De Ronaldinho Gaúcho a Arthur: a transformação na gestão do Grêmio

A REVOLUÇÃO NO TRICOLOR GAÚCHO

A preterida taça da Libertadores e o presidente já histórico ao fundo. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Por: Marcella Lorandi | RS

A receita fecha e as contas batem. Em 2019 o Grêmio promete manter praticamente as mesmas despesas de 2018: cerca de R$190 milhões com todo orçamento do futebol. O presidente Romildo Bolzan Júnior chega ao fim da sua gestão com a possibilidade de fixar uma folha salarial bruta de R$9 milhões, um excelente legado na base, e muito em breve ter uma receita no Quadro Social que gere de R$10 a R$12 milhões a cada 30 dias. Atualmente o Grêmio arrecada com as mensalidades de sócios R$7 milhões.

Para isso, o clube precisou viver um jejum de 15 anos sem títulos expressivos, beirar a falência com um rebaixamento no início dos anos 2000, viver no déficit de contas, fazer negócios aventureiros, quase amadores, e estar em mãos de dirigentes que colocavam seus interesses pessoais acima do time. E como já dizia Hélio Dourado, presidente histórico do Tricolor Gaúcho, “sirva ao Grêmio e nunca sirva-se do Grêmio”.

Entenda como o Grêmio passou de um gigante falido para um modelo de gestão e um dos clubes que mais investe em atletas da base, promovendo jovens promessas para o time principal todos os anos. E como o clube se reergueu deixando as gestões ultrapassadas de compras absurdas e venda irrisórias para trás.

A jóia

Jóia do Grêmio está no clube desde os oitos anos. Foto: CBF/Divulgação

Esse é Tetê. Ele atua na base do Grêmio, é atacante, e tem 18 anos. Passada a Copa São Paulo de Futebol Júnior, o que mais tem no Brasil é jovem promessa despertando interesse de grandes clubes. Tetê faz parte desse seleto grupo de talentos. Ainda não tem nenhuma partida no time principal, mas já recebeu uma oferta de 12 milhões de euros, do Shakhtar Donetsk-UCR. O Grêmio recusou, mas os ucranianos prometem uma nova investida até o fim da janela, em março. Com essa informação Romildo Bolzan Júnior já comunicou que a multa rescisória do jogador é de 100 milhões de euros e ele não deve sair por menos disso.

O trabalho na base do Tricolor Gaúcho é árduo, diário e de reconhecimento interno há anos, afinal muitos dos meninos que atualmente compõem o elenco principal cresceram dentro do clube. A formação desses atletas passou a ser mais valorizada e assistida na gestão de Romildo Bolzan, e o Grêmio mostrou facilidade para colocar na vitrine do futebol bons jogadores em posições específicas, como o meio-campo e o ataque.

2001 não teve fim

O ano é 1998, Ronaldinho Gaúcho ingressa no time profissional do Grêmio aos 17 anos. Ele frequentou a escolinha do clube desde os 7 e também brilhou nos times sub 13, 15 e 17. De muita velocidade, qualidade no drible e visão de jogo ele abrilhantou as partidas e fez mágica com a bola vestindo a tricolor até o ano de 2001. Quando seu contrato estava próximo do fim ele assinou um pré-contrato com o PSG, sem o aval do clube. Jogou mais três partidas, balançou as redes mais duas vezes e por 4 milhões e 790 mil euros um dos maiores jogadores do país saiu pela porta de trás do Estádio Olímpico. E nunca mais voltou!

Ronaldo Gaúcho em 1998 comemorando um dos 68 gols marcados com a camisa do Grêmio. Foto: Reprodução

Desde que Ronaldinho encantou o mundo com o seu futebol muita coisa mudou no Grêmio. A principal mudança que tornou o clube novamente vencedor veio na gestão e na política. Dezoito anos separam 2001 de 2019. De lá até gestão anterior a de Romildo Bolzan Jr. o Grêmio revelou Anderson, Lucas Leiva, Douglas Costa, Mário Fernandes, e Fernando. Gastou valores exorbitantes com atletas de nome, como Barcos, Giuliano, Marcelo Moreno, Vargas, Kléber Gladiador, Maxi López e André Santos. Nenhum deles levantou taça pelo clube e todos eles estiveram nas dependências do Estádio Olímpico, e depois na Arena do Grêmio, quando o clube viveu seu maior jejum de títulos.

