Da propina ao abandono, o fim do Maracanã – Parte I

Como o “Maior do Mundo”, destruído e refeito ilegalmente, se tornou uma arena sem brilho que ninguém quer

Vista aérea do Maracanã, em março de 2011: um templo destruído por uma força estranha “que ergue e destrói coisas belas”. (Foto: Ricardo Moraes/Reuters)
Por Marcelo David, RJ

Nos últimos anos, o Brasil viveu uma inegável fase de crescimento econômico, rara em se tratando de um país colonizado e com forte viés escravocrata. Esse cenário, que permitiu a redução do desemprego, a ampliação do acesso ao crédito e ao consumo e um importante movimento de mobilidade social, onde enormes grupos deixaram a pobreza extrema rumo a estratos sociais mais elevados, criou uma onda de otimismo espertamente aproveitada por políticos e empresários país— e mundo — afora.

Assim, o Brasil e sobretudo, o Rio de Janeiro, viveram um período em que sediaram grandes acontecimentos mundiais — naquela que ficou conhecida como a “era dos megaeventos”. A cidade do Rio, ex-capital do país, recebeu num espaço de 7 anos alguns dos maiores eventos do mundo, a saber: os Jogos Pan-Americanos (2007), os Jogos Mundiais Militares (2011), a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, mais conhecida como Rio+20 (2012) e a Jornada Mundial da Juventude da Igreja Católica, com a presença do Papa Francisco (2013).

Três eventos ocorridos nessa época merecem nossa atenção especial. A Copa das Confederações em 2013, foi o primeiro contato direto da cidade com o chamado “padrão FIFA”. Paralelamente à competição, o país entrou em uma convulsão social catalisada pelo aumento das passagens de ônibus na cidade de São Paulo, mas que logo depois alcançou dimensões nacionais, com pautas diversas, que giravam em torno da genérica e simplista “luta contra a corrupção”. No entanto, graças à forte repressão estatal aos protestos nas ruas de inúmeras cidades brasileiras, o torneio em si ocorreu sem maiores problemas.

No ano seguinte, a Copa do Mundo (2014) foi um absoluto sucesso, fora e dentro de campo, 7 x 1 à parte. Brasileiros, turistas, esportistas, políticos e empreiteiros fizeram a festa no país que isentou a FIFA de pagar R$ 1 bilhão em impostos, garantindo à entidade um lucro de quase R$ 9 bilhões com a realização do Mundial — um recorde.

Em 2016, com a realização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio de Janeiro, a era dos megaeventos na cidade teve seu fim — e seu ápice. Após passar anos imerso em obras de mobilidade urbana, com a construção de novas vias e a criação de novos módulos de transporte público, o Rio pôde enfim, ver tudo funcionando. Pessoas de todos os cantos, credos e gostos vieram à cidade conhecida em todo o planeta para celebrar o esporte e a integração entre pessoas.

Mas, para que tudo isso acontecesse, o Maracanã precisou deixar de existir.


A tarde de um certo domingo nublado e sem chuva dominava, preguiçosa, a paisagem da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Sua formação, espremida entre montanhas, lagoas e o mar, conferia um ar ainda mais sereno àquele cenário. Suas ruas, vazias naquele dia de inverno em 2010, indicavam a disposição do povo carioca em aproveitar aquele feriado prolongado de Independência fora da cidade — ou, se nela, recluso, sem maiores arroubos de euforia. Era uma sensação de normalidade tão grande que, aos mais atentos, dava a impressão de ser normal demais.

Porém, aquele 5 de setembro parecia guardar toda a energia do Rio enquanto cidade para o histórico endereço situado na Rua Professor Eurico Rabelo, s/n°. Ali, a partir das quatro horas daquela tarde de domingo, Flamengo e Santos disputavam uma partida válida pela 19ª rodada do Campeonato Brasileiro de futebol. O jogo apresentou um baixíssimo nível técnico, talvez pela ausência de um certo menino chamado Neymar, que não jogara a partida por cumprir suspensão. Tivemos, pois, uma partida modorrenta para um domingo idem — e o confronto, não à toa, terminou zero a zero.

Em meio a escombros, o Maracanã se despede dos seus. (Foto: Márcio Alves/Agência O Globo)
Em meio a escombros, o Maracanã se despede dos seus. (Foto: Márcio Alves/Agência O Globo)

Placar justo, mas imerecido diante do tamanho daquele palco. Falamos, afinal, do colossal Estádio Jornalista Mário Filho, o Maracanã, que a todos espantava com sua imponência desde 1950. Mas o estádio, apesar de todo o seu gigantesco passado, agonizava naquele domingo. Palco de festivais de música, de chegadas do Papai Noel, de vestibulares e provas de concurso público, de recitais do futebol carioca, do Santos, do milésimo gol de Pelé e da Seleção Brasileira, o Maraca dava, num dia marcado pela melancolia, o passo final rumo ao precipício.

