Entre lendas e mistérios, a filosofia boleira de Neném Prancha

Com frases históricas atribuídas a si, Neném entrou para a história - ainda que haja controvérsias sobre ele realmente tê-las dito

Neném Prancha passou à história como a principal figura da filosofia boleira. (Foto: Reprodução)
Por Marcelo David, RJ

Em tempos de redes sociais, num mundo onde cada ação é registrada e vigiada pelo Grande Irmão que tudo vê, não é fácil cultivar segredos e mistérios – e essa dificuldade é ainda maior quando se trata de uma figura pública, que de certo modo depende da exposição de si mesmo. Assim, tem-se a impressão de que, nos dias de hoje, altamente conectados, sabemos tudo sobre todos – mesmo que à distância.

Mas há algumas décadas, a informação corria lentamente, “na boca do povo”. Grandes personagens de outras épocas tiveram seus feitos engrandecidos, ou diminuídos, dependendo do que era registrado – ou de quem o fazia. Algumas figuras, envolvidas no mais puro mistério, acabam ganhando contornos míticos, o que contribui para a manutenção de sua já inequívoca grandeza. É o caso de Neném Prancha, o “Filósofo do Futebol”, como uma vez alcunhou Armando Nogueira.

Neném nasceu Antonio Franco de Oliveira, em 1906, em Resende, cidade situada na região sul do estado do Rio de Janeiro. Filho de Zeferino, biscateiro, e Julia, empregada doméstica, deixou a cidade aos onze anos de idade, migrando para a cidade do Rio de Janeiro, onde iniciou sua carreira no futebol ainda como jogador: atuou, sem destaque, no Carioca, clube pequeno da Cidade Maravilhosa.

O insucesso dentro do campo fez Neném migrar mais uma vez, mas sem sair do Rio – nem do futebol. Nas areias da praia de Copacabana, criou uma escolinha de futebol para crianças e jovens, e a partir dali começou a exercitar a função que, para muitos, foi a que melhor desempenhou: a de descobridor de novos talentos para as quatro linhas. Entre os jovens que descobriu nas areias praianas da Princesinha mais conhecida do mundo, os mais famosos são Heleno de Freitas e Junior, lateral levado por Neném para o Botafogo, antes de fazer história no Flamengo.

Um Heleno de Freitas ainda criança, nas areias de Copacabana, recém-descoberto por Neném Prancha. (Foto: Reprodução)
Um Heleno de Freitas ainda criança nas areias de Copacabana, recém-descoberto por Neném Prancha. (Foto: Reprodução)

O Botafogo, aliás, foi a grande paixão de Neném Prancha. Como olheiro, levava para o clube os talentos que descobria e, após tanto sucesso no trato com os jovens, passou a comandar as divisões de base do Glorioso. No clube, acumulou funções: além de olheiro e técnico da base, também era roupeiro e massagista, tudo ao mesmo tempo, acalentado pelo amor que sentia pela Estrela Solitária – a paixão era tanta que o time fundado por Neném na praia de Copacabana chamava-se Botafoguinho, e marcou história nas tradicionais peladas nas areias da zona sul carioca nos anos 1960.

Alto, forte, Neném ganhou o apelido de “Prancha” por causa do tamanho das suas mãos, que mediam 23 cm, e dos pés, que calçavam o número 44. Andava sempre de chinelos, o que chamava ainda mais a atenção para o exagero podal que ostentava. Uma incansável boina sempre lhe ornava a cabeça, ajudando a compor o visual único de um personagem tanto quanto.

Adorado por jornalistas com quem dividia o dia-a-dia do futebol, a Neném foram atribuídas frases que entrariam para a história do futebol brasileiro, como a que diz que “pênalti é uma coisa tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube”, ou a afirmação de que “goleiro é uma posição tão amaldiçoada que onde ele pisa nem grama nasce”, entre outras. No entanto, jamais houve a confirmação de que tais frases realmente foram proferidas por Neném: contemporâneos dele e estudiosos da época garantem que Neném nunca as disse.

Segundo apurou-se, a fama decorre do seguinte: de tão querido, vários jornalistas (incluindo alguns que, quando jovens, foram jogadores seus, como Sandro Moreyra e Sergio Porto) adoravam Neném, e faziam de tudo para colocá-lo em evidência na mídia, divulgando tais frases como se fossem de sua autoria – várias delas foram eternizadas a partir das colunas de Armando Nogueira em jornais da época. Achava-se, inclusive, que Neném Prancha sequer existia, tendo sido um personagem inventado pelo técnico, jornalista e genial João Saldanha, o João Sem Medo – mas sim, Neném existiu, imensamente.

Neném Prancha: uma vida de amor ao futebol - e ao Botafogo. (Foto: Reprodução)
Neném Prancha: uma vida de amor ao futebol – e ao Botafogo. (Foto: Reprodução)

Como já disse Nelson Rodrigues, “se os fatos estão contra mim, pior para os fatos”. A fama de “Filósofo do Futebol” eternizou Neném Prancha, potencializada pelos mitos e mistérios que cercam sua grande figura. Neném, falecido em 1976, vitimado por um infarto, morreu pobre, e assim também viveu. Amou o Botafogo, se multiplicou em funções dentro do clube e viveu um futebol cuja maior especialização era o amor pelo que se fazia. Respeitado pelas crianças de Copacabana e adorado pelos escribas dos jornais da época, Neném Prancha tem, reservado na história, um lugar do tamanho de sua importância, à altura dos seus pés, de suas mãos e de seu carisma.

Fontes: Blog Mundo Botafogo e Revista Trip.

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