Uma nova Era

O presidente Romildo Bolzan Jr, assumiu o Grêmio no biênio de 2015/2016 e foi reeleito para o triênio de 2017/2018/2019. Ele chegou para ser o sucessor de Fábio Koff, o primeiro a tornar o Grêmio dono da América, e até então o maior presidente da história do Tricolor. Romildo assumiu a presidência com um discurso enfático e emocionado. Em sua primeira manifestação ele falou sobre categorias de base, sobre criar um equilíbrio em todos os setores do clube e afirmou que o Grêmio seria o maior clube brasileiro, sul-americano e mundial.

Romildo Bolzan Júnior, presidente do Grêmio. Foto: Bruno Alencastro/RBS

Seu discurso foi tratado com desdém pela imprensa gaúcha, o nome pouco conhecido no ramo gerou comentários que colocaram os termos “desespero da torcida” e “inexperiência do presidente” na mesma frase. Romildo veio da chapa que tinha Fábio Koff como vice, e até 2018 já tinha cumprido parte da sua promessa. O Grêmio venceu a Copa do Brasil, a Copa Libertadores da América, o Campeonato Gaúcho e a Recopa Sul-Americana. Sem compras extraordinárias e com muito investimento na base.

Caso Tetê

Por que o caso Tetê é pauta na imprensa gaúcha? Porque os gremistas tiveram e imensa felicidade de ver jogadores como Pedro Rocha, Walace e Arthur vestindo as cores do Grêmio, conquistando títulos e retribuindo ao clube que os formou altos valores financeiros. O assunto divide a torcida, parte incentiva a ida de Tetê para que mais dinheiro entre aos cofres do clube, já a outra parte acredita na formação e no amadurecimento do atleta, que pode render glórias e aí então deixar o clube.

Tetê não estava em Porto Alegre quando seu nome virou centro das atenções, ele fez parte do grupo da Seleção Brasileira Sub-20 que disputa o sul-americano no Chile. Ele e seu empresário enxergam com maturidade a primeira grande oferta pelo atacante tão jovem. E seu discurso, assim como sua bola, atesta que Tetê já tem os elementos necessários para falar aos microfones com o cunho de jogador. Jovem, ele diz que vai manter o foco no Grêmio para vestir a camisa tricolor e fazer história com as três cores. Se mencionar o “professor” e agradecer a Deus, Tetê já pode assumir a titularidade.

As promessas cumpridas

O início da vida de um atleta em um clube, sua estrutura e preparação podem assegurar que esse jogador será uma promessa. Contudo há diversos fatores externos que podem interferir no destino desses meninos. Investir na base demanda mais que a injeção financeira, requer que esse dinheiro seja distribuído com consciência não só no futebol, mas também entre alimentação, transporte, hospedagem, suporte educacional, com convênio em redes escolares e centros de ensino superior, acompanhamento psicológico e de carreira para cada um.

Quem trabalha com essas categorias tem o discernimento de que não é todo ano que um Neymar é revelado, mas que a principal função da base é fornecer ao clube jogadores com bons fundamentos e chances de crescimento. Quanto mais é investido na base, menos é gasto com jogadores “prontos”. E essas são as promessas que se cumpriram no Grêmio e foram bem negociadas na gestão de Romildo Bolzan:

 

Walace comemorando o título da Copa do Brasil de 2016. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Walace: o meio campista foi um dos jogadores mais valorizados do grupo que ergueu a taça da Copa do Brasil em 2016. Ele também esteve no grupo que conquistou a primeira medalha de ouro do Brasil no futebol, no Rio 2016. Ele foi transferido para o Hamburgo – ALE por 10 milhões de euros, 33 milhões de reais na época.  O Grêmio ficou somente com 60% do valor de transferência.

 

 

 

 

 

Pedro Rocha comemorando um dos dois gols marcados na partida de ida da final da Copa do Brasil de 2016. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Pedro Rocha: também esteve na brilhante campanha do Grêmio na conquista do Pentacampeonato da Copa do Brasil em 2016. Marcou dois gols na partida de ida da final, no Mineirão, contra o Atlético Mineiro. Foi vendido para o Spartak Moscou- RUS por 12 milhões de Euros, cerca de 45,2 milhões de reais, ele deixou o Grêmio no início de 2017. O clube negociou com o Diadema, que detinha 30% dos direitos econômicos do jogador, e ficou com 100% do valor da transferência de Pedro Rocha.

 

                                                                                                                                                                                                                  

Arthur com a taça da Libertadores na chegada do Grêmio em Porto Alegre. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA


Arthur:
a maior venda da história do clube. Deixou o Grêmio na metade de 2018, foi um dos principais jogadores do grupo que conquistou o tricampeonato da Copa Libertadores. Ele foi vendido para o Barcelona – ESP por 31 milhões de euros, 140 milhões de reais. Assinou um contrato de metas e seu valor pode pular de 31 milhões para 40 milhões. O Barcelona ainda firmou uma multa rescisória de 400 milhões de euros, cerca de 1,8 bilhão de reais.

