Entre gandulas e Gandulla, uma história vascaína

Entre o fato e a lenda, o que você escolhe? Gandulla, um fato, virou uma lenda - mesmo sem querer

Gandulla e uma lenda (Foto: Reprodução/O Globo Esportivo, Rio de Janeiro, 11 de novembro de 1939, p. 5)
Gandulla e uma lenda (Foto: Reprodução/O Globo Esportivo, Rio de Janeiro, 11 de novembro de 1939, p. 5)

Há uma máxima de autoria desconhecida (pelo menos para mim) que diz que “se tá na internet, é verdade”. Outra, do tricolor Nelson Rodrigues, diz que “se os fatos estão contra mim, pior para os fatos”. Faço esta pequena introdução para que falemos de uma lenda antiga do futebol brasileiro, especialmente do futebol carioca: um gandula chamado Gandulla.

Reza a lenda que, no fim da década de 1930, o Vasco recebeu um reforço chamado Bernardo Gandulla para realizar alguns testes no clube, podendo ser aproveitado caso se saísse bem. No entanto, ainda de acordo com os populares, através dos tempos, Gandulla não agradou e não foi aproveitado pelo técnico. Para mostrar sua habilidade, o jogador resolveu ficar atrás dos gols, buscando as bolas que eram chutadas para longe, de modo que muitos torcedores e jornalistas da época passaram a chamar de “gandula” toda e qualquer pessoa que fizesse esse trabalho.

Bom, essa é a (ótima) lenda. Mas há uma outra versão.

Corria o ano de 1939 quando o Vasco da Gama recebeu cinco jogadores argentinos e um uruguaio. A regularização da documentação dos jogadores levou um mês e meio para ser concretizada, por conta de um desentendimento entre o Vasco e os clubes envolvidos nas transações, num imbróglio que envolveu as federações nacionais do Brasil e da Argentina, a imprensa dos dois países e até a FIFA. O problema foi resolvido após a entidade máxima do futebol mundial fixar o valor dos passes dos jogadores, obrigando o Vasco a pagar mais de 126 mil contos pelos jogadores, uma fortuna na época – o que abalou o mercado do futebol nacional. Mas, dessa forma, os reforços enfim puderam estrear. E entre eles havia um argentino chamado Bernardo Gandulla, considerado um habilidoso meia-esquerda.

Sua estreia foi num clássico contra o Fluminense, em 23 de abril de 1939. Até o fim do ano, Gandulla somaria 29 jogos atuando pelo Gigante da Colina, anotando dez gols. Um desempenho satisfatório, porém questionável, se levarmos em conta o alto valor investido pelo cruzmaltino. No ano seguinte, Gandulla voltou para a Argentina, onde atuou pelo Boca Juniors e foi campeão argentino logo em sua primeira temporada.

No entanto, ao contrário do que a lenda descrita acima sugere, o termo “gandula” já era usado para definir os meninos que buscavam as bolas fora de campo havia pelo menos 20 anos, como informa uma edição do “Diario de Noticias” (sem acento!) de 30 de maio de 1940, ou seja, poucos meses depois da saída do jogador do Vasco. Mas a história que passaria a ser contada por populares era a do não-aproveitamento de Gandulla dentro, mas sim fora de campo.

Talvez isso se explique pelo cenário a seguir: dada a importância do jogador (que, anos depois, viria a defender a Seleção Argentina), e o alto valor investido, a contratação de Gandulla teve grande repercussão pelo país. O Rio de Janeiro era a capital federal na época e, assim, tudo o que acontecia aqui virava notícia rapidamente. Além disso, os jogos de clubes cariocas tinham grande audiência em outras regiões do país, sendo transmitidos pela Rádio Nacional – fato que, talvez, explique grande número de torcedores de clubes cariocas pelas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Dessa forma, a história de Gandulla, antes restrita apenas ao Rio, encorpou e ganhou o país.

Se é verdade ou boato? Bom, somos o Cenas Lamentáveis, então… DESCUBRA.

Texto: Marcelo David (@marcelod82)

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