Entre as “piadas” e os crimes de ódio, a homofobia do futebol brasileiro

Para a população LGBTT, como é amar o esporte mais popular do país que mais mata homossexuais no mundo?

A bandeira do arco-íris, símbolo do orgulho LGBTT, foi criada por Gilbert Baker em 1978: nesta versão, o sangue derramado num Brasil homofóbico. (Foto: Reprodução)
A bandeira do arco-íris, símbolo do orgulho LGBTT, foi criada por Gilbert Baker em 1978: nesta versão, o sangue derramado num Brasil homofóbico. (Foto: Reprodução)
Por Marcelo David, RJ

É sempre na hora do tiro de meta. Nesta hora, a torcida passa a entoar um canto grave, gutural, enquanto o goleiro adversário recebe a bola e repousa-a na quina da pequena área a fim de recolocá-la em jogo. Aquele mantra, firme, interminável, une as arquibancadas enquanto coloca em agonia alguns que sabem o que virá a seguir: assim que o arqueiro inimigo chuta a bola, o estádio explode, num único som: “bicha!”

Eis mais um “legado da Copa”, como ficaram conhecidas as heranças que o Brasil recebeu após o Mundial de 2014. Entre estádios construídos (e destruídos) à base de propina, novos modais de transporte público, recém-abertas vias de trânsito e o 7×1 alemão, o tradicional rito de apupar o goleiro rival, vindo do México, veio para ficar. Lá, em terras mexicanas, os torcedores entoam um “puto!” assim que o arqueiro toca na bola; no Brasil, também escolheu-se o caminho homofóbico.

Voluntário exibe protesto contra a homofobia antes da final da Copa das Confederações, em 2013, no gramado do Maracanã.: estádios de futebol são homofóbicos em sua essência. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)
Voluntário exibe protesto contra a homofobia antes da final da Copa das Confederações, em 2013, no gramado do Maracanã: estádios de futebol são homofóbicos em sua essência. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

Segundo dados da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, uma pessoa gay é agredida a cada hora no Brasil. Os números referentes a óbito são ainda mais chocantes: de acordo com o Grupo Gay da Bahia, a mais antiga e importante entidade brasileira na luta pelos direitos das pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais e transgêneras, 2016 foi o ano com o maior número de assassinatos da população LGBTT, com 347 mortes, quase uma por dia – fazendo do Brasil o país mais perigoso do mundo para homossexuais, segundo reportagem do New York Times. Nessa contagem, cabe dizer, registra-se apenas os crimes de ódio – ou seja, pessoas que foram mortas apenas por não seguirem um conceito heteronormativo. Ressalta-se que tais números são subnotificados, podendo ser ainda maiores – faltam estatísticas oficiais.

As piadas contribuem para que este cenário se perpetue. Os gritos ofensivos nas arquibancadas, as agressões e ameaças a torcidas compostas por homossexuais, apontar de dedo na rua, as ofensas via redes (anti) sociais, aquela brincadeira que, para você, parece “inofensiva” – tudo isso torna inevitável que pessoas gays adoeçam, se isolem, se retraiam e morram. Um exemplo mais próximo: a degenerada “lei de Gil”, surgida a partir deste caso e “evocada” sempre que possível (e até quando não), é mais uma forma de desprezo e humilhação direcionada a quem, ora, quer dar o que for, caso tenha vontade. Sim, para comemorar um título vale tudo.”Só tem uma lei”: a lei do respeito. Estamos em 2017, mas ainda é preciso dizer: cada um faz com o seu corpo o que quiser – e com o corpo de outra(s) pessoa(s) faz-se apenas o que é permitido.

Diante de todo esse cenário, o futebol, ao não acolher minorias, torna-se um ambiente altamente tóxico para quem não está adequado ao que se convencionou chamar de “padrão”. Segundo dados da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), em 2015 o Brasil possuía 28.203 jogadores sob contrato – nenhum declarou-se homossexual publicamente. A Universidade de São Paulo (USP), em um levantamento feito em 2009, apontou que 10% da população brasileira se definiu como homossexual ou bissexual. Portanto, é utópico pensar que, nos vestiários Brasil afora, não existam homens aprisionados em uma lógica que os impede de viver suas vontades de maneira plena.

