Didier Drogba: O verdadeiro salvador da pátria

O marfinense pôs fim em uma guerra

Hugo Netto | MG

Um dos principais fatores responsáveis por toda a magia que o futebol possui é a capacidade de mudar vidas. Seja para pior ou, na maioria das vezes, para melhor, esse esporte, já consolidado como “não apenas um jogo”, proporciona emocionantes histórias, das mais diversas, em todo o mundo, desde sua criação.

No dia 08 de outubro de 2005, na penúltima partida do grupo C das Eliminatórias do continente africano para a Copa do Mundo de 2006, a Costa do Marfim foi até Omdurman – maior cidade do Sudão – onde derrotou os anfitriões por 3 a 1. O destaque do jogo, assim como sempre se esperava, em todas as partidas dos “Elefantes”, foi Drogba. Porém, nessa ocasião, não foi por anotar mais um gol ou um lance de efeito. Seu protagonismo se deu pelo âmbito político, aproveitando-se de sua grandeza e influência no meio esportivo.

Se, para os atletas, o clima era de comemoração, devido à classificação assegurada para a primeira Copa do Mundo disputada pelo país, a mais de 5 mil quilômetros dali, sua terra natal passava por um momento bem distinto. A Costa do Marfim era dividida em duas, havia 3 anos, graças à Primeira Guerra Civil enfrentada por eles.

Em 19 de setembro de 2002, soldados rebeldes vindos de Burkina Faso tomaram as cidades de Bouaké e Korhogo, alastrando seu domínio por 60% do país, principalmente nas regiões Centro, Norte e Oeste. O conflito entre os Forces Nouvelles (Forças Novas) e o Governo Federal, representado pelas Forças Armadas Nacionais da Costa do Marfim (que dominava o sul) deixou milhares de mortos e mais de um milhão de desalojados. Em 2003 houve uma tentativa pacífica, organizada pelo então presidente francês Jacques Chirac, de assinar um acordo que pusesse fim à guerra. Porém, no ano seguinte, embora os embates tivessem cessado, tropas francesas foram enviadas para retomarem a zona dominada pelos rebeldes, reiniciando as batalhas.

Ainda no vestiário, após a qualificação, o astro do time ergueu sua voz, dirigindo uma mensagem a todos os seus conterrâneos, por meio de um canal de TV que transmitia a festa ao vivo. Só então a guerra finalmente começou a caminhar para seu fim. Veja o discurso de um esportista que foi capaz de conseguir, como primeiro passo, um cessar-fogo:

“Homens e mulheres da Costa do Marfim, do Norte e do Sul, do Centro e do Oeste. Nós provamos hoje que todos os marfinenses podem coexistir e jogar juntos com um objetivo em comum: qualificar para a Copa do Mundo. Nós prometemos para vocês que a celebração uniria as pessoas. Hoje, nós os imploramos, de joelhos… Perdoem! Perdoem! Perdoem! O país africano com tantas riquezas não pode cair em guerra. Por favor, abaixem suas armas. Realizem as eleições. Tudo vai melhorar. Nós queremos nos divertir, então parem de atirar...”

Em 2006, as Nações Unidas conseguiram intervir no país, aproveitando o que foi iniciado naquela ocasião. Mesmo assim, o estado ainda era de tensão. Então, nas Eliminatórias do Campeonato Africano das Nações de 2008, Didier demandou que, no dia 03 de junho de 2007, o certame contra Madagascar fosse disputado no Estádio de Bouaké, justamente a capital da rebelião, onde, no ano anterior, já havia comparecido para comemorar com a população o seu prêmio de Futebolista Africano do Ano.

Os soldados das Forças Novas conduziram a equipe até o estádio em um tanque de guerra, sendo acompanhados pela multidão que cantava o hino do país. O confronto terminou em 5 a 0 para o time da casa, “um gol para cada ano de guerra”, como diziam as manchetes dos jornais locais. “O objetivo é a reconciliação. Nós tínhamos que dar um show e conseguimos. A Costa do Marfim está reunida através do futebol. ”, disse o protagonista aos repórteres depois de dar uma volta olímpica para cumprimentar os 26 mil torcedores que lotaram o, agora denominado, Estádio da Paz.

E não poderia ter havido um desfecho melhor: fazendo com que até o líder rebelde e o presidente se cumprimentassem, comemorando a vitória de seu país dentro e fora de campo – que mais tarde viria com a realização de eleições presidenciais – o último, foi um belo gol do “porta-voz” da nação, que saiu, quase sendo adorado, pelos soldados que o acompanhavam. Recebeu um lançamento do meio-campo, dominou como Zinedine Zidane, driblou o goleiro como Ronaldo Fenômeno, e tocou para o gol vazio, para decretar que, naquele território, acima de revoltosos ou governantes, quem manda mesmo é Didier Drogba.

 

 

Fontes: Google Maps, Arquivo dos Mundiais, Wikipedia, Ludopedio, Times of Malta

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