Dener: o livro eterno que acabou no primeiro capítulo

A irreverência e as polêmicas de um atacante que conquistou o Brasil

Carreira curta, mas gloriosa. Dener era o emblema do futebol moleque (Foto: Reprodução/Djama Vassao/Agência Estado/GloboEsporte.com)
Por: Max Galli, SP

Dener Augusto de Souza. Este era o nome de um dos mais fantásticos artistas que o futebol brasileiro produziu. Mesmo de forma rápida deixou marcas eternas por onde pisou, driblou e venceu. O menino nascido na Vila Ede, Zona Norte de São Paulo (SP), começou sua mágica com a bola nas quadras de salão do Vila Maria, clube tradicional da cidade. Mas foi na Portuguesa-SP que mostrou a alegria de seu bigode ralo, a agilidade das pernas finas e a molecagem do futebol com seu corpo franzino. No Canindé, Dener se tornou rei e nas nossas memórias se tornou eterno, como se fosse um livro sem fim ou, até mesmo, sem segundo capítulo por nos deixar após um acidente de carro em abril de 1994.

Foi num amistoso do Vila Maria contra a Portuguesa que Seu Pixú, olheiro da Lusa, levou o menino para o Canindé com 12 anos, em 1983. No entanto, pouco depois deixou a equipe mirim do time para ajudar com as despesas da casa,  já que a agremiação não pagava os atletas desta categoria. Assim começou a jogar futebol por cachê pelo Colégio Bilac, onde também estudava. Atou por vários outros clubes de salão nos quais pagavam melhor que a Portuguesa. Voltou para a Lusa em 1988 e um ano depois fez o primeiro jogo pelo profissional, promovido pelo então técnico da equipe, Antônio Lopes. Com isso, começou a se destacar no time principal, porém também entrava em campo com os juniores. E foi durante uma Copa São Paulo de Futebol Junior que o Brasil conheceu o talento do tal moleque do Canindé.

Agachado, foi no Vila Maria onde demonstrou os primeiros passos com a bola (Foto: Arquivo Pessoal/GloboEsporte.com)
Agachado, foi no Vila Maria onde demonstrou os primeiros passos com a bola (Foto: Arquivo Pessoal/GloboEsporte.com)

Gênio dentro de campo e polêmico fora dele.

Dener chegou na Portuguesa e logo criou amizade com o atacantes Tico e Sinval. O trio foi o grande nome da equipe, que formada por um “losango flutuante” foi campeã da Copinha com uma campanha grandiosa, chegando até a final contra o Grêmio, do ex-goleiro Danrlei. Zelinho, ex-assessor do presidente Fabio Koff, disse na época: “que um ‘pretinho’ destruiu o Grêmio” com uma vitória arrasadora por 4 a 0. Assim começou a subida categórica na carreira do meia-atacante da Lusa. Ainda em 91, Dener começou a se destacar na equipe profissional.

No dia 13 de Novembro de 1991, a Portuguesa enfrentava a Internacional de Limeira (SP), em duelo válido pela segunda fase do Estadual. Em num jogo travado, tudo indicava para 0 a 0, até a arte das pernas finas de Dener aparecer. Em um arranque do meio de campo cortou o primeiro adversário, deu um drible da vaca no segundo, passou pelo terceiro e na saída do goleiro deu um toque de classe para o gol. Um parágrafo na história do atacante que ninguém esquecerá por muito tempo.

Dener também chamava atenção pelos acontecimentos fora das quatro linhas. Desde de menino teve infância difícil. Não conheceu o pai que separou da mãe antes dele nascer e faleceu quando ele tinha nove anos. Nos tempos de Vila Maria, chegou a ser expulso da equipe por indisciplina por sempre ir às festas. Em 87, foi detido junto com mais cinco amigos, porém não foi encaminhado a nenhuma prisão para menores de idade.

Após a fama crescer rapidamente, Tico dizia que o atacante não sabia diferenciar os amigos verdadeiros dos interesseiros, e não sabia dizer não. Por várias vezes sumiu das concentrações da Portuguesa por não ser sentir valorizado. O ex-presidente da Lusa, Arnaldo Faria de Sá, também sofria com as tentativas do atacante de levar mulheres para a concentração. Os jornais da época só tinham olhos para Dener. O craque era visto como um moleque de futuro e com uma vida agitada fora dos gramados. Qualquer “faísca” o transformava em capa. Títulos como: “Vagabundo genial” e “À procura de um rumo” questionavam a participação do atleta nas quatro linhas diante do seu modo de ser.