Richarlyson, em sua coletiva de apresentação ao Guarani, desafia os homofóbicos. com talento e coragem. (Foto: Gabriel Ferrari/Guarani Press)
Richarlyson, em sua coletiva de apresentação ao Guarani: carreira construída com talento e coragem. (Foto: Gabriel Ferrari/Guarani Press)

Ser gay, num futebol homofóbico como o brasileiro, é um péssimo negócio, mesmo se o jogador jamais tiver falado sobre sua condição sexual – como é o caso de Richarlyson. O volante de 34 anos, tricampeão brasileiro, campeão da Libertadores e do Mundial de Clubes, com convocações para a seleção brasileira, sempre foi alvo da fúria homofóbica, inclusive de sua própria torcida – mesmo que sequer saibamos sobre sua condição sexual, que é um assunto estritamente pessoal.

Nesta semana, Richarlyson foi contratado pelo Guarani, para a disputa da Série B do Campeonato Brasileiro. Durante sua apresentação, em Campinas, torcedores bugrinos e rivais, que buscam “virilidade” em seus jogadores, fizeram comentários homofóbicos nas redes sociais do clube – e dois homens em uma moto, vestidos com a camisa do Guarani, chegaram a atirar bombas em direção ao Brinco de Ouro da Princesa, sede do clube, em protesto contra a contratação do volante. A violência partiu até de homens que ocupam cargos públicos – um vereador de Campinas, Jorge Schneider (PTB), ironizou a chegada de Richarlyson ao novo time: “a pessoa certa no lugar certo”.

Ao contrário do que o vereador possa pensar, Richarlyson está no lugar certo apenas porque é onde ele quer estar. O futebol, que segue sendo racista, que usa o machismo para negar espaços às mulheres, também impõe o silêncio a homens que ousam, em segredo, pensar diferente do que dizem ser o “certo”. Porém, não há “certo”, e sim o contrário: é errado julgar pessoas a partir de seus sentimentos. É covarde fazer piadas que as diminuam, apenas para que alguns deem risadas. É crime agredi-las e matá-las. Rir às custas do sofrimento dos outros não é humor, é tortura – e aos que não entendem isso, basta fechar a janela do navegador, sair deste site e conviver com a própria mediocridade.

Entender que “o mundo está muito sem graça” após ler um texto como esse significa que o problema não está no texto, nem no mundo. Está em quem pensa assim. O “mundo sem graça” para alguns é sinal de que, para os massacrados de sempre, as coisas estão melhorando, ainda que lentamente. Aos que se indignam com a violência contra as minorias, mirem-se no exemplo de clubes como o St. Pauli, da Alemanha, ou de algumas torcidas de clubes brasileiros que lutam abertamente contra o racismo, o machismo e a homofobia. Que, a partir desses modelos, construamos um futebol verdadeiramente de todos e todas, sem distinção de cor, gênero, credo, condição e identidade sexuais, e sem quaisquer amarras econômicas que tirem do povo aquilo que é seu: a vida em uma arquibancada.

Fontes: El PaísEstado de Minas, Grupo Gay da Bahia – GGBSecretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, Confederação Brasileira de Futebol – CBFThe New York Times e Universidade de São Paulo – USP.

 

13 Comentários em Entre as “piadas” e os crimes de ódio, a homofobia do futebol brasileiro

  1. Quase perfeito o texto, só um erro no “que usa machismo para negar espaço a mulheres”.

    O futebol nacional é tão machista que forçou-se a criação do campeonato brasileiro feminino mesmo tendo 0 retorno financeiro. Não se vê uma alma penada na maioria dos jogos, especialmente daqueles que dizem que isso é fruto de machismo.

    A questão é muito simples, faz o produto vender, que o espaço aparece até pra corrida de formigas.

    • excelente comentario…. ATRAIR o publico masculino … feminino … LGBT… todos os publicos…ESSES MARKETEIROS q passem gelol nas pernas para “fazer acontecer” nos estádios e atrair a todos!!!