Após um jogo tão ruim, dava-se a impressão de que o futebol, preguiçoso como a cidade naquele dia, tinha se despedido daquele templo antes mesmo de os times deixarem o gramado. O apito final do árbitro, dado enquanto caía a tarde, também fazia cair a ficha: sob o testemunho de mais de 35 mil pessoas, aquele era o último jogo no Maracanã antes de seu fechamento para obras que, em tese, melhorariam o estádio ante os megaeventos que dia após dia se aproximavam da cidade cheia de encantos mil.

Após o jogo entre Flamengo e Santos, o placar se despede da torcida: era um “Volto já!” de quem nunca mais voltaria. (Foto: Ivo Gonzalez/Agência O Globo)
Após o jogo entre Flamengo e Santos, o placar se despede da torcida: era um “Volto já!” de quem nunca mais voltaria. (Foto: Ivo Gonzalez/Agência O Globo)

O início do fim

A interdição em setembro de 2010 deu início a um longo e turbulento período de obras no Maracanã — mais um, num estádio cuja história é marcada por reformas visando “melhorias” para a realização de grandes eventos. Em menos de 10 anos, o velho Maraca havia passado por duas grandes intervenções: uma para a realização do Mundial de Clubes da FIFA de 2000 e a outra para a realização das cerimônias de abertura e de encerramento dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007.

No entanto, tais intervenções não alterariam de forma decisiva as características originais do Maracanã — em que pese a colocação de cadeiras em todos os seus setores, em 2000, e sobretudo o lamentável fim da mítica geral, em 2005. Mesmo que tenham despertado críticas e fomentado debates, essas mudanças possibilitaram um relativo ganho em relação ao conforto, além de terem preservado a imponência do estádio, seu desenho original e principalmente, a marquise e a arquibancada monumentais, tombadas em razão de sua imponência pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

O governo do estado do Rio de Janeiro ignorou esse tombamento. E, em dezembro de 2010, após demolir o anel inferior, iniciou a demolição do anel superior do Maracanã, alegando haver um “padrão de visibilidade exigido pela FIFA” que deveria ser atendido, de acordo com Hudson Braga, secretário estadual de Obras à época, durante a gestão do governador Sérgio Cabral (PMDB).

Início da demolição do anel superior do Maracanã, em dezembro de 2010. (Foto: Fernanda Almeida/Secretaria de Obras do Estado do Rio de Janeiro)
Início da demolição do anel superior do Maracanã, em dezembro de 2010. (Foto: Fernanda Almeida/Secretaria de Obras do Estado do Rio de Janeiro)

Em abril de 2011, o então superintendente do IPHAN, Carlos Fernando de Souza Leão Andrade, autorizou a demolição da marquise do Maracanã, sob a alegação de que precisava, com aquilo, “atender às determinações da FIFA”. O ofício assinado por Souza Leão atropela o tombamento garantido pelo próprio instituto que representava e despreza o entendimento de conselheiros do IPHAN que, à época, foram enfáticos ao dizer que a decisão do superintendente era um erro: “demolir a marquise, demolir as arquibancadas é demolir o Maracanã”, repudiou o conselheiro Nestor Goulart Reis de Andrade.

Com exclusividade, via ESPN, os repórteres Lúcio de Castro e Gabriela Moreira mostraram que Souza Leão, quando autorizou pelo IPHAN, a demolição da marquise do Maracanã, era funcionário do governo do estado. Segundo a mesma reportagem, após deixar o instituto, o arquiteto foi agraciado no governo com um cargo cujo salário girava em torno de R$ 10 mil. Em resposta à matéria, Souza Leão não viu conflito de interesses no fato de ter atendido uma solicitação do governo do estado sendo funcionário do mesmo.

Souza Leão e Hudson Braga disseram seguir diretrizes da FIFA ao demolirem todo o estádio, mas o projeto original de reforma do Maracanã, aprovado pela entidade máxima do futebol mundial, previa apenas a reestruturação dos anéis superior e inferior do templo. No entanto, o governo decidiu derrubar também a marquise, extrapolando as exigências da própria FIFA — e criando o cenário para que assim fosse construído um novo estádio no lugar do velho, aumentando os gastos com uma obra que custou aos cofres públicos mais de R$ 1 bilhão (o dobro do previsto inicialmente), segundo dados do Ministério do Esporte. A quem, portanto, interessava essa abrupta ampliação das reformas?

