“El Hincha Fantasma”, o garoto que entrou para a história do Colo-Colo

Na final da Libertadores de 1991, um intruso apareceu na foto oficial do campeão da América

Luis Mauricio López Recabarren, o penetra na festa do Cacique (Foto: Jornal El Mercurio)
Por Dudu Nobre, PR

O amor por um clube de futebol é algo a ser estudado pela ciência. Ao mesmo tempo intenso e duradouro, muitas vezes é maior que o sentimento nutrido por outros seres humanos. Na maioria dos casos, essa relação nasce em um coração infantil, que fica fascinado a cada jogada e não se restringe à série de normas sociais estabelecidas pelos adultos.

É nessa linha que essa história começa. Estádio Nacional de Santiago, 5 de junho de 1991. O Chile vivia a expectativa da primeira conquista continental, justamente com seu clube mais popular, o Colo-Colo. Na protocolar foto posada da equipe, em que ninguém gosta de ficar de fora, um raio invade a cena e se integra ao elenco. Era um torcedor mirim, que saiu com a alegria de quem já havia levantado uma taça.

Sua identidade era desconhecida, mas seu rosto estava em todos os jornais no dia seguinte, afinal o Cacique conquistou a Libertadores em cima do Olímpia (PAR). Era o início de um mistério que só seria revelado anos depois: “Afinal de contas, quem era o hincha que saiu na foto do campeão”?

Após descobrir a identidade do torcedor, o jornalista Luis Miranda Valderrama ficou conhecido como “o caça-fantasmas” (Foto: Sebastián Órdenes / Colo-Colo)

Alarmes falsos e descoberta da identidade

Até descobrirem o paradeiro do torcedor icônico, algumas mentiras apareceram pelo caminho. Primeiro, especularam o nome de José Luis Villanueva, atacante formado pelo Palestino-CHI que passou pelo Vasco da Gama. Quando criança, Villanueva era uma espécie de mascote que entrava com os jogadores do Colo-Colo nas partidas. No entanto, o atleta desmentiu a suspeita dizendo que não compareceu à decisão porque seu pai estava viajando naquela noite.

Em maio de 2007, o jornalista do veículo El Mercurio Aldo Schiappacasse noticiou que o menino da foto era Reinaldo Sandoval, à época um atendente de ônibus de 27 anos. Porém, após a matéria, outros repórteres passaram a questionar Reinaldo sobre o ocorrido, e alguns pontos geraram dúvidas.

Ele dava respostas vagas quando era perguntado sobre a demora para revelar a identidade. Além disso, afirmou que estava com o rosto pintado em branco e preto, mas o verdadeiro torcedor tinha adesivos na face. Outro ponto suspeito era o fato de ele pedir constantemente dinheiro e outras regalias para poder contar a história. Ao final das contas, descobriram que Sandoval era um farsante.

A essa altura, todos queriam saber a verdadeira identidade daquele menino. E um jornalista aliou curiosidade à ocasião ideal para resolver esse mistério. Luis Miranda Valderrama recebeu a missão de contar uma história popular entre os chilenos para um livro não-oficial da história do país. Miranda então resolveu descobrir o paradeiro do hincha fantasma.

Passou a procurar e perguntar para fotógrafos e torcedores sobre o tema, e várias histórias apareceram, até que alguns relatos o levaram ao conjunto habitacional Exequiel González Cortes, no bairro de Ñuñoa. Lá, Luis confirmou as expectativas: o verdadeiro torcedor mirim era Luis Mauricio López Recabarren, apelido Monito.

No entanto, não conseguiu obter a tão esperada entrevista do jovem. Monito havia falecido em 1999 com 24 anos, reflexo de um caminho tortuoso que trilhou.

Luis Mauricio López Recabarren, El Monito

O hábito de Luis Mauricio em tirar fotos com jogadores era hereditário. Seu pai, Luis López (apelido El Mono), também aparecia ao lado de atletas consagrados, sendo que o maior feito dele foi ter uma fotografia ao lado do Rei Pelé. Monito passou a frequentar o Estádio Nacional com seu pai e a praticar o hábito de forma constante a partir dos nove anos, aparecendo em fotos do Colo-Colo, Universidad de Chile, Universidad Catolica, Cobreloa-CHI e até da seleção chilena.

Na noite mágica de 1991, o garoto adentrou ao gramado ao mesmo tempo que o time do Olimpia, pois a segurança estava preocupada em proteger os jogadores paraguaios. Em disparada, Luis Mauricio provocou os atletas do oponente e acertou uma bola na meta do goleiro Jorge Battaglia, para delírio do público local. O mais irritado com o menino dentre os olimpistas era Gabriel González, que tentou parar Monito. O atacante, conhecido como El Loco, acabou sendo expulso no jogo.

Outro fato curioso aconteceu na hora da foto. Ao deslizar para aparecer no enquadramento, Luis tocou o ombro esquerdo do atacante Perez, que estava agachado. Para sorte dos chilenos, o jogador marcou dois gols na vitória do Cacique por 3 a 0. Aquela era realmente a noite de Monito.

Os feitos dos gramados contrastavam com a vida do jovem fora do Estádio Nacional. Luis Mauricio acabou se envolvendo com roubos já no início da vida, fato que o levou algumas vezes a reformatórios. Segundo os pais, a coisa piorou quando Monito teve problemas com cocaína.

O caminho do crime acabou sendo um fator importante em sua morte precoce. No final dos anos 90, foi condenado por um roubo que lhe rendeu um tiro na cabeça. Dentro da prisão, acabou desenvolvendo leucemia e não teve tempo para conseguir um transplante de medula, o que o levou ao falecimento seis meses depois.

Mesmo com esse fim melancólico, Luis Mauricio era muito respeitado pelas pessoas, tanto que os amigos de presídio fizeram cinco minutos de silêncio em sua homenagem e sua lápide sempre está repleta de flores. Todos se lembram da ousadia do menino que entrou para a história.

Deixando de lado os capítulos sombrios da vida do jovem, o episódio que ele proporcionou naquele 5 de junho de 1991 é emblemático. Mesmo em um futebol cada vez mais voltado para o mundo dos negócios, que distancia a camada mais pobre da população global, há sempre espaço para que o amor pelo esporte cresça entre as pedras e floresça por toda a vida, driblando qualquer tipo de adversidade.

Enquanto houver um Monito no mundo, o verdadeiro futebol ainda sobrevive.

Fontes: La Tercera, Lance e site oficial Colo Colo

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