 

 

Promessas que seguem vestindo a camisa do Grêmio

Com a legítima dificuldade dos clubes brasileiros de manter bons atletas livres do assédio europeu (ou chinês, ou árabe) e dos cifrões milionários que os rondam, o Grêmio ainda conseguiu segurar dois dos jogadores mais importantes do elenco para mais uma temporada.

Luan ao lado da Taça Libertadores e do prêmio de melhor jogador do torneio Foto: Reprodução/WhatsApp

 

 

Luan: o menino do interior de São Paulo chegou no Grêmio em 2013, teve seu talento cuidado e lapidado para viver grandes momentos. Foi medalhista olímpico, em 2017 foi considerado o melhor jogador da América, e após se recuperar de uma lesão que o tirou das partidas finais de 2018 ele já iniciou 2019 em outro nível, no nível que torcida e imprensa já conhecem e esperam dele. O vínculo de Luan com o Grêmio vai até o final de 2020, sua multa rescisória é de 18 milhões de euros, e o Grêmio tem 60% dos direito do atleta.

 

 

 

 

Everton recebeu o prêmio “Man of the Macth” da FIFA como melhor jogador da partida da semifinal do Mundial de Clubes. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA


Everton:
aos 22 anos Cebolinha é peça chave no esquema de Renato Portaluppi, muito veloz, com a artimanha do drible e ao lado de outros craques o atacante, já convocado anteriormente por Tite, resiste ao assédio de clubes ingleses, como o Manchester United, que já disse estar monitorando o jogador. Seu contrato com o Grêmio vai até 2022, e a multa rescisória para quem quiser leva-lo é 80 milhões de euros (348,8 milhões de reais).

 

 

 

Nomes para observar em 2019

Firme na política de valorizar as pratas da casa, o Grêmio iniciou o Campeonato Gaúcho com diversos atletas da base inscritos e tendo oportunidade em meio aos titulares. Além de oportunizar os jovens, o clube também se mune de mais opções para todas as competições que serão disputadas ao longo de 2019. E Renato Portaluppi segue com o cunho de paizão da garotada. Os nomes para se ficar de olho estão em diversas posições, como o Vico no ataque, e o Matheus Henrique no meio campo, além desses não tire os olhos de:

Jean Pyerre: um dos mais promissores do grupo já jogou até Gre-Nal. O volante é um misto de características de Maicon e Douglas, ambos aconselharam o jovem nos últimos anos, com isso ele desenvolveu passes de excelência e inteligência, e a capacidade de visualizar as peças em campo criando a melhor jogada. Seu contrato com o Grêmio vai até 2021, e ele deve ser ainda mais valorizado.

Pepê: o jovem já havia sido inscrito nas oitavas de final da Libertadores no ano passado, agora terá a oportunidade de iniciar a temporada com chances de assumir a titularidade do ataque, seu contrato com o Grêmio vai até 2022 e deve ser ampliado.

O fim de uma gestão de sucesso

2019 é ano de eleição para o Grêmio, e Romildo, sempre de fala ponderada, não irá preparar um sucessor, mas irá trabalhar para que o Grêmio tenha uma candidatura justa e acordada junto do Conselho de Administração e Deliberativo do clube. Para que se dê sequência no atual trabalho com uma liderança ativa e amistosa, e que o ambiente siga saudável e de respeito.

Renato Portaluppi e Romildo Bolzan Júnior no emblemático beijo na testa na comemoração do título da Libertadores em Lanús, Argentina. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Mas a verdade é, que o que torcedor gremista sonha mesmo, é com uma pequena mudança no estatuto e a possibilidade de Romildo Bolzan Júnior tornar-se presidente vitalício do clube, na história ele já está!

Fonte: GaúchaZH, Grêmio

 

2 Comentários em De Ronaldinho Gaúcho a Arthur: a transformação na gestão do Grêmio

  1. Ótimo texto! É fundamental que esse nível de gestão (tendo uma estratégia, com mais gestão e profissionalismo, com transparência e orçamento, investindo nos jovens) siga para o próximo ano. E não voltem os fanfarrões que à primeira derrota fazem contratos suspeitos ala Kleber Gladiador – fomentados por interesses de empresarios de jogador ou jornalistas “patrocinados” sabe lá por quem.

  2. Fruto do trabalho do Fabio Koff e 7 anos depois com a continuidade do Romildo, o Grêmio precisa eleger alguém que mantehnha essa mentalidade. Não podemos nunca mais ser reféns de quem só vai ganhar dinheiro no clube e não devolver nenhum título ao torcedor.

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