Crise no futebol argentino: sem títulos, sem presidente, sem treinador e sem seu maior craque

Entenda um pouco sobre uma das maiores crises da história do futebol argentino

Messi chora o pênalti perdido na final da Copa América Centenário (Mike Stobe/AFP)

¡Hola, hermanos! Hoy vamos a hablar de algo muy grave, la crisis en el fútbol argentino. Algo que sirve de reflexión para todos los países de América del Sur, en la forma que gestionar su fútbol, este deporte que tanto queremos!

A derrota para o Chile na final da Copa América Centenário, nos Estados Unidos, expôs ao mundo uma ferida que está aberta há um bom tempo no futebol argentino. Os 23 anos sem títulos com a seleção principal é apenas um reflexo de tudo que acontece dentro da Associação Argentina de Futebol (AFA).

O pênalti perdido por Lionel Messi é algo que faz parte do futebol. Suas lágrimas por não ter dado a sua torcida o tão esperado título reflete a sua decepção pelo fracasso, mas, o anúncio de encerrar a carreira pela sua seleção pode ter uma razão muito maior do que essa derrota.

A crise na AFA começou a ganhar as manchetes com a morte do seu presidente, Julio Grondona, em julho de 2014, após mais de 30 anos à frente da entidade. O então interino, Luis Segura, logo marcou novas eleições para dezembro de 2015, porém, desde o princípio, ele mostrou total intensão de se manter a frente da associação. Seu principal adversário para continuar no poder era Marcelo Tinelli, vice-presidente do San Lorenzo, apoiado por uma pequena maioria dentro da AFA.

Na data marcada, 75 eleitores participaram do primeiro pleito democrático em 36 anos, mas o resultado não poderia ser mais surpreendente. Segura e Tinelli acabaram empatados com 38 votos, com um incrível somatório de 76. Obviamente, a eleição não foi homologada, já que ficou clara a fraude ocorrida. Segundo Julio Ricado Grondona, filho do ex-presidente falecido, esse voto a mais teria sido dado pelo “fantasma” do seu pai.

Com o fim do seu mandato no último mês, Luis Seguro não é mais presidente da AFA, porém, as novas eleições ainda não foram marcadas e a Associação Argentina de Futebol segue sem comando. Seguro é investigado pelo Ministério Público argentino por diversas irregularidades e desvio de dinheiro público, já que o futebol no país tinha como seu maior patrocinador o governo, e foi provado que essa verba muitas vezes era desviada pela federação antes de chegar aos clubes.

No último dia 05, o técnico Tata Martino pediu demissão do seu cargo. Salários atrasados e as dificuldades para montar a seleção que vai participar dos Jogos Olímpicos teriam sido cruciais para a renúncia do comandante, já que de uma longa lista de 57 atletas, Martino só teria 17 disponíveis para a Olimpíada no Rio. Segundo o presidente do Comitê Olímpico da Argentina (COA), Gerardo Werthein, a falta de empenho da AFA na liberação de jogadores deixava o país com 50% de chances de ficar de fora do evento. Tata deixa a seleção após 2 anos no cargo, tendo comandado a “albiceleste” em 29 ocasiões, com 19 vitórias, 7 empates e apenas 3 derrotas, tendo sido duas vezes vice-campeão da Copa América diante do Chile, perdendo nos pênaltis em ambas ocasiões.

Gerardo Martino pede demissão da seleção argentina (Foto: CCTV)
Gerardo Martino pede demissão da seleção argentina (Foto: CCTV)

Em uma rápida resposta, os dirigentes argentinos promoveram Julio Olarticochea da Seleção Sub-20 à Olímpica. Mas, a busca de um nome para o time principal parece bem mais complicada. Com a recusa de Diego Simeone, assim como de Jorge Sampaoli, que acabou de assumir o Sevilla da Espanha, resta aos Hermanos torcer pelo aceite de Marcelo “El Loco” Bielsa. O treinador havia acertado sua ida para o Lazio da Itália, mas deixou o clube poucos dias após o acordo, alegando que o clube italiano descumpriu alguns acertos feitos antes da assinatura do contrato, já que não havia sido efetivada nenhuma das contratações que estavam previstas no “programa de trabalho” feito junto ao presidente.

