Da propina ao abandono, o fim do Maracanã – Parte II

Na segunda parte da matéria sobre o fim do Maior do Mundo, saiba porque a nova arena não é assumida por ninguém

Em fevereiro de 2013, no início da instalação da lona tensionada, que substitui a marquise monumental: é o Novo Maracanã tomando forma. (Foto: Ricardo Moraes/Reuters)
Em fevereiro de 2013, no início da instalação da lona tensionada, que substitui a marquise monumental: é o Novo Maracanã tomando forma. (Foto: Ricardo Moraes/Reuters)
Por Marcelo David, RJ

Criado em 1991, desativado quatro anos depois e reativado em 2002, o Grupamento Especial de Policiamento em Estádios (GEPE) da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro cumpriu importante função no combate às brigas nos estádios que, nos anos 1990, criaram uma cultura de violência que afugentou famílias inteiras das arquibancadas. Com o reforço no policiamento no interior dos estádios, as brigas, combatidas pelo GEPE, se tornaram cada vez mais raras. No entanto, os confrontos migraram para as ruas do entorno das praças esportivas, ou até para bairros mais afastados, onde o Estado não consegue mascarar as falhas estruturais de sua política de segurança pública.

Moradora do bairro do Maracanã há mais de 30 anos e frequentadora assídua do estádio, a jornalista Cristina Dissat viu dezenas de brigas e confusões potencializadas pela dificuldade do poder público em lidar com multidões. Cansada desse cenário, resolveu agir fazendo o que sabe: reportar. E, em 2004, criou o blog Fim de Jogo, com o objetivo de contar tudo o que via ali, da janela de seu apartamento.

O blog de Cristina nasceu com um slogan: “acaba o jogo, começa a transmissão”. Sua função, inicialmente, se limitava a abordar os conflitos acontecidos ali, e os transtornos causados a partir deles. Porém, com o crescimento da repercussão de seu trabalho, Cristina passou a abordar outros temas: informações sobre ingressos, abertura de portões, chegada e saída de torcedores, condições de trânsito e tudo o que se relacionasse com os eventos ocorridos no Maracanã — fiscalizando-o, inclusive, durante o período de obras que forçaram o seu fechamento.

Com a inauguração do Novo Maracanã, o bairro parecia voltar, aos poucos, à normalidade. Mas logo Cristina perceberia algo errado com o estádio: “Em fevereiro de 2016, aproveitei a folga do Carnaval, quando o Tour do Maracanã ainda funcionava, e fui como turista ao estádio. Comprei o ingresso e entrei. Foi quando observei algo estranho. Os elevadores não funcionavam”, disse. A altura do Maracanã corresponde a um prédio de seis andares, e a interrupção do serviço de elevadores numa estrutura assim compromete qualquer tentativa de visitação.

A Odebrecht, empresa que controla o estádio, o repassaria ao Comitê Rio 2016, visando a preparação dos Jogos Olímpicos apenas em março, mas já apresentava sinais de desgaste com o complexo: insatisfeita com os rumos tomados pelas regras de concessão, a empreiteira já buscava “se livrar” do Maracanã — e o descaso com sua estrutura, observado a partir da situação de seus elevadores, já seria um exemplo disso.

Ao vencer o processo de licitação, a Odebrecht teria o direito de demolir o Parque Aquático Julio de Lamare e o Estádio de Atletismo Célio de Barros, equipamentos pertencentes ao complexo do Maracanã, construindo em seus lugares um shopping-center e dois edifícios-garagem. No entanto, após forte pressão popular, o ex-governador Sérgio Cabral, à época, recuou, fazendo com que a Odebrecht considerasse o Maracanã “insustentável”, segundo palavras da própria, sem as fontes de receita que seriam geradas a partir da demolição dos dois equipamentos, que hoje encontram-se abandonados.

Quando a empreiteira cedeu o estádio para o Comitê Rio 2016, não pretendia retomar a gestão do complexo após os Jogos Olímpicos. A Odebrecht anunciou, inclusive, a devolução do Maracanã para o governo do estado do Rio a poucos dias da abertura das Olimpíadas, mas tal movimento foi negado pelo atual governador do estado, Luiz Fernando Pezão (PMDB).

Após o fim do período olímpico, o Comitê Rio 2016 teria mais dois meses para realizar ações de reparo e readequação do estádio para sua devolução à Odebrecht. Porém, o que se observou a partir daí foram sucessivas recusas de um estádio que ninguém queria: de “Maior do Mundo” a um elefante branco.

A Odebrecht não quis receber o estádio de volta em novembro do ano passado, alegando que o complexo não estava na mesma situação de quando foi entregue ao Comitê Rio 2016, oito meses antes; o Comitê, por sua vez, reconhece que “alguns” reparos precisam ser feitos mas, afundado em dívidas com fornecedores e empresas, alega que o tempo de cessão do estádio acabou. Nas cordas, nocauteado por uma crise financeira sem precedentes, o governo do estado sequer cogita a hipótese de reassumir o Maracanã, alegando que há um contrato de cessão em vigor.