A Seleção Brasileira, o fenômeno do sul e o Vasco da Gama.

Em 91, o ex-técnico da Portuguesa, Otácilio Gonçalves fora quem deu mais oportunidades para Dener demonstrando que o moleque tinha qualidade e assim teria mais responsabilidade com a equipe. A célebre frase do comandante para ele: “se você jogar mal por 10 partidas, você vai jogar o 11º” ainda ecoa quando surgem novos talentos pelo Brasil afora.

O ex-técnico se tornou auxiliar de Paulo Roberto Falcão, até então técnico da Seleção Brasileira e fez com o atacante fosse convocado pela primeira vez para a canarinha e logo num amistoso contra a Argentina no estádio do Velez Sarsfield. Dener entrou no final do duelo, mas ainda assim participou da jogada do gol que culminou no empate em 3 a 3. No segundo confronto e último com a camisa verde e amarela, sofreu com a indisciplina e nunca mais foi convocado.

Em 93, depois de “destruir” o Grêmio pela Copinha dois anos antes, foi emprestado para a equipe do Olímpico. Ficou lá por três meses, mas foi o suficiente para encantar a torcida e abocanhar o primeiro e único título como profissional: o Campeonato Gaúcho de 1993. Pelo clube fez 15 jogos e quatro gols.

Dener com a faixa do seu único título profissional ainda vivo (Foto: Reprodução/Placar/Acervo Grêmio)
Dener com a faixa do seu único título profissional ainda vivo (Foto: Reprodução/Placar/Acervo Grêmio)

Após o empréstimo para o Tricolor Gaúcho, o atleta voltou para o Canindé e continuou sendo peça importante da equipe em todos os Campeonatos que participava. Até que em Maio de 1993, num jogo contra o Santos,válido pelo Estadual, Dener recebeu a bola na intermediária. Deu uma caneta em Silva, e partiu até a área deixando os zagueiros para trás, driblou o goleiro Edinho e colocou a bola para o fundo da rede. A segunda pintura, a segunda marca eterna. Oscar Roberto Godoi, árbitro da partida, deixou rolar até uma cotovelada do atacante no zagueiro Silva após a bola entre as pernas porque sabia que dali poderia surgir algo épico. E assim foi. Ninguém lembra da falta cometida pelo craque, mas sim do gol de placa feito no gramado do estádio da Zona Norte paulistana.

Em 1994, Dener já estava motivado a sair da Lusa e deu uma entrevista à Folha de S.Paulo: “Se eu jogasse pelo São Paulo, Palmeiras ou Corinthians, meu passe estaria mais valorizado e conseguiria fácil uma convocação para a seleção, fizeram promessas, até de possíveis vendas para a Itália e Espanha, e nada foi cumprido”. O jogador era são paulino quando criança, mas quando teve o nome envolvido com o Corinthians, já imaginava parar sua Mitsubshi Eclipse dentro do Parque São Jorge, como dizia Luciana, sua viúva. Porém a Portuguesa resolveu emprestá-lo para o Vasco da Gama. Em São Januário, ajudou na conquista da Taça Guanabara e, com belas exibições, teria enfim uma proposta oficial de uma equipe de fora do país.

Dener ergue a Taça Guanabara com Valdir Bigode (Foto: Reprodução/NetVasco.com.br)
Dener ergue a taça com Valdir Bigode (Foto: Reprodução/NetVasco.com.br)

Após uma viagem para São Paulo onde esteve presente em uma reunião dos dirigentes do Canindé com os do Stuttgart, em 19 de abril de 94, Dener voltava para o Rio de Janeiro para um treino com o Vasco em seu “Pássaro Branco”, como chamava seu carro, junto com Oto Gomes Miranda, que dirigia o carro. Numa curva leve na Lagoa Rodrigo de Freitas, o motorista dormiu e bateu de frente com uma árvore. Dener foi asfixiado pelo cinto de segurança pois seu banco estava deitado por estar dormindo.

Assim acabava a história de uma imagem repentina, efêmera, que mesmo em pouco tempo alegrou os olhos de quem assistiu. Dessa forma terminava o capítulo no qual não se sabe até onde seria escrito. Quem sabe conquistar uma Copa do Mundo ou ganhar a Bola De Ouro. Infelizmente ninguém sabe. O que se sabe é que o primeiro ícone do futebol moleque, rápido e habilidoso dormiria eternamente ali, na curva. Assim foi a história de Dener, que faleceu 17 dias após completar 23 anos.

Fontes: Globoesporte.com, Globoesporte.com, Globoesporte.com, UOL Esporte, Que Fim Levou

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