Durante a Copa América Centenário, o craque Lionel Messi já havia reprovado a falta de organização da AFA. O jogador reclamou no atraso de um dos voos da seleção durante a competição, mas deixou claro que a bronca vinha de longa data, não apenas pela demora nas viagens. Segundo o atleta, jogadores de uma seleção de ponta precisam “viajar bem, comer bem e descansar adequadamente para as partidas”.

Messi perdeu sua quarta final jogando pela sua seleção, mesmo assim, parece que finalmente caiu nas graças da torcida argentina que reconhece a genialidade da sua principal estrela. Até pouco tempo atrás, havia muita desconfiança quanto à dedicação do camisa 10 atuando pela Argentina. O jogador, além de não cantar o hino de seu país, era muito criticado por não atuar com a camisa azul e branca, como o mesmo brilho e genialidade de quando atua com a camisa do Barcelona. Mas, após mostra-se com muita entrega na última Copa do Mundo e realizar uma brilhante participação até a final da Copa América, Lionel Messi mobilizou toda uma nação que pede para que ele reconsidere a decisão de encerrar a sua carreira frente à seleção argentina.

O futebol do nosso país vizinho encontra-se órfão, mas nesse momento de grande dificuldade, Diego Maradona se ofereceu para ser o “Salvador da Pátria”. O ex- craque se reuniu com dirigentes da AFA, indicado pelo presidente da FIFA, Gianni Infantino, mas não saiu nada satisfeito com os cartolas da federação. Maradona não aceita que seja feita qualquer negociação para resolver os problemas na federação. Para ele, a mesma máfia “grondonista” continua dando as cartas na entidade mesmo após a morte de Julio Grondona. Ele considera que só uma forte auditoria, o afastamento e prisão dos dirigentes que lá existem pode transformar a AFA em uma instituição limpa e transparente.

Diego Maradona é nomeado pela FIFA para ajudar a resolver a crise na AFA (Foto: AFP)
Diego Maradona é nomeado pela FIFA para ajudar a resolver crise na AFA (Foto: AFP)

O governo argentino também faz das suas para aumentar ainda mais a crise estabelecida. O presidente do país, Mauricio Macri, considera que o futebol é um mundo de poder que mexe com a paixão de milhares de argentinos, e isso se relaciona diretamente com a política – lembrando que Macri foi presidente do Boca Juniors entre 1991 e 2007.

O presidente é a favor da criação de uma Superliga e conta com o apoio do atual presidente do Boca, assim como dos mandatários dos rivais River Plate, San Lorenzo e Racing. Hugo Moyano, presidente do Independiente, também é a favor da Superliga, mas com algumas ressalvas. Além disso, ele também pretende se candidatar a presidência da AFA, mas como Moyano faz oposição ao governo Macri, o presidente argentino não quer o dirigente envolvido com a associação de futebol do seu país. O outro candidato é o apresentador de TV, Marcelo Tinelli, que, em seu programa, ridiculariza Macri e os ministros argentinos com imitações a paródias das mais cômicas, e também é alvo de resistência do governante. Os clubes de menor porte são contra a criação da Superliga, pois temem ser prejudicados, já que eles ficariam mais vulneráveis economicamente nos critérios de divisão das cotas de televisão.

A crise na AFA serve de alerta para muitas federações da América Latina e, infelizmente, é o reflexo de administrações entregues nas mãos de dirigentes por incontáveis anos, e que instituiram a corrupção como “modus operandis” obrigatório na gestão do nosso futebol.

¡Hasta luego, Hermanitos!

Por: Wagner Ponce @wagnerponce

2 Comentários em Crise no futebol argentino: sem títulos, sem presidente, sem treinador e sem seu maior craque

  1. Parece que por lá eles estão se mexendo…
    … Já por aqui, o Presidente não viaja por medo de ser preso, o atual técnico pede a renúncia do presidente e meses depois aceita o cargo de técnico (com abraço amigo e tudo) e os Parlamentares trabalham dia e noite para enterrar uma CPI que viria a investigar alguma coisa.

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