Furtos sem culpados

Como ninguém quis tomar o Maracanã para si, houve quem o fizesse. Desde dezembro sem luz, o estádio foi saqueado. Torneiras e peças de mangueiras de incêndio, ambos de cobre, fios, televisores e até os bustos do ex-prefeito do Rio Ângelo Mendes de Morais e do jornalista Mário Filho, que dá nome do estádio, foram levados por ladrões. Por conta da falta de luz, as câmeras de segurança não flagraram nenhum movimento. Soma-se isso à falta de agentes de segurança no interior do estádio — quem os pagaria, se ninguém quer o Maracanã? Para piorar este cenário, o caso, registrado na 18ª DP (Praça da Bandeira), tem sua investigação prejudicada por conta da greve de policiais civis, iniciada no último dia 17, pois o governo não pagou o salário de dezembro nem o 13° dos servidores estaduais da segurança pública.

Sem luz, abandonado e saqueado: o Novo Maracanã agoniza. (Foto: Sem Firulas/Facebook)
Sem luz, abandonado e saqueado: o Novo Maracanã agoniza. (Foto: Sem Firulas/Facebook)

Da janela de seu apartamento, Cristina vê o Novo, e abandonado, Maracanã. Denunciou, sozinha e por dias, em seu blog e via Twitter, a situação do gigantesco complexo, ignorado inclusive por veículos da chamada “grande mídia”. Naquele momento, a jornalista sentiu-se impotente: “Principalmente porque são coisas que estamos falando há tanto tempo e nada é feito. Assim como quando criamos o blog para denunciar brigas e tentar ajudar os torcedores, o jeito foi denunciar diariamente até que a imprensa tradicional observasse a importância do assunto, e que não íamos parar.”

Com o aumento da repercussão desses casos, Cristina teve seu trabalho reconhecido, atuando como uma espécie de “porta-voz” do estádio — já que ninguém fala em nome dele — sendo entrevistada inclusive pela imprensa internacional. “Lógico que todo jornalista gosta de ver seu trabalho reconhecido, com uma denúncia ou matéria importante, mas o melhor é o resultado acontecendo”, diz.

E está acontecendo — aos poucos. Decisão judicial proferida há poucas semanas obriga a Odebrecht a reassumir o Maracanã, sob pena de multa diária de R$ 200 mil em caso de descumprimento. A concessionária recorreu da decisão, mas teve o recurso negado. Agora, terá que cuidar do estádio até a transferência da concessão para uma nova companhia, cuja escolha será responsabilidade da própria Odebrecht. A empresa terá que escolher entre um grupo formado por CSM, GL Events e Amsterdam Arena (consórcio que já tem um acordo costurado com o Flamengo), ou o pool composto por Lagardère e BWA, que já operou, sob muitas críticas, a logística de venda de ingressos no Maracanã original. A escolha da Odebrecht será feita após uma análise prévia das propostas feita pelo governo do estado do RJ.

Futuro incerto

O futuro do Novo Maracanã, a partir daqui, é uma incógnita. Sabe-se muito sobre seu glorioso passado, que se confunde com a formação não só do futebol brasileiro como uma potência mundial, mas também do Rio como cidade e do Brasil como país. Sua demolição ilegal, escondeu uma teia de arranjos onde meia dúzia optou por enriquecer às custas de dinheiro público. Hoje, vários desses estão presos, foragidos ou na mira da Justiça.

Seria a “maldição do Maracanã” apontada pelo jornalista e historiador Lúcio de Castro? Talvez sim. Talvez seja o sagrado cobrando sua conta —  afinal, não se mexe com algo tão grandioso impunemente. Aos mais céticos, talvez seja o desarranjo de velhos acordos, feitos entre velhas figuras, cobrando sua fatura. Aos mais críticos, Cabral e seus amigos de quadrilha e guardanapo talvez tenham ido longe demais na farra. Não sabemos.

Que o Maracanã descanse em paz. Que seu equivalente, o Novo Maracanã, belíssimo, consiga chegar perto do gigantismo de seu antecessor. Que sua gestão caia na mão de quem seja, de fato, ligado ao futebol — sem espaço para aventureiros (propineiros?) de ocasião. Que pais e mães consigam construir, a partir da arquibancada, laços eternos de amor entre o futebol e os seus.

Que tenhamos, um dia, uma sociedade evoluída o bastante para jamais permitir que se apague, assim, na base da propina e do arbítrio, o seu próprio passado.

E que, em cada um de nós, o Maracanã viva. Para sempre.

Fontes: R7ESPNSportlightCarta MaiorO Globo, G1, Blog Fim de Jogo, EBC e Ministério do Esporte.
Primeira parte da reportagem: Da propina ao fim, parte 1

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