Do lazer ao lucro: os pontos históricos da transformação do futebol

Do dinheiro ao marketing, o que entrou no futebol

O futebol hoje é só dinheiro? (Foto: Reprodução/futebolinvestimento.com)
Por: Victor Portto, CE

“A história do futebol é uma triste
viagem do prazer ao dever. Ao mesmo
tempo em que o esporte se tornou
indústria, foi desterrando a beleza que
nasce da alegria de jogar só pelo
prazer de jogar…

O jogo se transformou em
espetáculo, com poucos protagonistas e
muitos espectadores, futebol para
olhar, e o espetáculo se transformou
num dos negócios mais lucrativos do
mundo, que não é organizado para ser
jogado, mas para impedir que se jogue…”
(Eduardo Galeano, Futebol ao sol e à sombra)

O futebol, no mais alto nível que conhecemos hoje, é feito através de muito dinheiro e de toda uma gama de saberes científicos que foram incorporados ao jogo – da preparação física e tática à mental, do marketing à administração. Entretanto, todos estes fatores extras que compõem essa lógica complexa que torna o esporte uma indústria forte e de impacto mundial nem sempre foram assim. Relembramos alguns momentos que foram pontos de virada para entender a lógica mercantil que impera atualmente no esporte.

Primeiro é preciso desconstruir um mito. O futebol em si não nasce do povo, mas é tomado de assalto (digamos assim) das elites europeias. O esporte, como o conhecemos, nasce do Rugby por uma discordância em relação às regras (alguns atletas não queriam aceitar o toque com os pés na bola), atividade que era praticada nas universidades da época (século XIX) e quase que somente pelos filhos dos ricos. Entretanto, o grande número de trabalhadores oriundos das migrações para a Inglaterra na Revolução Industrial precisava de um lazer nos tempos vagos das longas jornadas de trabalho e eis que entraram em contato com o futebol (recém-criado na época). Transformando-o na atividade de diversão e resistência aos patrões em meados do século XIX.

Enquanto o Rugby é organizado sobre os princípios da lealdade, da destreza e do cavalheirismo e estava assentado nos valores sociais do cenário inglês da época disseminados a partir do preconceito social, o futebol era o jogo mal visto por trazer lesões e machucados e diminuir a produção dos trabalhadores. Algo que antes era impensável agora acontecia pela via do esporte, o protagonismo dos trabalhadores de chão da fábrica. Aqui talvez possa ser considerado o início da paixão e do romantismo do esporte, por trazer ao povo algo inédito…destaque.

Mas, afinal, de onde surge o dinheiro no futebol? É a partir da década de 80 do século XIX que o esporte começa de vez a deixar de ser amador e passa a ser em sua grande maioria de times operários. É em 1883 que o Blackburn Olympic – time formado exclusivamente de trabalhadores – ganha a Copa da Inglaterra (campeonato mais antigo da história do futebol e que existe até hoje) contra o time do Old Etonians – de origem burguesa e tradicional, sacramentando a derrocada dos times amadores, a ascensão dos “esquadrões” operários e a derrota da elite no “controle” do jogo.

Na Inglaterra, por volta de 1885, o futebol entra em sua fase profissional, começando os clubes a pagarem seus jogadores e assim havendo o início dos processos de transferência dos atletas – fator este que é um dos motivos para a projeção e massificação do futebol em relação ao Rugby, que se recusava a entrar na era do profissionalismo. Possibilitando ainda mais a adesão operária ao futebol por ser a partir deste momento um ponto de ascensão social e que lhe possibilitava sustento, visto que os times de fábrica ainda mantinham seus jogadores no quadro de empregados, mas lhes pagava uma remuneração a mais por jogarem. Este acaba sendo o marco da entrada do dinheiro no futebol e o que viria a partir daí seria a potencialização do entendimento que o esporte pode gerar lucro.

