Éric Cantona: o rei e o diabo de Manchester

O momento mais icônico da carreira polêmica do grande jogador francês do início da década de 90

Cantona e a inesquecível voadora no hooligan (Foto: Reprodução/Brasilpost.com.br)
Por: Victor Portto, CE

Que saudade dos anos 90 no futebol. Nesse período, vivemos o auge das entrevistas em tom de provocação aos rivais, vimos apostas memoráveis para decidir quem era o “Rei do Rio” (entre Romário, Renato Gaúcho, Edmundo e Túlio Maravilha), declarações sem “papas na língua” ou falsos pudores de jogadores e tantos outros momentos que moldaram o estereótipo da figura de jogador de futebol para a sociedade em geral. Na Europa as coisas não eram tão diferentes em relação ao Brasil. Jogadores e técnicos falavam o que queriam em entrevistas, na Inglaterra a “preparação” para os jogos era regada a muita cerveja e pouca preparação física, as fugas de Romário e Edmundo para o Carnaval… Que momentos. A vida para muitos jogadores parecia uma verdadeira farra, mas no campo os caras resolviam.

Entretanto, relembrar todos esses episódios e não recordar também da figura do “Rei de Manchester” é um pecado, quase uma heresia se nos esquecermos das polêmicas e dos momentos de puro brilhantismo da breve carreira de Éric Cantona. Como esquecer daquela voadora que ele desferiu em um hooligan durante um jogo do Campeonato Inglês de 1995? Uma imagem que até hoje roda o mundo na internet e que marcou para sempre o perfil de Cantona, para o bem e para o mal. Foi um momento que fez os torcedores de fora da Inglaterra esquecerem o absurdo de bola que o francês jogou na carreira, principalmente, com a lendária camisa 7 dos “diabos vermelhos”. Sendo depois eleito por uma pesquisa junto a torcida do Manchester United como o melhor jogador da história e apontado como o grande responsável por reerguer o time que não fazia sucesso desde a década de 70, Éric era o diabo em meio aos diabos vermelhos da Inglaterra.

Um jogador normal não usaria esta camisa e a braçadeira de capitão do United ao mesmo tempo (Foto: Reprodução/efemeridesdoefemello.com)
Um jogador mediano não usaria esta camisa e a braçadeira de capitão do United ao mesmo tempo (Foto: Reprodução/efemeridesdoefemello.com)

O dia era 25 de janeiro de 1995, metade do Campeonato Inglês já tinha sido disputado, o Manchester United brigava pela liderança da competição ponto a ponto com o Blackburn e no jogo da rodada iria visitar o Cristal Palace no acanhado estádio de Selhurst Park. A estratégia do Palace no jogo era bem simples, defender-se para arrancar um ponto do poderoso Manchester e usar de todos os meios possíveis para desestabilizar Cantona – que diga-se de passagem não tinha um pingo de pavio. Deu certo, o jogo se encaminhava pro final (1 a 1, a partida terminou com este placar) e em um lance com o zagueiro do time adversário (Richard Shaw), Cantona acertou um chute no jogador e foi expulso diretamente. Na ida para o vestiário, um torcedor passou a gritar para ele algumas coisas que o irritaram bastante e aí veio a acontecer o momento mais polêmico de sua carreira: a voadora com direito a troca de socos com o torcedor do Palace.

Depois disso, Cantona foi suspenso pelo Manchester até o final da temporada, a Associação Inglesa de Futebol deu uma punição a ele até setembro e o jogador foi condenado a duas semanas de prisão (revertidas depois em 120 horas de serviço comunitário). Sem o seu grande craque o United perderia o campeonato para o Blackburn por um ponto de diferença naquela temporada, mas ganharia um ícone ainda maior para a sua torcida e o futebol ganhava mais uma enorme polêmica na já grande lista de situações delicadas que o francês se colocou (de xingar treinador a cuspir em torcedor adversário, dentre outras). Dono de uma técnica fora do comum para atacantes, faro de gol, visão de jogo apurada, raça enorme, uma personalidade forte e as golas da camisa levantada…essas eram as características marcantes do francês nos seus tempos de jogador.

“The King”, como Cantona é até hoje carinhosamente chamado pela torcida do Manchester United jogou pelas equipes: do Auxerre, Martigues, Olympique de Marseille, Montpelier, Nîmes (todos da França), Leeds e Manchester United (na Inglaterra) até 1998. Jogou na seleção francesa de futebol de 1987 a 1995, mas nunca mais foi convocado depois do episódio da voadora. Jogou somente até os 30 anos de idade por dois motivos: a sua ausência da Copa do Mundo que aconteceria na França em 1998 (que o deixou desmotivado a continuar jogando) e porque não queria mais abdicar da vida, deixar de sair com os amigos, beber e fumar a vontade e fazer outras coisas que queria além do futebol. Viria a estrelar alguns comerciais antológicos da Nike, seria treinador e jogador da seleção de futebol de areia da França (ganhando o Campeonato Mundial de 2005), viraria um bom diretor de filmes, ator (também de teatro), filósofo e político da esquerda socialista francesa.

Cantona foi uma das grandes personalidades do futebol nos anos 1990, para o bem e para o mal, era infernal dentro e fora de campo e hoje continua defendendo tudo que acredita da mesma maneira. Continua sendo o “Rei de Manchester”, capaz de dar voadoras e dizer que se arrepende somente de não ter acertado um murro mais forte no torcedor do Palace, mas também de produzir belas reflexões em seus filmes/documentários.

“O que reconhecemos no futebol? A Liga dos Campeões. Transferências cada vez mais caras. Vaias da torcida. A violência. Grandes negócios. Tem razão em dizer que isso é parte do jogo, mas eu vou falar de outra coisa. Vou falar dos valores reais. Dos homens. Do meu futebol, o que eu joguei, o jogo que amo. Solidariedade, irmandade e igualdade. Vou falar do meu futebol e porque precisamos dele mais do que nunca no mundo atual. Afinal, ainda podemos mudar esse mundo de hoje.” (Éric Cantona, Rebeldes do Futebol)

Abaixo você pode ver algumas das obras primas no campo e na tela do cinema feitas pelo “The King”:

Fonte: Trivela, Goal.com, TerraEsportes, Efemérides do Efémello, Papo de HomemHuffpost Brasil e Terceiro Tempo.

1 Comentário em Éric Cantona: o rei e o diabo de Manchester

  1. Saudoso Cantona! Texto muito bacana, . Parabéns. Ademais, o “Looking for Éric” é um filmaço! E só uma correção: é “Crystal”, e não “Cristal” Palace.

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