Desculpe o transtorno, preciso falar do meu pai e o futebol

Mais uma história que somente o futebol poderia trazer

Foto: Reprodução/ Leo Santos/AE
Por:  Jean Costa, RS

Conheci o futebol através do meu pai. Essa frase deve ser considerada um dos maiores clichês da história, mas pode passar o tempo que for que ela não vai deixar de agradar a todos. Meu pai em questão é mais um daqueles que não nega o futebol, craque da várzea aqui na nossa terrinha e considerado por muitos o melhor veterano de Alvorada. Apesar de tal acunha, quis a vida que quando jovem, não tivesse a chance de se tornar jogador profissional.

Coloradaço fanático, meu pai carrega consigo histórias fantásticas sobre futebol. Como a de quando jogou contra o ex-jogador da dupla Grenal, Batista. O encontro do acaso com o Falcão no litoral e até mesmo uma conversa com o ex-treinador Antônio Lopes na agora antiga casa tricolor, o Olímpico. Ele jura de pé junto que por causa dessa conversa, certo jogador teve chance na equipe naquela época. Essa última é uma das histórias sobre futebol e o meu pai que me deixa de queixo caído até hoje e que um dia pretendo divulgar para todos os moralizadores da comunidade CL.

Meu pai sempre foi uma espécie de “porto seguro” pra mim enquanto eu jogava. Parece que sempre que ele chegava pra me ver jogar ou quando já estava lá, as coisas mudavam. Perdia o medo de errar e crescia a vontade de jogar. Mais até do que quando tinha torcida feminina na plateia.

Ah, é claro que de vez em quando aconteciam algumas situações embaraçosas. Eu tinha uma mania um tanto curiosa, pra ser mais específico, um grito de guerra. Sempre que marcava um gol, eu olhava diretamente para o goleiro e gritava: pega filho da “meretriz”. Virou rotina obviamente, mas certa vez, a mãe do goleiro estava na torcida e a bronca é claro, sobrou para o meu bom velho e bom pai.

Alguns momentos que temos no futebol sejam sozinhos, com a (o) namorada (o), ou família, são inesquecíveis.  Eu e o meu pai tivemos muitos momentos com o futebol que vou levar comigo para sempre e que espero um dia poder repetir com os meus filhos. Mas tem um momento que entre todos os que tivemos, considero o mais memorável.

Boa parte de nós jogou com o pai em algum momento da vida é verdade, mas quantos de nós tivemos a oportunidade de jogar um jogo inteiro e marcar um gol com assistência do mesmo? Esse é o momento que o meu pai e o futebol proporcionaram que jamais vou esquecer. Não lembro exatamente da data, mas lembro de ter sido as 15h30 de sábado, fazia um calor infernal e eu estava em fase final de recuperação de um problema.

O craque dos veteranos de Alvorada após a conquista do Municipal (Foto: Arquivo pessoal)
O craque dos veteranos de Alvorada após a conquista do Municipal (Foto: Arquivo pessoal)

Assisti os primeiros minutos no banco, pois quis o destino que eu chegasse um pouco atrasado e faltasse calção pra jogar. Saímos ganhando logo no início e da beira do bom e velho Agriter, um dos sagrados campinhos aqui da terrinha, vi o adversário virar pra 3 a 1 em menos de meia hora de jogo.

Eu entrei em campo meio que contra a vontade, achava que ia fazer parte de um Brasil x Alemanha da várzea, mas quis o destino que eu entrasse e ajudasse o time. O jogo em questão terminou 3 a 3. Marquei dois gols naquele jogo entre misto de veteranos com a rapaziada, mas também perdi um gol incrível debaixo das traves que dou risada até hoje só de lembrar.

O primeiro gol em questão traz consigo a minha memória preferida no futebol. Meu pai arrancou da defesa, passou um pouco do meio e me deu um passe de uma precisão incrível. Mesmo sendo poucas as vezes que jogamos juntos, parece que ele sabia exatamente o que eu iria fazer. Talvez a frase em questão “um bom pai conhece exatamente o filho que tem” faça sentido em momentos assim.

Um bom passe algumas vezes vale mais que um gol e de fato, valeu. Com uma enfiada de bola entre a saga, surgiria a famosa trivela responsável por aquele gol. De fora da área e no canto do goleiro, não tinha como pegar. O placar seguia desfavorável para a nossa equipe e parecia que continuaria assim quando perdi o gol incrível citado anteriormente. Parecia que os demais confrades esqueceram o gol que havia marcado e queriam a minha cabeça, mas coube ao seu Francisco acalmar a todos e me manter em campo.

E não é que deu certo? Não demorou muito e meu pai deu mais uma arrancada lá da zaga, iniciando aquele que seria o 3º gol. De novo com uma arrancada do meu pai, dele para o outro companheiro de equipe que me deixou cara a cara com o goleiro para igualar a partida.

Em uma das nossas conversas diárias sobre futebol, acabei sugerindo escrever sobre isso e não foi fácil de convencer o meu velho pai a concordar. Diz ele que uma história como essa não é necessariamente preciso escrever sobre. Só que eu discordo. É algo raro e merece sim ser contada. No fim das contas, depois de ler o texto, o cara que só vi chorar três vezes na vida, chorou de novo. Mais que nos 7 a 1 pra Alemanha. Mais que na eliminação pra França na Copa de 2006. Até hoje, não tem um campinho que eu vá e pense, será que em algum momento vou poder fazer isso com os meus filhos? Parece que, pra sempre, eu vou me emocionar ao falar sobre isso. Se ao menos eu tivesse tirado uma foto do momento, eu penso. Levaria pra sempre a recordação comigo.

Essa semana, pela primeira vez, vi que só o futebol poderia dar uma memória dessas pra gente. Achei que fosse chorar, mas tinha muito danone me esperando. O que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter vivido um grande momento envolvendo futebol e o meu pai durante essa vida. E de poder registrar esse momento em um texto.

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