Em fevereiro de 2013, no início da instalação da lona tensionada, que substitui a marquise monumental: é o Novo Maracanã tomando forma. (Foto: Ricardo Moraes/Reuters)
Em fevereiro de 2013, no início da instalação da lona tensionada, que substitui a marquise monumental: é o Novo Maracanã tomando forma. (Foto: Ricardo Moraes/Reuters)

Atualmente, Hudson, o ex-secretário de obras, e Cabral, o ex-governador, estão presos no Rio, acusados de operarem um esquema que cobrava propinas de empreiteiras para a realização de obras no estado entre 2007 e 2014. Cabral é acusado de cobrar, apenas para si mesmo, propina de 5% — cerca de R$ 30 milhões — para as empreiteiras que tocaram a obra do Maracanã (Andrade Gutierrez, Delta e Odebrecht), além de mais 1% do custo total da reforma para o Tribunal de Contas do Estado, responsável pela fiscalização dos contratos referentes à obra.

A Odebrecht, inclusive, além de ter destruído o Maracanã e construído uma arena em seu lugar, em 2013 ganhou a concorrência para a administração do estádio por 35 anos, em um consórcio formado por ela (90% de participação acionária), AEG (5%) e pela IMX (5%), do empresário Eike Batista. Em 2015, meses após a Copa do Mundo, a IMX deixou o consórcio, vendendo sua parte para a Odebrecht, que mantém a gestão do estádio junto com a AEG, empresa especializada na organização de grandes eventos. Critica-se o fato de a Odebrecht ter se candidatado para gerir um estádio que ela mesma construiu, pois isso poderia levá-la a ter acesso a informações privilegiadas sobre a obra, configurando um evidente conflito de interesses.

Na manhã desta segunda-feira (30), Eike Batista foi preso no Rio, acusado de pagar propina a Sergio Cabral  para que o ex-governador o “beneficiasse” em obras do estado— Maracanã incluído. Eike, Cabral e Hudson Braga estão no Complexo Penitenciário de Bangu-Gericinó, na zona oeste da cidade. Como se vê, praticamente todos os envolvidos com a operação do estádio têm problemas com a Justiça — o presidente do Grupo Odebrecht, Marcelo Odebrecht, está preso no Paraná desde junho de 2015. Marcelo responde pelos crimes de corrupção ativa, lavagem de dinheiro e associação criminosa, além de já ter sido condenado a 19 anos de prisão por envolvimento no esquema de corrupção descoberto na Petrobras.

Hudson Braga, Sérgio Cabral e Eike Batista: propinas e favores em obras no RJ levaram o trio à cadeia. (Fotos: Clarice Castro/Reproduções da Internet)
Hudson Braga (à esq.), Sérgio Cabral e Eike Batista: propinas e favores em obras no RJ levaram o trio à cadeia. (Fotos: Clarice Castro/Reproduções da Internet)

Toda essa engenharia corrupta, apesar das suspeitas, só foi desvendada nos últimos meses — após, portanto, a realização dos megaeventos na cidade. Eis o “legado olímpico”: um Rio de Janeiro em agonia, que não consegue sequer pagar seus servidores, e sem qualquer perspectiva de melhora no horizonte.

E de lá, desse mesmo horizonte, chegava um aviso: a situação do Novo Maracanã ainda iria piorar. E muito.

Leia a segunda parte da reportagem: em meio a furtos e abandono, qual será o destino do Maracanã?

9 Comentários em Da propina ao abandono, o fim do Maracanã – Parte I

  1. Absolutamente enojante. Se o estádio fosse destruído sem desvio algum eu não estaria tão revoltado, mas da forma que foi… Um palco concebido em 50 pra dar alegria a população e que o fez durante todos esses anos, destroçado pra dar lugar a um monumento que não tem função social alguma. Tanto é que há empresas querendo lucrar com ele.

  2. Um detalhe bem importante logo no primeiro parágrafo e que arruina uma matéria até que bem boladinha é o seguinte: Os Estados Unidos e a Austrália também foram colonias e de forte viés escravocrata. A diferença deles pro Brasil é que eles nunca tiveram um golpe de estado no seu auge economico igual o Brasil teve em 1889, seguido de diversos outros momentos de instabilidade politica. Enquanto estamos indo prá sétima republica, os USA estão na primeira e o Canadá ainda é parte do império mais velho da história e tecnicamente uma monarquia.

    • Exatamente, Alexios. Tínhamos uma nação próspera e em franco desenvolvimento… para culminarmos, dentro de alguns anos, num país completamente falido financeira e moralmente após o golpe de 1889. Só quem nunca estudou história não reconhece que nosso período mais próspero foi o período monárquico.

    • Alexios, acho que você não percebeu que eu classifiquei a fase de crescimento econômico em um país como o Brasil como “rara”, e não única – tá na primeira frase. No dicionário, “raro” é “tudo aquilo que não é comum”, e você pegou três exemplos que são incomuns – basta ver o que dezenas de países colonizados em África sofrem até hoje, por exemplo.

      Portanto, sugiro que leia com um pouquinho mais de atenção, e veja se a matéria está mesmo “arruinada”. Ah, e obrigado pelo “bem boladinha”. Volte sempre!

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