  2. Olha , misturar estatísticas de violência com torcida de futebol, não funciona muito. Afinal, 347 mortes homo num universo de 50.000 homicídios anuais, torna essa a fatia mais segura pra se viver dentro da sociedade. E não se tem estatísticas confiáveis, de mortes relacionando o futebol, suas torcidas e crimes de ódio. Sinceramente, esta é uma reportagem tendenciosa, que visa apenas buscar identificação com uma bandeira independente dela corresponder a realidade maior da sociedade. Lembrem se sempre , a menor minoria é o indivíduo, seja ele quem for.

  3. É inacreditável o que está tentando se fazer com o futebol. Sinalizador já não se pode usar a muito tempo, bandeiras em vários estados é proibido pela polícia, agora há a todo custo uma tentativa de acabar com clássicos onde duas torcidas possam frequentar os estádios, gritar “Bicha” para o goleiro do time adversário é homofobia, em alguns estádios do Brasil há seguranças o tempo inteiro exigindo que as pessoas fiquem sentadas durante o jogo. Até onde vamos chegar ? Não deixarem mais xingar o juiz ? Fazer recepção para o rival e agradecer o jogador por fazer um gol no nosso time ?
    É óbvio que casos de violência e preconceito deve sim ser discutidos e extinguidos não só do meio do futebol mas sim da sociedade como um todo, agora vamos com calma, o estádio não deve ser um teatro, time adversário tem que sofrer pressão o jogo todo sim, goleiro adversário deve ouvir “zoações” e xingamentos não só durante o jogo mas também em todo aquecimento. se nem isso mais se puder fazer vamos fechar os portões e deixar a torcida ver pela TV onde não vai “ofender” ninguém. Dentro do estádio se deve haver limites é claro, mas o limite não pode ser o de não torcer.

    • Gritar “bicha” não exerce pressão nenhuma, por que gritar e depois ficar calado é a mesma coisa que NADA! Para de querer justificar merda, se ao invés de gritar bicha começar a vaiar a pressão exercida será igual!

  4. BATER NO CARA DAR SOCO DEDO NO OLHO NA CARA DE ARGENTINO, TORCIDA QUEBRANDO TUDO MATANDO GERAL JUIZ LADRAO, JOGADOR COM ARMA NA MÃO, CHEIRADOR CACHORRO NO CAMPO JOGO VENDIDO = ual, belo e moral, libertadores, anos 90, hihi

    chamou de bicha = CRIME INAFIANÇÁVEL PAREM JÁ

    mas o engraçado mesmo foi ler esse texto com um link gigante “sergipe, a RESERVA MORAL do futebol brasileiro” kkkkkkkkk

  5. Como torcedor do Guarani, garanto que essa parte preconceituosa da torcida é imensamente inferior à parte que apoia a vinda do jogador. Por outro lado, da parte de outros torcedores as piadinhas não faltam. Não se deixem enganar pela mídia ridícula de Campinas, pois ela é mais preconceituosa do que qualquer torcedor e é ela quem vem instigando esse assunto há dias. Foda-se o que ele faz no quarto dele. O que importa é o que ele irá fazer em campo e essa é a preocupação de 99% dos torcedores. Muita sorte a ele, pois essa foi uma das melhores contratações que o Guarani fez em muito tempo.

  6. Parabéns a CL. Já passou da hora de tratarmos a homofobia no futebol brasileiro de forma séria e dando a real importância para o tema. Homofobia mata.

  7. Ue, mas não é a CL que repopularizou a lei de Gil?
    E se a sexualidade do Richarlyson é estritamente pessoal, porque em um parágrafo antes o autor de texto questiona a razão de nenhum jogador de assumir como homossexual? Se a questão é pedido, o dado não se torna irrelevante?
    O texto é muito bem intencionado, mas como grande parte das abordagens da causa, é mal argumentado.

    • Tonyhoro, não acha relevante que um jogador que sequer fala sobre sua condição sexual tenha sofrido ataques homofóbicos durante toda a sua carreira? A vida dele não nos interessa – a violência que ele sofre, sim. Interessa a todos nós.

      E eu questiono a razão de nenhum jogador se declarar homossexual porque a razão é uma só: homofobia. Seu comentário pode ser até bem-intencionado, mas me parece um tanto confuso.

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