Estádio dos Eucaliptos, um templo histórico e memória póstuma colorada

De uma Copa do Mundo à demolição

(Foto: reprodução/ sumulastche)
Por: Jean Costa, RS

Templo: no sentido figurado significa lugar digno de respeito. Patrimônio histórico: é o conjunto de bens que contam a história de uma geração através de sua arquitetura, vestes, acessórios, mobílias, etc. Um estádio geralmente é as duas coisas numa só, ainda mais quando possui momentos importantíssimos na história de um clube, de um Estado e de uma Copa do Mundo. É o caso do Eucaliptos, antiga casa do Internacional.

O Estádio foi inaugurado em 15 de março de 1931, com obras chefiadas pelo engenheiro e ex-presidente do clube, Ildo Meneghetti. Em 1944, ganhou o nome oficial, como uma forma de homenagem a seu fundador. Mas  recebeu o apelido pelo qual é conhecido devido aos eucaliptos que o rodeavam. Eles haviam sido trazidos do Município de Viamão pelas mãos do ex-presidente do Internacional, Oscar Borba. As mudas foram coletadas na Chácara dos Eucaliptos, que era o antigo campo do clube.

Inicialmente, o templo tinha um pavilhão de madeira na Rua Silveiro e uma arquibancada de tijolo e cimento no lado oposto.  O Eucaliptos possuía capacidade para 10 mil torcedores e logo na sua estreia, em março de 1931, teria um Grenal, que seria vencido pelos colorados por 3 a 0, com três gols de Javel.

Mais tarde, em 25 de junho de 1950, o estádio foi reinaugurado com vitória por 1 a 0 sobre o Grêmio e capacidade para 15 mil torcedores. Três dias depois, em 28 de junho, o Eucaliptos entraria para a história. A Copa era no país do futebol e o Rio Grande do Sul seria uma das sedes naquela época. Como os gaúchos ainda não podiam contar com o Beira-Rio, tampouco com o falecido Olímpico Monumental, teria como sede o então Ildo Meneghetti.

Estádio dos Eucaliptos em dia de jogo nas primeiras décadas de existência (Foto: reprodução/Internacional)
Estádio dos Eucaliptos em dia de jogo nas primeiras décadas de existência (Foto: reprodução/Internacional)

No dia 28 de junho de 1950, Iugoslávia e México fariam aquela que entraria para a história do futebol gaúcho por ser a primeira partida de uma Copa a ser disputada nas terras deste cronista que vos escreve. As duas seleções faziam parte do grupo 1, o mesmo de Brasil e da Suíça. A lástima ficava pelo fato da seleção canarinho não disputar nenhum jogo por aqui.

Registro de 1950 (foto: secopapoa)
Registro de 1950 (foto: secopapoa)

O Eucaliptos estava lotado, 15 mil torcedores se faziam presentes, e esses, viram a máquina Iugoslava atropelar o México por 4 a 1. Cajkovski fez dois gols, Bobek outro e Tomasevic o último. Casarin fez o gol dos mexicanos.

O dia 2 de julho de 1950 também foi marcado pelo de Mundial de futebol no Rio Grande do Sul. Dessa vez com festa Suíça diante dos nossos amigos Mexicanos. Os europeus foram os vencedores, diante de um público de 6 mil torcedores, pouco mais de 1/3 da partida anterior. Com 2 a 1 no placar, gols de Bader e Fatton, e Velásquez descontando para os latinos.

O último jogo no Estádio dos Eucaliptos foi disputado em 26 de março de 1969, quando o Inter goleou o Rio Grande, equipe do interior gaúcho, por 4 a 1. Era o fim de um capítulo na história colorada. A casa que viu a Copa e o histórico Rolo Compressor daria lugar ao Beira-Rio, que seria inaugurado no dia 6 de abril daquele mesmo ano, fazendo com que a velha casa do Colorado dissesse adeus, ao menos até 1999.

Registro da demolição do estádio (Foto: Agência Preview/ Jefferson Bernades)
Registro da demolição do estádio (Foto: Agência Preview/ Jefferson Bernades)

30 anos depois, o então presidente do Inter, Paulo Rogério Amoretty, investiu aproximadamente R$ 800 mil na recuperação do estádio. E em dezembro de 1999, o Internacional voltou a disputar uma partida nos Eucaliptos. Um amistoso, novamente contra o Rio Grande, como havia acontecido na despedida do estádio em 1969. O placar do jogo foi 6 a 2 para o Colorado.

Do caso ao acaso - o Estádio dos Eucaliptos já foi palco de peneira do cronista anos atrás (foto: reprodução/ ClicRBS)
Do caso ao acaso – o Estádio dos Eucaliptos já foi palco de peneira do cronista anos atrás (foto: reprodução/ ClicRBS)

O estádio resistiu ao tempo por mais de 80 anos no bairro Menino Deus. Em agosto de 2010, foi anunciada a sua venda para uma construtora. Em 2008, conselheiros do Internacional aprovaram a autorização de venda do estádio, que viria a ser concretizada em agosto de 2010, por um valor não divulgado, mas que viria a ser utilizado na reforma do Beira-Rio para a Copa de 2014. O Eucaliptos começou a ser demolido em 09/02/2012. Na região, um condomínio seria construído onde fora parte da história do futebol gaúcho. Era o fim do Eucaliptos em presença física, mas da memória ele nunca sairia.

Em fevereiro de 2015 foi inaugurada a Praça Memorial Eucaliptos, no mesmo local que abrigou o Estádio dos Eucaliptos, primeira casa oficial do Colorado, no bairro Menino Deus, entre as ruas Silveiro e Barão do Guaíba. O local é uma praça com características de museu a céu aberto. Há painéis que contam, por meio de textos e fotos, parte do passado do Inter: o Rolo Compressor, os clássicos Grenais e da Copa do Mundo de 1950, que teve dois jogos disputados nos Eucaliptos. Contudo, os destaques são as duas traves originais do velho estádio dispostas no local.

Memorial em homenagem ao estádio no local em que ficava (Foto: Fabiano Amaral)
Memorial em homenagem ao estádio no local em que ficava (Foto: Fabiano Amaral)

Como diria Capote: enquanto você viver, haverá sempre algo esperando, e mesmo que seja ruim, e você saiba que é ruim, o que você vai fazer? Você não pode parar de viver. O estádio dos Eucaliptos pode ter vindo abaixo. “Falecido”, como diriam os demais, mas o mesmo se mantém vivo na história do futebol gaúcho, da Copa de 1950 e principalmente do Internacional. Não é porque deixou de existir que será esquecido. O que esperava pelo estádio talvez realmente fosse o fatídico final que teve, apesar de que vos escrever achar que um patrimônio cultural, independentemente de sua história, deveria ser mantido para ter sua trajetória contada de geração para geração. O Eucaliptos vive como “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, justamente pelo fato do Internacional não deixar essa parte importante de sua história ser esquecida.

Antes da demolição - Eucaliptos foi deixado de lado sem ter o devido valor reconhecido (Reprodução/Sumulastche)
Antes da demolição – Eucaliptos foi deixado de lado sem ter o devido valor reconhecido (Reprodução/Sumulastche)
Fontes: globoesporte.com, zh.clicrbs.com, esporte.uol, Internacional Internacional

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