Então, Neymar…

Simulações vêm prejudicando a carreira do jogador, que perdeu 11% do valor de mercado

Por Ricardo Santos, RS

Eu faço parte da turma que acreditou que Ganso era, e continuaria sendo, melhor que Neymar. Doce inocência. Mas não estou sozinho nessa, estou? Se até o professor Muricy Ramalho pensou isso. Não demorou, no entanto, para que Neymar se sobressaísse (e muito) não só ao meio-campista e ex-colega de Santos, como a todos os outros jogadores do Campeonato Brasileiro.

Aqui, ele sobrou. Conquistou quase tudo. Menos a mais importante delas (ok, eu sei que faltou o Brasileirão, também). A Copa do Mundo. Tida por tantas pessoas como a divisora de águas dos bons jogadores e das lendas. Além disso, passada mais uma edição de torneio sem êxito para a Seleção e, portanto, para Neymar, o jogador começa a ter em volta de si certa antipatia e até dúvida acerca do seu potencial. As quedas forçadas, as reações exageradas, a referida falta de maturidade (para um homem de 26 anos de idade).

Neymar lamentando a derrota para a Bélgica.  Foto: (Toru Hanai/Reuters)

Questiono o carisma do jogador não só lá fora, onde o nome de Neymar começa a ser alvo de fortes críticas, mas também aqui, em nossas terras, onde se tem tanta ânsia por ídolos, por craques. Neymar é bem quisto pela torcida brasileira? Neymar é unanimidade?

Conforme dito acima, Neymar simplesmente passeou em gramados brasileiros e latino-americanos. Fez o possível e o impossível. Gol de Puskas. Conquistou a Taça Libertadores da América. Fora os dribles desconcertantes, inusitados (esse do vídeo é um exemplo e tanto).

Na Europa, mais precisamente no Barcelona, havia certa dúvida se dividir espaço com Messi e Suárez não seria demais para o garoto de Mogi das Cruzes. O início foi tímido, com menos aparições fantásticas, menos ousadia. Neymar foi entendendo seu papel dentro do clube catalão, repartindo o semi-protagonismo com Suárez e sabendo da liderança técnica de Messi. E aos poucos foi surgindo o que considero o melhor Neymar. Coletivo, objetivo e, quando possível, plástico, também. Formou o lendário M-S-N. Com 23 anos, conquistou a Liga dos Campeões, sendo fundamental e marcando gol na final. No pacote, para que ficasse completo, veio o Mundial Interclubes, em cima do River Plate.

Neymar formou um dos maiores ataques da história do Barcelona. Foto: (Getty Images)

Estamos em 2015. É preciso retroceder, afinal em 2014 a Copa do Mundo aconteceu aqui, no Brasil. E mesmo com somente 22 anos, era de Neymar que se depositavam as principais esperanças no quesito de qualidade do futebol brasileiro. E ainda jovem (aqui podemos questionar a maturidade do jogador), fez uma boa Copa do Mundo, até o fatídico lance com Zuñiga. Na verdade, corrijam-me se eu estiver errado, mas as atuações de Neymar em 2014 superam muito as da Copa de 2018.

Pode-se pesar na avaliação de Neymar na Copa deste ano a lesão que teve meses antes, com certeza. Porém não mais a imaturidade, tratando-se de um jogador de 26 anos e que já fez muito no futebol. Ele esteve abaixo. Bem abaixo do que se sabe que ele pode. É também verdade que recai sempre sobre ele a responsabilidade do protagonismo. Com todo respeito aos parceiros que teve durante as duas Copas, como Oscar, Coutinho e Willian, contudo, fôssemos comparar Neymar a Ronaldinho, ele nunca teve um Rivaldo, um Ronaldo…o famoso jogador “cascudo” para dividir a responsabilidade.

É verdade, vivemos tempos diferentes. Um futebol diferente. O futebol muda tanto em tão pouco, recentemente. Parece viver a chamada obsolescência programada. Tal qual uma edição de Iphone. Mal nos acostumamos com o futebol moderno, e ele já é substituído por outro, e outro…e o jogador é muito vigiado. Tudo é vigiado. Seu relacionamento. Suas amizades. Sua “party” nos jogos de videogame/computador. Neymar vive o Show de Truman do futebol. Ele com certeza passa por alguns impasses. Não de forma a causar dramaticidade, como disse Edu Gaspar, mas precisamos acabar com esse pensamento que alguém com a vida feita é incapaz de sofrer, também. Claro que sofre, de certa forma. Não que quase todo indivíduo no mundo não cortaria todos os dedos da mão para ter uma vida como a do garoto.

Em coletiva, Edu Gaspar disse “não ser brincadeira o que sofre Neymar”. Foto: (Pedro Martins / MoWA Press)

Ainda assim o futebol jogado por Neymar na Rússia foi apático, estranho. Contra a Suíça, teve-se uma de suas piores atuações em muito tempo. Individualista e pouco produtivo. Um “efeito PSG”? Acredito que sim, o time de Paris fez muito mal a Neymar. Em um campeonato que não chega a ser um Paulistão com grife, como muitos brincam, mas muito abaixo das outras ligas europeias, lá no “Francesão”, Neymar jogou com folga. Novamente, sobrando. Sem tanta competitividade. Bem diferente do que é uma Copa do Mundo. Era tudo bastante fácil e o título do PSG era iminente.

E tudo isso me faz questionar o que acontece com Neymar. Daqui alguns anos, como iremos nos lembrar dele? Vai se juntar às figurinhas douradas do álbum? Vai se misturar aos nossos grandes ídolos. Contaremos aos nossos filhos de Ronaldinho, Ronaldo, Romário…e Neymar? Fica a dúvida, em um momento que o jogador vive uma turbulência na carreira e as críticas acerca de seu comportamento tem tido repercussão mundial negativa. São muitas perguntas, aqui expostas. Mas a maior delas, então…

Neymar, quem é você?

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