Craque de verdade era ele

Craque de verdade era meu Tio. Não que ele fosse melhor que os caras que viraram profissional, mas é que ele jogava sem treinar a semana inteira, sem concentração e sempre de ressaca. Acho inadmissível e mesmo chocante alguém que viu meu Tio com a 10 não ter se encantando. Não sei mesmo como ele não virou busto na beirada do campo do Montreal, “campo” em que o time jogava. Ele dominava a bola no meio, levantava a cabeça, parecia admirar todo aquele momento, parecia o Zico dentro do Maracá lotado, meu Tio era o craque de dois torcedores. Tudo porque quem torcia pelo time era normalmente meu primo e eu, do lado de fora alguns curiosos, o vendedor de picolé e um bêbado, que sempre marcava presença. O campo, é claro, jamais voltará ao que era outrora e talvez até não veja mais outro 10 tão clássico, mas julgo necessário falar do meu Tio a quem não viu, ou aos primos das novas gerações e lembrá-lo às minhas coevas.

Craque da várzea
Craque da várzea

O Murrinha, apelido que ganhou da família, assim como toda craque da Várzea, nunca foi o jogador com mais vontade, o mais falador e nem mesmo o mais responsável do time. Todo mundo sabe que jogador Amador, quando é bom de bola chega de ressaca, atrasado e odeia primeira fase, é básico isso. Craque de Várzea gosta de mata-mata de jogo valendo mais que sorriso, era nessa hora que ele crescia, que resolvia, que ele chamava o jogo, batia no peito, pedia a faixa, ele era craque.

Meu Tio tinha que jogar pra sempre, naquele mesmo campo de Várzea que a gente ia todo sábado à tarde. Na época não tinha essa de gravar, a gente guardava na memória, na resenha no Trailer da buneca, que ficava em frente o campo. Meu tio era craque e o Campo do Montreal era seu lar, ali o futebol ainda respirava e a função de Meia-armador existia.

Texto: Daniel Bravo

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