Dá-lhe, D’Alessandro

ÍDOLO COLORADO

Ricardo Santos, RS 

Um argentino de Porto Alegre. Não só pelo fato de ter recebido a honraria de cidadão da capital dos gaúchos, mas pelo tempo nos solos pampas e por tudo que fez no Sport Club Internacional. Com a interrupção de uma temporada (2016) – a mais triste da história dos colorados – são oito anos de D’Alessandro no Inter, entre 2008 e 2017. El cabezón não sabe o que é passar uma partida despercebido. Seja com jogadas mágicas ou importunando a vida do árbitro. Quando ele atua, marca presença. Da camisa 15, em respeito ao companheiro que comandava o meio-campo Alex, até fardar a imponente 10: a do meia pensador, do dono da orquestra. O gringo chegou a Porto Alegre há quase uma década para se tornar ídolo.

O capitão colorado. (Foto: divulgação/Internacional)
O capitão colorado. (Foto: divulgação/Internacional)

A carreira de D’Alessandro começa junto ao novo milênio. Ingressou no profissional do River Plate, time onde fez toda a categoria de base. Paralelo às três temporadas nos milionários, o meia era bem quisto por José Pekerman, treinador da seleção sub-20 dos Hermanos.

D’Alessandro foi campeão mundial na categoria em 2001 e eleito segundo melhor jogador da competição. Apesar do início promissor na seleção de base, na principal nunca obteve tanto destaque. Foi medalha de ouro nos jogos Olímpicos de Atenas em 2004, mas sofreu com ótimas gerações de meias argentinos. Forte concorrência. No momento em que se consagraria, participando da conquista da Argentina na Copa América daquele mesmo ano, viu Adriano Imperador, nosso querido Didico, empatando no último minuto e tirando o título dos hermanos nos pênaltis. O então camisa 10 errou sua cobrança. Episódio que D’Alessandro afirma até hoje “assombrá-lo”.

D'alessandro (de costas) com a 10 vendo Adriano Imperador fazer o gol de empate do Brasil. (Foto: Reprodução na internet)
D’Alessandro (de costas) com a 10 vendo Adriano Imperador fazer o gol de empate do Brasil. (Foto: Reprodução na internet)

Na Europa, passou por três clubes: Wolfsburg, Portsmouth e Real Zaragoza. Foram cinco temporadas de pouco destaque fora das terras sudacas. É uma pena que D’Alessandro não tenha dado tão certo no Velho Continente…uma pena, para os europeus. Criou-se o pensamento de que para um jogador ser considerado um craque, teria que construir uma carreira sólida para além do Oceano. O argentino é a prova de que isso não é tão verdadeiro. Em 2008, chegou ao Inter para mostrar todo o seu potencial. É um casamento perfeito. O gringo precisava de um clube que o acolhesse, e o Inter, de um ídolo pós-Fernandão.

Tempestivo e provocador, D’Alessandro pode ser um tipo de ídolo que os colorados nunca tiveram. Outros tempos mostravam um Falcão, de qualidade técnica imensa, porém de humor mais contido. Mais recente, Inter teve Fernandão. Jogador de raça e alma. Comandante. Entretanto, um líder mais sóbrio, menos extravagante. O meia é o ídolo que mexe com o rival. Que alfineta, levanta caixão e faz binóculo (brincadeira para simular a distância entre a dupla grenal). Devidamente respondido, quando derrotado pelo lado azul. Apelidado pelos colorados de homem-grenal, o argentino sabia como incendiar cada clássico e ser um protagonista do elogio e da crítica. Mas essa relação com o Grêmio é algo a se tratar em outra oportunidade e que divide opiniões.

A relação entre o ídolo colorado e a torcida rival é uma incógnita. (Foto: reprodução na internet)
A relação entre o ídolo colorado e a torcida rival é uma incógnita. (Foto: reprodução na internet)

O que é preponderante é falar de Andrés D’alessandro e Internacional.

Como previamente relatado, D’alessandro não chegou “tomando conta”. Isto pois, viu que o time formado por Tite, no ano de 2008, era muito bem montado e tinha em Alex, o criador do meio-campo. Graças a versatilidade do treinador, os colorados puderam ver uma dupla de meias inesquecível para essa geração. Alex e D’Alessandro, dois canhotos pensadores lado a lado. Esse Inter se sagrou campeão da Copa Sul Americana.

Porém, no ano seguinte, Alex deixou o Internacional. A camisa 10 naturalmente fluiu para o argentino. Onde permanece até então, parecendo estar tatuada, encrustada na pele do meia. A partir daí o Internacional foi conduzido sob a mesma sintonia. Entravam e saiam diferentes técnicos e jogadores; contudo, no centro do campo sempre estava o mesmo “cabezón”. Falando o tempo todo. Colando no juiz a cada lance apitado. Provocando marcadores. Pifando seus companheiros. Seu nível de atuação continuava a subir e em 2010 não só foi campeão da Libertadores da América, como eleito o melhor jogador do continente. Lembram o que foi dito sobre um jogador não precisar brilhar na Europa para ser um craque? Acredito que um título de melhor jogador da América pode estampar bem o que quero dizer.

Passavam-se as temporadas e lá permanecia o moicano no meio-campo do Inter. Muitas vezes questionado, principalmente pela “difícil” imprensa gaúcha. Não passava incólume. O fato de ser comandante dos times colorados fazia com que cada tropeço recaísse sobre si, levantando dúvidas sobre seu futebol e temperamento. A queda para o Mazembe no mundial de 2010 seria um prato cheio para a crítica.

No entanto, D’Alessandro nunca se omitiu. E nunca deixou de ser o jogador caricato que foi no Inter. Ninguém, por mais ferrenha crítica, conseguiu mudar o jeito do argentino de se comportar em campo. Brinca com a alcunha de “segundo juiz do jogo”. Recentemente, em entrevista ao “Bem Amigos” da Sportv, afirmou: “Entendo mais que muitos” – quando questionado por Arnaldo Cezar Coelho se na aposentadoria, teria vontade de se tornar árbitro.

D'alessandro já foi ábitro por alguns minutos em seu jogo festivo de fim de ano. (Foto: Juarez Machado/GES)
D’Alessandro já foi árbitro por alguns minutos em seu jogo festivo de fim de ano. (Foto: Juarez Machado/GES)

Matou no peito a vitória e a derrota. Foi líder com a bola e o microfone. Diz-se que era dono do vestiário. Sem ele, o Inter de 2016 foi apático e caiu para a série B. No seu retorno, o Colorado vai reencontrando o caminho passo a passo. Nada apaga a história de D’Alessandro no Inter e no Rio Grande do Sul. Anualmente, realiza um jogo festivo no Beira-Rio para ajudar instituições de caridade. Jogador bom de se criticar pelo lado dos rivais. Craque a se aclamar por quem o idolatra. Andrés Nicolás D’Alessandro é um marcante camisa 10 do futebol latino-americano.

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