do nosso continente. Criar uma competição de seleções unificada dentro de todo o continente americano, como o evento de 2016, é algo que está muito próximo e talvez seja a solução mais normal a ser adotada para se evitar um novo esvaziamento e perda de interesse dos seus participantes. Essa é possivelmente a iniciativa que menos possa fugir dos nossos padrões, no sentido que somos um grande continente. Lembrando, isso não tem nada a ver com a Copa Libertadores da América, que fique claro.

Em junho e julho desse ano teremos a Copa América aqui em nosso país. O mesmo formato utilizado desde 1993 será utilizado e, mais uma vez, duas seleções de fora da Conmebol foram convidadas. De forma inusitada, não teremos vizinhos da América do Norte/Central participando, dessa vez teremos Catar e Japão, coincidentemente, campeão e vice da Copa da Ásia. Não podemos dizer que são vagas vendidas, mas o retorno de mídia e audiência que o torneio ganha com a participação do país sede da próxima Copa do Mundo, somado a uma das maiores forças comerciais do continente asiático, podem fazer dessa a edição com o maior faturamento da história da Copa América.

Grupos da Copa América 2019 (Imagem: Reprodução / CBF)

Os ingressos já estão todos esgotados após duas fases de venda, mesmo para os jogos que, teoricamente, são de menor interesse do público. O brasileiro se acostumou a receber grandes competições do esporte mundial. Foi assim com a Copa de 2014 e com os Jogos Olímpicos de 2016, então, não seria diferente na maior competição entre países do nosso continente.

Independente das credenciais de cada equipe, é algo surreal pensar na possibilidade de termos uma equipe de fora da América vencendo uma Copa América. Alguns lembrarão que a Austrália disputa a Copa da Ásia e foi campeão do torneio em 2015 mas, em 2005, os australianos foram convidados a integrar a AFC (Confederação Asiática de Futebol). Isso aconteceu devido a sua maior evolução frente aos adversários de seu continente. Por isso, nenhum argumento relativo à competitividade do esporte, pode justificar a participação de Japão e Catar na Copa América.

É difícil pensar numa volta do formato antigo com dez seleções. O formato atual com 12 países onde se faz necessário o convite a duas nações de fora do continente, também pode estar com seus dias contados, ou passará a ter esses convites feitos com interesses de retorno financeiro. Impossível imaginar um retorno de seleções como Costa Rica, Jamaica e Honduras disputando novamente a Copa América nesse formato. Agora o que nos resta é torcer para que o bom sendo entre os dirigentes que comandam o futebol da América do Sul, não apaguem do mais antigo campeonato de seleções do mundo.

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