No ano de 1893 acontece a primeira transferência de jogador envolvendo valores: o Aston Villa foi obrigado pela Federação Inglesa de Futebol a pagar uma multa de 100 libras para contratar o atacante Willie Groves que era do West Brom. Pois o jogador já tinha um contrato com o antigo clube quando assinou pelo Villa.

No início do século XX, o que se vê são os aumentos desses valores ligados a transferências, aos salários, aos ingressos dos jogos, mas nada comparado aos dígitos atuais. Os primeiros atletas a ganharem muito dinheiro com futebol e surgirem como “popstars” do esporte foram Pelé e George Best. Que por meio de suas figuras expandiram as fronteiras de alcance do esporte, incorporando o marketing de vez ao cenário do futebol e tendo em Johan Cruyff o grande expoente disso (usando um uniforme diferente de todo o resto da seleção holandesa na Copa do Mundo de 1974 por ser patrocinado por outra marca de camisas).

"Os popstars do futebol, Best e Pelé." (Foto: Reprodução/pelethebest.blogspot.com.br)
“Os popstars do futebol, Best e Pelé” (Foto: Reprodução/pelethebest.blogspot.com.br)

É a partir da década de 60 e 70 do século XX que estes negócios começam a de fato criar um mercado no esporte mundial, como a mudança de Johan Cruyff do Ajax da Holanda para o Barcelona da Espanha por 60 milhões de pesetas – o equivalente a R$3,25 milhões – e com isso a transação mais cara do futebol espanhol no período. A estética do futebol de como ele é jogado também muda bastante com o tempo. A preparação física, técnica, metal e tática passam por uma revolução junto com a disputa entre capitalismo e socialismo pela hegemonia nos esportes. Com o futebol se beneficiando destes conhecimentos e mudando para sempre a sua forma de ser jogado profissionalmente.

Na década de 90 é possível ver inúmeros atletas saindo dos seus países para jogar nos mais diversos locais do mundo pela ascensão de duas leis de caráter controverso e que ajudaram a implementar as “constelações” de craques multinacionais nos times europeus e do fortalecimento da figura dos empresários/agentes no meio esportivo: a Lei Bosman (no cenário internacional) e a Lei Pelé (no Brasil). Começa de vez nos anos 2000 o aumento das cotas de TV, os preços inflacionados dos jogadores, os salários estratosféricos e a saída do cenário do torcedor comum de arquibancada e ascensão do torcedor cliente das novas arenas.

Note que o futebol entra em esferas totalmente diferentes da cultura e do lazer que representavam em seu início, sendo hoje um âmbito de diversas alçadas de estudo. Acredito que a paixão e o romantismo resistem nas arquibancadas dos estádios (não arenas) pelo mundo afora em forma de: pirotecnia, pelos protestos por preços mais baixos e outras várias demonstrações de que os cânticos e o amor pelo esporte não vão acabar sem resistirmos.

A várzea ainda é o espaço de ganha pão de alguns atletas na realidade brasileira (visto que o desemprego é uma constante para boa parte dos jogadores no Brasil), sendo semelhante aos operários que jogavam no início dos jogos por uma remuneração informal e muito mais pelo amor. Os rachas acabam sendo o nosso espaço de socialização com os amigos, dos nossos momentos de confraternização com o próximo, da roda de pagode e da resenha… Será mesmo que estes espaços geram mera identificação com os primórdios do esporte ou são a resistência?

Fontes: Futebol na Veia; Pelé the best; “Futebol ao sol e à sombra, Eduardo Galeano”; “O espetáculo esportivo das arquibancadas as telas, Georges Vigarello”; “Clubes de futebol operário como espaço de autonomia e dominação, Miguel Henrique Stédile”; “As origens do futebol na Inglaterra e no Brasil, Marco Antunes de Lima”.

1 Comentário em Do lazer ao lucro: os pontos históricos da transformação do futebol

  1. Best? Pelé? Cruyf? Vanguarda do marketing?
    Leônidas, ainda na década de 30, já era o Diamante Negro e inspirou o nome do chocolate que é vendido até hoje.

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